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quarta-feira, 7 de novembro de 2012 Nota, Resenha | 12:31

Livro conta a criação do Rio e o que São Paulo tem a ver com isso

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Pedro Doria já gostou de uma coisa errada. Até escreveu sobre o assunto e ganhou algum dinheiro com isso. Mas, aparentemente, tomou jeito. Descobridor de Bruna Surfistinha quando estava no site NoMínimo, o editor executivo de O Globo, voltou há pouco mais de um ano ao Rio, onde nasceu. Teve um exílio breve em terras paulistanas e nos EUA quando trabalhava em O Estado de S. Paulo. Ao voltar ao Rio, colocou em prática um sonho antigo, escrever um livro sobre a cidade em que nasceu.

Ele acaba de lançar “1565 – Enquanto o Rio Nascia” (editora Nova Fronteira). É seu quinto livro. Além de “Eu Gosto de Uma Coisa Errada” (ed. Ediouro), de 2006, com reportagens sobre sexo, ele também publicou “Manual para a Internet” (ed. Revan), de 1995, considerado o primeiro sobre o tema no Brasil.

Capa do livro "1565 - Enquanto o Brasil Nascia", de Pedro Doria (foto: reprodução)

Capa do livro "1565 - Enquanto o Brasil Nascia", de Pedro Doria (foto: reprodução)

A ideia do livro sobre o Rio havia surgido ainda no apagar das luzes do século passado, em um breve momento em que Pedro esteve longe das redações.

Ele narra o início da história da cidade, e quanto de sua implantação se deve a integrantes da família Sá: Mem de Sá; Estácio de Sá (o fundador oficial); Salvador Corrêa de Sá, o Velho; Martim de Sá; Salvador Corrêa de Sá e Benevides. Todos governaram o Rio no seu primeiro século de vida, alguns mais de uma vez.

Pedro diz que não descobriu fatos novos, não há pesquisa inédita, que ele apenas compilou o que é conhecido, às vezes quase desconhecido ou esquecido, e deu um tratamento jornalístico ao que apurou. Assim, além de relatar a gênese do Rio, ele conta diversas histórias curiosas e esclarece a origem de algumas coisas importantes para a compreensão do que se tornou a cidade 450 anos mais tarde.

A começar pela falta de cuidado com a própria memória. “A região do Castelo, no Centro, leva o nome do morro onde a cidade se fez, mas, para nós, é só o Castelo. Não há um marco imponente para dizer quantos viveram, quantos morreram, por que demoliram. Não há sequer placa para dizer que ali houve um morro posto abaixo. No morro da Glória, lá está a igreja do Outeiro, simpática, mas não há lembrança de Estácio, Aimberê ou da aldeia Uruçumirim. Ali foi o cenário de uma batalha sangrenta que definiu a fundação da cidade. Se os portugueses tivessem perdido aquela batalha, como perderam tantas outras, não haveria Rio”.

Eis algumas das histórias levantadas por Pedro, que é um amigo e ex-colega de NoMínimo.

“O Rio nasceu para que São Paulo sobrevivesse”
É uma tese controversa e que Pedro lança logo na primeira página do prefácio e repete ao longo do livro. Leitores de O Globo baixaram o sarrafo na ideia de que o Rio nasceu conquistado e fundado por paulistas. Pedro conta que Estácio de Sá arregimentou em São Paulo a tropa que foi expulsar os franceses que haviam ocupado o Rio e iniciado um assentamento com ajuda dos índios locais. “Os homens que caíram mortos ao lado de Estácio, naquela batalha inicial, eram quase todos paulistas que tinham um inimigo comum: os tupinambás que atacavam suas fazendas e cidades.”

Pelo que está escrito no livro, há uma outra leitura, não destacada pelo Pedro. A primeira coisa que o grupo amealhado em São Paulo para expulsar os franceses fez ao chegar ao Rio foi destruir tudo. O que pode explicar que a picuinha entre habitantes de Rio e São Paulo vem de longe.

