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sábado, 6 de outubro de 2012 Entrevista | 09:06

Sem verbas, Instituto Cultural Cravo Albin quer ser municipalizado

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Um dos mais importantes centros culturais ligados à música brasileira no País está em risco. Concebido há 11 anos para promover e incentivar atividades ligadas à música, o Instituto Cultural Cravo Albin, na Urca, está sem verbas. Criado com o objetivo de divulgar, defender e conservar o patrimônio histórico e artístico, o ICCA necessita com urgência de alguém que o divulgue, o defenda e o conserve, pelo que conta seu fundador, Ricardo Cravo Albin.

O Largo da Mãe do Bispo, na cobertura do ICCA (foto: Luiz Antonio Ryff)

O Largo da Mãe do Bispo, na cobertura do ICCA (foto: Luiz Antonio Ryff)

“Não tem sido fácil. As perspectivas para o fim de ano são apreensivas. Precisamos de sustentabilidade. E ter uma tranquilidade de rumo”, afirma Ricardo ao iG. E adianta: “Minha meta é passar para uma instituição pública. Eu vou procurar o prefeito Eduardo Paes. Meu desejo é municipalizar e entregar a gestão para a Prefeitura”. Ele diz que o ICCA necessita de R$ 30 mil por mês para funcionar e atualmente só tem um apoiador, a Faperj, que concede bolsas de auxílio à pesquisa para estudantes trabalharem no instituto.

Fundador do instituto que leva seu nome, Ricardo é um dos maiores conhecedores da MPB. Produtor cultural, ele fundou e presidiu o Museu da Imagem e do Som do Rio, dirigiu a Embrafilme e comandou o Instituto Nacional do Cinema.

Criado em 2001, o ICCA é uma sociedade civil sem fins lucrativos. Sua sede de 3 mil metros quadrados em um cartão postal da zona sul carioca, aos pés do antigo Cassino da Urca e do Pão de Açúcar, foi doada pelo próprio Ricardo. Sua fundação contou inicialmente com seu acervo pessoal. Mas outras doações de pesquisadores, colecionadores e artistas, como a do cantor Ivon Curi, foram incorporadas.

Violão de Cartola e sandália de Carmem Miranda

A coleção inclui instrumentos e objetos pertencentes a artistas. Entre os itens, há uma sanfona de Luiz Gonzaga, um par de sapatos plataforma de Carmem Miranda, violões de Luiz Bonfá, Herivelto Martins e Cartola, uma roupa de show das Frenéticas, um chocalho de prata de Pixinguinha com a partitura de “Carinhoso” gravada no metal.

Microfone que pertenceu ao Cassino da Urca (foto: Luiz Antonio Ryff)

Uma das curiosidades mais interessantes é a reprodução de um estúdio da época de ouro do rádio, com aparelhos dos anos 30 ainda em funcionamento. São transmissores, receptores, amplificadores valvulados, mixers de quatro canais, monitor de áudio, gravador de rolo, caixas de som, microfones variados (entre eles um do Cassino da Urca).

O arquivo fonográfico conta 30 mil discos de 8, 10 e 12 polegadas (vinis de 33, 45 e 78 rotações em goma laca e compactos simples e duplos), mais 2 mil fitas sonoras em rolo, 700 cassetes e cerca de 5 mil CDs de música brasileira – de Mário Reis, Tom Jobim e João Gilberto a É o Tchan, Xuxa e Trem da Alegria, passando por Raul Seixas e Cássia Eller.

Muitos objetos chegam danificados ou mal conservados. O ICCA teve que tratar 15 mil discos. Alguns vinis mais sujos passam pela limpeza em um equipamento importado da Alemanha.

Além de documentos, fotografias, revistas e jornais, programas de rádio e TV e roteiros de espetáculos musicais, o acervo mantém uma coleção de vídeos de programas musicais e depoimentos de artistas.

Dicionário online de MPB

Ricardo Cravo Albin, fundador do Instituto que leva seu nome (Foto: divulgação)

O ICCA também é responsável pelo Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, disponível online, que conta com cerca de 7 mil verbetes e tem mais de 150 mil consultas por mês.

O instituto também publica livros e a revista Carioquice, lança CDs e realiza mostras. A exposição atual é dedicada ao centenário de nascimento do compositor Herivelto Martins, autor de diversas marchinhas, sambas e também protagonista de um dos relacionamentos mais conturbados e famosos da MPB, seu casamento com a cantora Dalva de Oliveira – e mais do que tudo, a polêmica separação com os dois trocando farpas através de canções.

O ICCA funciona de segunda a sexta, das 10h às 17h. A entrada é gratuita, mas é preciso fazer agendamento pelo telefone (21) 2295-2532. Segundo Cristiana Coutinho, coordenadora do acervo, o público é composto basicamente de pesquisadores acadêmicos, estudiosos (inclusive do exterior) e grupos escolares.

Também são realizados saraus nos jardins da cobertura do instituto. Há dois fixos, o Clube de Jazz e Chorando com Joel, capitaneado por Joel do Bandolim. Além desses, eventualmente são organizados outros. O mais recente, em agosto, teve o gaitista Rildo Hora e Zezé Motta. São fechados a convidados, mas alguns convites são sorteados pela rádio MPB FM, no Rio.

No Rio, o Instituto Moreira Salles faz algo parecido, embora suas atribuições sejam mais abrangentes e sua capacidade também. “O trabalho do IMS é muito importante, mas eles têm um banco por trás”, compara ele, referindo-se ao Itaú, que após a fusão com o Unibanco passou a ter entre os sócios a família Moreira Salles.

Às vésperas de completar 73 anos, Ricardo está preocupado com o futuro de seu legado. Em 2010, um grupo de empresas prometeram bancar o ICCA. “Prometeram, mas só deram um ano e não renovaram”, lamenta.

A praia da Urca vista da varanda do Instituto (foto: Luiz Antonio Ryff)

A praia da Urca vista da varanda do Instituto (foto: Luiz Antonio Ryff)

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