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sexta-feira, 27 de abril de 2012 Entrevista, Reportagem | 16:14

Maior museu de arte naïf no mundo reabre após cinco anos fechado

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Nascido na França de uma família de origem judia polonesa, Lucien Finkelstein (1931-2008) chegou ao Rio de Janeiro sozinho, aos 16 anos, pouco após a Segunda Guerra acabar, sem falar uma palavra de português. Tinha passado o conflito escondido em uma casa no interior da França.

Exemplo de molas panamenhas exposta no Mian (foto: divulgação)

Exemplo de molas panamenhas exposta no Mian (foto: divulgação)

No Brasil, construiu uma família, um nome como joalheiro de reputação internacional e a maior coleção de arte naïf, que ele legou à cidade. O Museu Internacional de Arte Naïf fica no Cosme Velho, a poucos passos do bondinho do Corcovado, que leva ao Cristo Redentor.

“Ele achava que a arte naïf era a mais genuína de um povo. E o museu era o jeito dele para pagar uma dívida com a cidade que o tinha acolhido. Meu avô chegou aqui com uma mão na frente e a outra atrás, passando fome”, conta a educadora Tatiana Levy, que atua como gerente executiva do Mian.

Infelizmente, o museu ficou fechado durante cinco anos. Reabriu nesta sexta-feira (27), mostrando 250 obras em oito exposições. Uma delas é a panamenha “Molas”, que apresenta 15 telas com técnicas de sobreposição de tecidos feitas pelas índias da tribo Kuna.

A história do criador do museu

Lucien veio morar com os tios e começou a trabalhar na loja que vendia pedras e gemas brasileiras de propriedade do marido de sua tia, um imigrante judeu russo. Aprendeu português, virou atleta e chegou a competir pelo Fluminense em modalidades olímpicas como o arremesso de dardo.

Gostava de desenhar e pintar. Se encantou ao ver uma aquarela de Di Cavalcanti e um quadro de Heitor dos Prazeres na Livraria Francesa, em Copacabana. Daí nasceu o interesse pela arte naïf (também conhecida como arte primitiva moderna, ela se caracteriza por certa ingenuidade dos traços, por ter um caráter autodidata, não vinculado à qualquer corrente acadêmica formal).

Os Arcos da Lapa retratados pelo pintor Agostinho (foto: divulgação)

Os Arcos da Lapa retratados pelo pintor Agostinho (foto: divulgação)

Ao casar, Lucien resolveu criar uma joalheria e desenhar as próprias peças, valorizando um design próprio, em vez de apenas vender as gemas. Acabou descoberto por socialites como Teresa Souza Campos e foi catapultado para a capa da Manchete, importante revista de então.

Viveu seu auge profissional nos anos 50 e 60, quando uma pulseira fez parte do acervo da rainha Elizabeth II e criou uma coleção com Di Cavalcanti – de quem ficou amigo e passou a trocar quadros por joias. Pelo design de suas obras, acabou agraciado com o De Beers, o mais importante prêmio do mercado joalheiro mundial,.

Com o dinheiro das joias ele começou sua coleção. Colecionou durante 40 anos. E reuniu cerca de 6 mil obras de mais de 100 países. Teve que arranjar um apartamento para colocar o acervo. Em 1988, exibiu parte dele em uma exposição no Paço Imperial.

O sucesso levou ao desejo de montar um local para a exibição permanente. Ele comprou um casarão do século 19 no Cosme Velho para abrigar as obras. O Mian foi aberto em 1995, pelo esforço dele. O museu acabou recebendo uma verba municipal para o funcionamento, que foi cortada. Em 2007 ele foi fechado por falta de dinheiro para operar.

“O museu fechou em 2007 e meu avô morreu no ano seguinte de ataque cardíaco. Ele ficou deprimido e triste. Não conseguia entender como o governo não se interessava em manter na cidade um acervo tão significativo”, diz Tatiana. Ela conta que o avô tinha recebido convites para levar o acervo para outras instituições, mas queria que ficasse no Rio.

Entre 2007 e 2011, embora de portas fechadas, o museu ainda podia ser visitado por grupos que o contatassem. Em 2010, contudo, uma chuva destruiu o telhado e inundou a reserva técnica. Trezentos quadros foram danificados.

O painel "Rio de Janeiro, gosto de você, gosto dessa gente feliz...", de Lia Mittarakis, tem 4 x 7 metros (foto: divulgação)

O painel "Rio de Janeiro, gosto de você, gosto dessa gente feliz...", de Lia Mittarakis, tem 4 x 7 metros (foto: divulgação)

Em abril do ano passado o museu fechou completamente. A ajuda chegou com a Secretaria Municipal de Cultura, que liberou uma verba, e o Prince Claus Fund, instituição holandesa que preserva acervos pelo mundo e custeou a reforma do telhado e da reserva técnica.

O museu reabre reformado. Houve uma reforma museológica que privilegiou uma nova identidade visual e elementos de tecnologia com audioguias. No subsolo há uma videoinstalação em homenagem a Henri Rousseau, le douanier, francês precursor e nome mais conhecido da arte naïf no mundo.

Mas ainda tem muita coisa a fazer. A lojinha deve começar a funcionar este mês. O café ainda não tem prazo. A perspectiva do site é ficar pronto em maio. E Tatiana diz que é preciso restaurar a fachada do museu e que não há verba de manutenção básica para serviços de limpeza, conservação, jardim, gastos com luz, água… – a família ainda arca com isso.

“Queremos transformar o museu em uma instituição auto-sustentável. Mas ainda falta um caminho a percorrer”, diz Tatiana.

MUSEU INTERNACIONAL DE ARTE NAÏF (MIAN)
Rua Cosme Velho, 561 – Cosme Velho.
Funcionamento: de terça a sexta, das 10h às 18h; sábado, das 12h às 18h com agendamento prévio (até um dia antes).
Ingresso: R$ 16; crianças até 5 anos não pagam; R$ 8 (meia entrada), estudantes, menores de idade e maiores de 60 anos.
Telefone: (21) 2205-8612

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