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segunda-feira, 15 de outubro de 2012 Entrevista, Nota | 08:13

Zona sul fez Rio de Janeiro ser a capital nacional da abstenção

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Entre todas as capitais do País, a do Rio de Janeiro teve o maior índice de abstenção no primeiro turno eleitoral. Foram 965.214 eleitores que deixaram de ir às urnas: 20,45%. Nenhum outro dos 25 estados onde houve eleição teve um índice tão alto. No Brasil, a média foi de 16,41%.

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No caso do Rio, a abstenção foi maior até do que a votação do segundo colocado, Marcelo Freixo (PSOL), que teve 914.082 votos. O prefeito Eduardo Paes (PMDB) foi reeleito por 2.097.733 eleitores, ou 64,60% dos votos válidos – a maior votação para um candidato a prefeito em um primeiro turno na cidade. Os votos nulos (8,48%) e brancos (5,03%) chegaram a 507.323, também acima da média nacional.

Entre as capitais, o Rio ficou a frente de Salvador, na Bahia (19,93%), São Luís, no Maranhão (19,36%) e Vitória, no Espírito Santo (19,34%). Maceió, em Alagoas, registrou o maior comparecimento. Apenas 8,50% do eleitorado faltou. Nas três cidades, ao contrário do Rio, a eleição não foi decidida e será realizado um  segundo turno. A abstenção na capital carioca foi maior do que a média no Maranhão, o estado com mais alto índice no geral (19,62%). No geral, o eleitor compareceu menos nas capitais do que no interior (faltou 17,46% contra 16,11%). Foi mais assíduo nas cidades pequenas. Nos municípios com menos de 20 mil eleitores foi registrado o menor índice de abstenção: 12,74%.

No Estado do Rio, a capital também se destacou. Percentualmente, somente as pequenas Porciúncula e Miracema (ambas com 20,47%) tiveram mais ausências.

Copacabana, a campeã da abstenção

De acordo com um levantamento feito pelo iG com base nos dados oficiais do TRE-RJ, das dez zonas eleitorais da cidade que registraram menor comparecimento, nove ficam na zona sul carioca e uma no centro. A campeã é a 18ª, em Copacabana, com 31,92% de faltantes. A segunda também fica lá. É a 205ª, com 31,51%. Das que tiveram maior abstenção, outras três são no bairro, duas ficam no Jardim Botânico, uma em Laranjeiras e uma no Catete. A da região central fica na Saúde.

Para o cientista político da PUC-Rio Cesar Romero, autor do livro “A Geografia do Voto nas Eleições para Prefeito e Presidente nas Cidades do Rio de Janeiro e São Paulo: 1996-2010”, o menor comparecimento de eleitores na zona sul não chega a ser uma surpresa. Mesmo antes de saber a distribuição geográfica dessa abstenção, ele apostava na zona sul.

“Na zona oeste popular, na Leopoldina e na Central a abstenção é mais baixa. mas o voto válido é menor, com mais nulos e brancos”, diz ele, que analisou as últimas oito eleições na cidade. Segundo ele, os bairros da metade sul, próximos da orla, como Barra, Copacabana, Leblon e Ipanema, têm um perfil mais conservador. É onde o voto válido é maior, e a abstenção também.

Romero explica que esse eleitor de classe média, com mais escolaridade, tem mais dinheiro e maior possibilidade de viajar. “Já o da zona oeste popular, por exemplo (como Bangu, Campo Grande, Santa Cruz e Jacarepaguá), tem menos dinheiro, não tem casa fora e migra menos também”.

No primeiro turno da eleição carioca, todas as dez zonas com menor índice de abstenção ficam na zona oeste. Nessa lista, a primeira é a 120ª em Campo Grande, com 14,54% de faltantes. Das outras nove, mais duas ficam em Campo Grande, quatro ficam em Santa Cruz, duas em Bangu e uma na Taquara.

Ausência de candidato conservador forte

É interessante notar que no segundo turno da eleição municipal de 2008 – a apertada disputa entre Eduardo Paes (PMDB) e Fernando Gabeira (PV) –  também ficou marcado pelo baixo comparecimento dos eleitores. Paes venceu por 55.225 votos e a abstenção chegou a 20,25%. Na época, aliados de Gabeira chegaram a atribuir a derrota à antecipação do dia do funcionário público pelos governos estadual e municipal. O “feriadão prolongado” teria estimulado viagens.

