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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012 Reportagem | 09:30

Impressões de um penetra no Fashion Rio

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“Abram caminho e saiam da frente! Estou com celebridades!”. A ordem parte de uma jovem produtora de preto, cabelos curtos pretos e grandes óculos redondos pretos saindo do rosto. Escoltando duas moças vestidas de branco – altas, jovens e bonitas -, ela fura a fila de entrada para um desfile da edição de inverno do Fashion Rio 2012, no Pier Mauá, no centro da cidade.

“Quem são essas aí?”,  ouve-se alguém perguntar na fila das “não celebridades”. Ninguém sabe. Até que alguém arrisca. “Acho que uma é a nova miss Brasil, não é não?”. Era. Priscila Machado, a namorada do nadador Cesar Cielo.

Cena de um desfile do Fahion Rio 2012

Plateia de um desfile do Fashion Rio 2012

Do lado de dentro, em uma das salas de desfile – 24 grifes, ao todo -, os fotógrafos se acotovelam em frente à primeira fileira, onde fica o topo de cadeia alimentar do mundo da moda: as principais editoras e consultoras, e as celebridades convidadas para servirem de isca para a imprensa que cobre o assunto (e com isso as marcas ganham mídia gratuita). No momento, o motivo de tanto empurra-empurra é uma ex-BBB e algumas atrizes iniciantes.

A chegada de um pequeno grupo causa burburinho. Dessa vez não são os fotógrafos que correm, mas as jornalistas de moda que se levantam para beijar a mão de uma senhora. “Quem é?”, pergunto. “É a nossa condessa”, me explicam de forma condescendente.  Trata-se de Georgina Brandolini d’Adda, acompanhada da filha, Bianca (uma “it girl”, ou lançadora de tendências), e uma entourage. Nascida no Brasil, casada com um conde italiano, Georgina é figura do jet set internacional. Mas há quem se lembre dela pela ação de despejo movida contra o músico João Gilberto.

Clichês de carioquice

Em outro desfile, a espera do começo, o burburinho na audiência quase encobre o som ambiente, uma sucessão de clássicos do rock anos 90, como “Creep” e “Wonderwall”, transformados em uma versão edulcorada de música de elevador.

Com 40 minutos de atraso, as luzes se apagam. Os seguranças tiram o pano que protege a passarela. É hora do show. Vinte e sete modelos desfilam embaladas por Lana Del Rey (“a”cantora moderninha da vez) e Brigitte Bardot remixada. Um observador mais condescendente veria bailarinas de Degas evoluindo na passarela. Um menos condescendente prefere a imagem de galgos sem coleira trotando no catwalk.

Em silêncio, a plateia, enfeitada de jovens atrizes como Tainá Muller e Maria Ribeiro, reage como se assistisse a um jogo de tênis em câmera-lenta. Todos os rostos se viram devagar para um lado seguindo o caminhar de uma modelo até o fim da passarela; e então os pescoços se viram para o outro para acompanhar a próxima. A partida dura sete minutos cronometrados. E – será que ninguém pensou nisso antes em um evento no Rio? – termina ao som de uma regravação de “Girl from Ipanema”. No quesito originalidade combina com a sandália tipo Havaianas, o brinde oferecido por uma grife ao pessoal da primeira fileira.

‘Ai, que horror!’

Um terceiro desfile aposta em um inverno chuvoso. Inspirado no vestuário sessentista de aeromoças, a marca apresenta uma coleção de roupas que parecem emborrachadas. “É vaqueta”, me explicam. “Tem verniz e vinil também”, como se eu soubesse a diferença.

Do lado de fora, no longo caminho que margeia os galpões onde ocorrem os desfiles, o público também é personagem. Meninas produzidas fazem caras e bocas para fotógrafos. Telões mostram os desfiles – ao vivo ou em repetições. O colunista Bruno Astuto passa por um que mostra uma modelo seminua evoluindo na passarela. “Ai, que horror!”, berra como se tivesse tomado um susto.

Um punhado de rostos levemente conhecidos interpreta jornalistas. “Carlinhos de Jesus agora entende de moda…”, desdenha uma editora de moda ao ver o dançarino falando para uma câmera.

O boato do dia

Entre os jornalistas e especialistas no mercado de moda, a agitação fica menos pelos desfiles e mais pelo boato do dia: a venda da Osklen, uma marca que se esforça em reproduzir o espírito de Ipanema em camisetas. O boato, na verdade, é antigo, mas ganha força nos bastidores do desfile. As pessoas se aproximam para dizer que ela já foi vendida para a Alpargatas. Um diz que foram só 60%.

“A gente vai ser o primeiro a dar”, comemora uma repórter. Outra se irrita e diz que o furo é dela. O colunista Bruno Chateaubriand ironiza. “Se você perguntar aqui, todo mundo sabe disso”, diz ele com gestos largos para enfatizar o “todo mundo”.

O dono da grife, Oskar Metsavath, ironiza. “Não tem nada fechado. Estou em negociação com algumas empresas. Mas pode publicar isso. Publica que eu aproveito e vendo pelo dobro”. Cinco minutos depois, o diretor de marketing da marca aparece para desmentir a venda.

É que, além de desfiles mais ou menos inspirados e de celebridades de todos os quilates, a moda é uma atividade econômica importante. Toda a cadeia produtiva representou 3,7% do PIB brasileiro em 2010 (2,6% do estadual). As duas feiras de negócio realizadas ao mesmo tempo em que o Fashion Rio (o Fashion Business e o Rio-à-Porter) esperam superar o R$ 1,3 bilhão.

Para ficar de pé, só o Fashion Rio e o Rio-à-Porter contaram com 8.500 pessoas. As modelos são uma parcela pequena, 150 apenas. Quantos jornalistas nacionais e estrangeiros? Foram 1.500 credenciados. Fora os penetras sem crachá, como eu.

Champanhe e pizza

Alguns editores de revistas estrangeiras circulavam pelo Pier Mauá sem demonstrar muito entusiasmo. “Você acha que eles se importam com isso aqui? Eles vem para fazer social e por causa das festas”, explica uma jornalista habituée dos desfiles.

A parte da entrada do Fashion Rio é ocupada por uma fila de lounges, de patrocinadores, ou de veículos especializados. Todos com fila na porta de bicões tentando entrar. Em um deles, jornalistas batem suas notas bebericando flutes de champanhe enquanto um DJ coloca um som.

Surpresa mesmo, na primeira vez em um semana de moda com modelos esquálidas, só uma: a pizzaria na área de alimentação. Ficou cheia.

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