A violência está no DNA da cidade
Era uma guerra atrás da outra. Não raro descambando para a selvageria e barbárie. Antropofagia era o forno de microondas por essas bandas no século 16. A carnificina marcou a conquista da terra pela tropa de Estácio de Sá, em janeiro de 1567, na batalha de Uruçumirim, a principal aldeia. “Os índios todos foram dizimados. Suas cabeças, cortadas, fincadas em estacas, tamanho o ódio que por eles nutriam os europeus. Uruçumirim foi posta em chamas”.

Bendita violência
Era tanta violência que nem os religiosos ficavam de fora do vandalismo. Pedro conta que os carmelitas estavam entre “os mais afeitos à porrada”. “A cada vez que passava um bando carregando um caixão, saíam os monges e seus escravos, porretes à mão, para descer lambadas e dispersar o povo. Quase todo enterro era assim”.

Tráfico é coisa antiga
O tráfico era atividade essencial à vida na cidade no século 17. O de escravos, bem entendido. Os escravos chegavam ao Rio e eram revendidos para outras colônias e até para trabalhar nas minas de Potosí, na Bolívia.

Origem do carioca
No bairro do Flamengo, entre as ruas Princesa Januária e Senador Eusébio, atrás do Morro da Viúva e a 400 metros do monumento a Estácio de Sá, teria sido erguida a Casa de Pedra, a primeira construção no molde europeu a ser erguida no Rio no início do século 16. Diz uma lenda que os índios acharam ela tão diferente que lhe deram o nome de “carioca”, casa de branco.

Por que Flamengo?
Foi no Flamengo que os franceses, antes de serem expulsos pelos portugueses e por paulistas, criaram a cidade de Henriville, homenagem ao então rei francês, Henry IV. O bairro do Flamengo, aliás, ganhou esse nome porque teria abrigado uma comunidade de holandeses no Brasil colônia.

A fortaleza francesa
Nicolas de Villegagnon, o navegador que liderou a experiência da França Antártica, erigiu um forte em uma pequena ilha na Bahia de Guanabara não longe do continente. Era lá que ele ficava. O forte Coligny foi destruído e não deixou vestígios. A ilha está ainda lá. Ganhou o nome do francês e sedia a Escola Naval, da Marinha. Está praticamente colada ao aeroporto Santos Dumont.

Apelidos de pessoas que viraram nomes de lugares
Quando chegaram para expulsar os franceses, os primeiros colonos portugueses se assentaram no pedaço de terra entre o Pão de Açúcar e o Morro Cara de Cão, que ganhou esse nome por conta do apelido dado a um sujeito que recebeu as terras. O bairro de Botafogo ganhou esse nome porque as terras haviam sido dadas a um sujeito que era artilheiro de uma expedição. Era quem acendia os canhões.

Tabaco
O padre franciscano André Thevet, que integrou a expedição de Villegagnon, ao voltar à França levou sementes de algo que os índios chamavam “petum”. Outro francês, o embaixador em Portugal, Jean Nicot, iria difundir o uso da “Nicotiana tabacum”.

Si tu vas à Rio…
O Rio nasceu cosmopolita. Sua fundação e colonização não foi obra apenas de portugueses. Era gente de todo mundo… franceses, ingleses, holandeses, espanhóis. Não é de hoje que os estrangeiros que aqui chegam, logo se aculturam. “Salvador Corrêa de Sá, segundo governador do Rio, sucessor de seu primo Estácio, falaria nhengatu fluentemente. A língua da terra. Que seria a língua de seus filhos e netos”.

Lerê, Lerê
A Praça XV, no Centro, já era importante no passado. Mas tinha outro nome: largo do Polé. É que desde 1926 ali ficava o polé, um tronco onde os condenados eram amarrados para serem açoitados.

Pagador de promessa
A Igreja da Penha nasceu da promessa de um capitão de milícia, Balthazar Cardoso, que foi picado por uma cobra e sobreviveu. Pôs na igrejinha que ficava no morro mais alto de sua propriedade uma imagem de Nossa Senhora da Penha. Até hoje é visitada por pagadores de promessa, que sobem a loooonga escadaria de joelhos.

Censo pré-IBGE
Em 1587 a cidade tinha 3.850 habitantes: 750 europeus, 3 mil índios e 100 negros. Nesses 425 anos sua população cresceu 1.642 vezes.

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