Agora, em 2012, Romero destaca dois outros fatores que podem ter contribuido para o baixo comparecimento às urnas no primeiro turno. O primeiro é que, desde o ínicio da campanha, nenhum adversário chegou a ameaçar a hegemonia de Paes. Ele liderou com ampla folga todas as pesquisas de intenção de voto. “Todo mundo sabia que o Eduardo Paes iria ganhar e isso pode ter desestimulado os eleitores”.

O segundo fator foi a ausência de um candidato de perfil mais conservador que realmente atraísse esse eleitorado. O próprio Eduardo Paes, na avaliação de Romero, também tira votos na esquerda, até pela chapa com o PT. “A direita no Rio ficou órfã e não se sentiu representada por nenhum candidato”, afirma o cientista político da PUC-Rio. “Para esse eleitorado mais conservador o Freixo não era uma opção. O Otávio Leite e a Aspásia não tem nenhum carisma. E muitos rejeitaram a chapa Rodrigo Maia e Clarice Garotinho por causa dos pais, o Cesar Maia e o Anthony Garotinho. A união deles foi uma soma que subtraiu”.

Onde a abstenção foi maior na cidade do Rio

1. Zona Eleitoral nº 18 (Copacabana) – 31,92%
2. Zona Eleitoral nº 205 (Copacabana) – 31,51%
3. Zona Eleitoral nº 1 (Saúde) – 30,83%
4. Zona Eleitoral nº 5 (Copacabana) – 30,49%
5. Zona Eleitoral nº 206 (Copacabana) – 29,58%
6. Zona Eleitoral nº 165 (Jardim Botânico) – 29,54%
7. Zona Eleitoral nº 252 (Copacabana) – 28,70%
8. Zona Eleitoral nº 17 (Jardim Botânico) – 28,31%
9. Zona Eleitoral nº 3 (Laranjeiras) – 27,96%
10. Zona Eleitoral nº 163 (Catete) – 27,54%

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terça-feira, 3 de janeiro de 2012 Perfil | 23:16

Morre a última sobrevivente da cela 4

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Morreu, aos 102 anos, Beatriz Bandeira, a última sobrevivente da famosa cela 4 – onde foram presas, na Casa de Detenção, no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, as poucas mulheres que participaram da revolta comunista de 1935 no Brasil.

Beatriz Bandeira Ryff, aos 35 anos, com seus filhos gêmeos (1945)

Beatriz Bandeira Ryff, aos 35 anos, com seus filhos gêmeos (1945)

Foi na cela 4 que ficaram confinadas Olga Benário (esposa do líder da intentona, Luiz Carlos Prestes), a psiquiatra Nise da Silveira, a advogada Maria Werneck de Castro e as jornalistas Eneida de Moraes e Eugênia Álvaro Moreyra.

Por conta dessa passagem, Beatriz virou personagem de livros como “Memórias do Cárcere”, o relato biográfico de Graciliano Ramos, que também esteve preso por causa da revolta.

Pouco antes, como militante comunista e da Aliança Nacional Libertadora (ANL), Beatriz conheceu seu marido, Raul, que viria a ser jornalista e secretário de Imprensa do governo João Goulart (1961-1964). Com ele se casou três vezes.

Os dois foram exilados duas vezes. Em 1936, depois da libertação, foram expulsos para o Uruguai. Em 1964, após o golpe militar, receberam abrigo na Iugoslávia e, posteriormente, na França.

Ao regressar ao Brasil, Beatriz continuou a militância política nos anos 70 e 80. Foi uma das fundadoras do Movimento Feminino pela Anistia e Liberdades Democráticas, que lutou pelo fim da ditadura no País.

Beatriz nasceu em uma família positivista. Seu pai, o coronel do exército Alípio Bandeira, foi abolicionista. Como militar, trabalhou no Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e ajudou o Marechal Cândido Rondon na instalação de linhas telegráficas no interior do País e no contato com tribos isoladas – Alípio liderou o encontro com os Waimiri Atroari em 1911, por exemplo.

Além de militante política, Beatriz foi poeta (publicou “Roteiro” e “Profissão de Fé”) e professora (foi demitida pelo regime militar da cadeira de Técnica Vocal do Conservatório Nacional de Teatro). Também escreveu crônicas e colaborou para o jornal A Manhã e as revistas Leitura e Momento Feminino. Há dez anos ela contou um pouco de sua história em uma entrevista à TV Câmara.

