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terça-feira, 19 de junho de 2012 Nota | 22:47

Índio defende movimento revolucionário indígena na Cúpula dos Povos

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Uma faixa estendida em uma mesa colocada estrategicamente entre algumas das principais tendas e um auditório na Cúpula dos Povos, evento paralelo a Rio+20, chamava atenção: Pedia guerreiros indigenas para o Movimento Revolucionário Indígena – 500. Um cartaz conclamava: “Ações guerreiras já”.

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Tiuré durante seu 'processo espiritual' (foto: Luiz Antonio Ryff)

Tiuré durante seu 'processo espiritual' (foto: Luiz Antonio Ryff)

No meio da tarde o estande improvisado estava vazio. Apenas os cartazes, algumas flechas e a faixa. Uma hora depois um homem com uma espécie de cocar de palha e com o corpo pintado estava sentado em uma das cadeiras, com olhar longínquo. “Agora não posso falar. Estou num processo espiritual”, desculpou-se falando baixo e lentamente. 
”Volte mais tarde”, balbuciou.

Algumas horas depois, o homem estava disponível. Identificou-se como Tiuré, 63 anos, índio potiguara da aldeia Lagoa do Mato, na Paraíba e explicou por que não podia falar.

“Eu estava em uma outra sintonia, não estava aqui. Um parente me deu uma planta mágica para cheirar”. A tal planta é um pó, rapé indígena, que é colocado em um canudo. Tiuré conta que o parente soprou o pó para dentro de sua narina.

E o que essa planta mágica faz, perguntei? “Eu fico em paz, recebendo energia dos meus antepassados”.

Tiuré já pronto para a guerra (foto: Luiz Antonio Ryff)

Tiuré já pronto para a guerra (foto: Luiz Antonio Ryff)

Mas tirando o efeito do rapé, Tiuré não quer paz. Ao contrário. Ele defende a guerra e se propõe a conclamar os indígenas guerreiros para uma ação na cúpula. “Estamos nos preparando para isso. Ainda não temos gente suficiente”.

“Temos que pressionar o Estado para que ele tome ações concretas”, afirma. No caso de sua aldeia, Tiuré quer retomar 20 mil hectares que ele diz terem sido tomados à força nos últimos 40 anos – e que foram entregues a usinas e grandes proprietários.

Para isso ele defende ações armadas. “Mas não com armas de fogo”, salienta. “Só usamos as nossas armas, bordunas, arco e flecha, foice, facão e machado”, explica sem alterar a voz ou mostrar agressividade.

“Nós estamos prontos para morrer, como nossos antepassados, na luta pela nossa terra”, garante ele, que diz que o movimento é autônomo, não é filiado a partido e não aceita dinheiro de governo.

Exilado político

Ele explica que seu envolvimento com questões políticas e a defesa das questões indígenas data da época da ditadura, quando conta ter sido preso e torturado, o que o levou ao exílio em Montreal, no Canadá.

Após conversar um pouco em francês, lembrando que lá se fala o quebecois, Tiuré diz que foi o primeiro índio brasileiro reconhecido pelo Alto Comissariado da ONU para refugiados e questiona o atual governo brasileiro e a Comissão da Verdade.

“Há um silêncio sobre a questão dos índios durante a ditadura. Não há uma linha nos livros sobre as atrocidades cometidas contra nós durante esse período. A Comissão da Verdade está aí e não se fala nada. E não houve desaparecimento de indivíduos. Houve genocídio. Aldeias foram exterminadas”.

Para não ficar na gaveta

Apesar de participar da Cúpula dos Povos, ele critica a Rio+20. “Aqui há uma manipulação grande da questão indígena por ONGs e por igrejas, que defendem a elaboração de documentos. É preciso romper com isso. Sou contra esse cenário midiático. Daqui só sai elaboração de papéis que vão para as gaveta e armários. Não podemos esperar um Rio+40, é preciso agir já”.

“Eu quero partir para a ação. Em Belo Monte, temos que invadir os acampamentos, os canteiros de obras e parar tudo. O modelo de desenvolvimento adotado por esse governo não vai parar. Por isso estou conclamando os guerreiros para uma guerra”, diz ele. que, ao fim da conversa, gentilmente pede. “Você me manda o texto por email quando sair?”.

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