Beatriz morreu na noite de segunda (dia 2) após um AVC. Foi enterrada no final da tarde de hoje (dia 3) no Cemitério São João Batista, em Botafogo.

Uma nota pessoal

Beatriz Bandeira Ryff era minha avó. Nos últimos anos de sua vida centenária a senilidade tinha lhe tirado totalmente a visão. Ela quase não falava e mal se comunicava com o mundo.

Há uns dez dias, fui visitá-la levado pelo meu filho de 8 anos que queria dar um beijo na “bisa”. Encontramos ela mais presente do que em todas as visitas nos anos anteriores. Chegou a cantarolar algumas músicas que costumava embalar o sono dos netos quando pequenos, como os hinos revolucionários “Internacional”, “A Marselhesa” (embora ela também cantasse obras não políticas, entre elas a “Berceuse”, de Brahms).

Ao me despedir, perguntei-lhe se lembrava o trecho do poema “Canção do Tamoio”, de Gonçalves Dias, que ela costumava recitar. Ela assentiu levemente com a cabeça e começou, puxando do fundo da memória. Foram suas últimas palavras para mim.

“Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos,
Só pode exaltar.”
(“Canção do Tamoio”, Gonçalves Dias)

Beatriz Bandeira Ryff, aos 90 anos

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terça-feira, 13 de dezembro de 2011 Reportagem | 12:31

‘Álbuns de família’ expõe a privacidade de políticos poderosos do acervo do CPDOC

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Se de perto ninguém é normal, como disse Caetano Veloso, isso serve para o oposto, de perto ninguém é tão anormal ou diferente assim. Mesmo políticos poderosos, polêmicos, ou até ditadores, têm lá seus momentos prosaicos de ternura, doçura ou singeleza na intimidade, como revela a exposição “Álbuns de Família – A vida privada no acervo CPDOC”, no Espaço Cultural FGV (Rua da Candelária, 6, no Centro do Rio).

Tancredo Neves (no centro, à direita) fantasiado no carnaval

Tancredo Neves (no centro, à direita) fantasiado no carnaval

A exposição é um mergulho na iconografia guardada pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, o maior do País, que abriga mais de 1,8 milhão de documentos e cerca de 200 arquivos pessoais de homens públicos.

Organizada por Mônica Almeida Kornis, responsável pelo setor audiovisual do CPDOC, e por Regina da Luz Moreira, a exposição conta com material de acervos de alguns presidentes, como Getúlio Vargas, João Goulart, Costa e Silva, Ernesto Geisel e Tancredo Neves. Mas também usa fotos de políticos não tão expressivos, como embaixadores, governadores e ministros.

A mostra está dividida em três partes: “Retratos de família”, com fotos mais convencionais, muitas posadas em estúdio; “Lazer”, com imagens de viagens e férias; e “Comemorações”, com registros de cerimônias marcantes, como casamentos, batizados ou aniversários”.

O presidente Ernesto Geisel nadando no mar do Havaí

O presidente Ernesto Geisel nadando no mar do Havaí

Alguns flagrantes inusitados chamam a atenção. Principalmente dos personagens mais conhecidos. É o caso do ex-presidente Ernesto Geisel no mar do Havaí, ou de Tancredo Neves, ainda criança, fantasiado em um baile de carnaval. Ou do sisudo general Costa e Silva recebendo um beijo carinhoso da neta.

Entre ex-presidentes, Getúlio Vargas e sua família têm um destaque maior. É dele um dos principais acervos da instituição, juntos com os de Tancredo, do ex-ministro Gustavo Capanema e do ex-chanceler Azeredo da Silveira.

Ulisses Guimarães com Ruth Marinho (então mulher de Roberto Marinho) em Angra dos Reis

Ulisses Guimarães com Ruth Marinho (então mulher de Roberto Marinho) em Angra dos Reis

Alimentando as emas e de sunga azul

A exposição revela um olhar pouco usual para a intimidade do poder. Dos principais governantes brasileiros, o único que fez questão de mostrar sua vida privada de forma constante e oficial foi Luiz Inácio Lula da Silva. O fotógrafo da Presidência, Ricardo Stuckert, teve acesso franqueado à intimidade de Lula e de sua família.

Em oito anos de poder não faltaram registros de atividades prosaicas de Lula, como dar comida aos peixes e emas do Palácio da Alvorada com uma camiseta do Vasco; deitado na grama abraçado à cadela de estimação, Michele; trocando afagos com a primeira-dama, Maria Letícia; e fantasiado de caipira na famosa festa junina que costumava promover na Granja do Torto.

Algumas fotos devem ter enlouquecido os diplomatas encarregados do cerimonial e preocupados com o protocolo do cargo. Afinal, não há liturgia que resista a um presidente submerso vestindo apenas uma sunga azul como o flagrante captado na Praia de Atalaia em Fernando de Noronha.

Mas Lula é um político diferente dos demais. Não só por isso, claro. Outros governantes brasileiros se deixaram mostrar em momentos privados, mas nenhum com tamanho grau de evasão de privacidade. A divulgação de registros tão íntimos, entretanto, acabam por ajudar a compor a imagem pública desses personagens.

Muitas vezes tais flagrantes tinham um objetivo político. Um caso famoso, certamente, é o de Fernando Collor, que costumava fazer suas corridas dominicais vestindo camisetas com slogans.

Cartão de natal e sombrinhas no cemitério

Na exposição do CPDOC, contudo, ambos estão de fora. Seus acervos não fazem parte da instituição. “Álbuns de Família”, foca nos diversos aspectos da vida privada de homens públicos que atuaram no cenário político brasileiro pós-1930”. Entretanto, a despeito do texto de apresentação, personagens pré-revolução de 30 não foram esquecidos.

Familiares de Quintino Bocaiúva visitam seu túmulo em 1913, no primeiro aniversário de sua morte

Familiares de Quintino Bocaiúva visitam seu túmulo em 1913, no primeiro aniversário de sua morte

É o caso de Quintino Bocaiúva, que foi o primeiro ministro das Relações Exteriores após a proclamação da República, em 1889, e foi presidente do Estado do Rio de Janeiro no início do século passado. Um bairro do Rio, aliás, foi batizado em sua homenagem. Em exibição está uma foto de 11 de junho de 1913. Sua família visita seu túmulo no primeiro aniversário de sua morte – com todos os membros vestidos de preto e as mulheres com sombrinhas para proteger do sol posando circunspectos para um fotógrafo.

Nesse registro, como em vários outros, não há homens públicos nas fotos, mas familiares. Como no caso dos netos do marechal Odílio Denys, ex-ministro da Guerra e expoente do golpe de 1964, sentados em uma escada em um cartão de boas festas de 1980. Ou nas fotos de Alzira e Getúlio Vargas Filho curtindo o carnaval em Poços de Caldas em 1935, quando o pai era presidente.

É interessante perceber também – e isso é ressaltado pelas organizadoras – a maneira como evoluiu com o passar do tempo a relação dos fotografados com a câmera. Das poses duras em estúdio até flagrantes descontraídos.

Sem contexto

Eis aí, entretanto, a nota fora de tom da exposição. Há maior preocupação em discorrer sobre a evolução técnica da fotografia do que em explicar o momento captado, sua importância, ou mesmo quem é o retratado. Como se o público comum soubesse quem foram Agamenon Magalhães (interventor e governador de Pernambuco e ministro da do trabalho e da Justiça entre as décadas de 30 e 50), Cordeiro de Farias (participante do movimento tenentista na década de 20, da revolução de 30, interventor no Rio Grande do Sul e governador de Pernambuco), ou Temístocles Cavalcanti (ex-ministro do STF), para citar alguns. Afinal, personagens mais conhecidos como presidentes da República estão em minoria.

Para uma instituição que tem como fundamento a preservação da memória e trabalha com a divulgação de informações sobre a história contemporânea do País soa como uma falha.

Mônica Kornis discorda e explica que essa nunca foi uma preocupação na feitura da exposição. “Não pensamos nisso. Isso privilegiaria menos a questão privada e mais a dimensão política dessas figuras. Não importa tanto saber se o personagem era um ministro, presidente ou um governador, mas sim fazer um recorte da vida privada, independente de quem eram”.

E diz que a ideia da mostra foi justamente preencher uma lacuna. “Temos um conjunto grande de imagens nos nossos arquivos e seu uso é centrado na trajetória política dos homens públicos. O aspecto relativo à vida privada é secundário nas pesquisas da casa e de fora”.

O presidente Getúlio Vargas abraça o pai, Manuel do Nascimento Vargas (com o irmão, Viriato, à direita),

O presidente Getúlio Vargas abraça o pai, Manuel do Nascimento Vargas (com o irmão, Viriato, à direita)

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