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sexta-feira, 14 de setembro de 2012 Entrevista | 16:07

George Ermakoff, um ‘arquéologo’ de imagens do Rio de Janeiro

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O economista George Ermakoff sempre foi apaixonado pelo Rio antigo. Era fascinado pelos lotações, tem nostalgia da cidade mais vazia, sem tantos carros e pessoas. “Havia menor adensamento populacional. Dava a impressão de uma cidade mais hospitaleira. O mundo moderno dá a impressão de que somos figurantes no meio da multidão”, lamenta ele, que foi diretor da Varig e presidente de uma subsidiária da companhia aérea, a Rio Sul.

Foto da Rua da Assembléia, no Centro do Rio, feita por Augusto Malta (Coleção Ermakoff)

Foto da Rua da Assembléia, no Centro do Rio, feita por Augusto Malta (Coleção Ermakoff)

Aposentado do trabalho de executivo, ele criou uma editora que leva o seu nome e pode se dar ao luxo de trabalhar com essa paixão, publicando livros com fotos de um Rio que sobrevive na sua memória afetiva e na de outros.

Ele prepara para o próximo ano um livro sobre a história de Copacabana, com muitas imagens. E outro com o material feito pela norte-americana Genevieve Naylor no Brasil no início dos anos 40, dentro da Política de Boa Vizinhança implantada por Washington. George comprou do filho da fotógrafa os direitos para usar o arquivo dela. “Sou apaixonado por ela. Não são só paisagens. Tem uma preocupação artística, com componentes sociais e com os costumes”, explica George.

Infância aventuresca

George é filho de russos, uma parte originária da atual Ucrânia e outra do sul da Sibéria, perto do lago Baikal. Ele nasceu em 1949 em Shangai, na China, onde o pai, engenheiro, foi trabalhar na construção de um ramal da ferrovia Transiberiana. Na época, ano da tomada de poder pelos comunistas após uma guerra civil, a cidade era uma colônia estrangeira encravada no país mais populoso do mundo. As potências ocidentais dividiam a cidade em zonas e os chineses eram proibidos de entrar em alguns locais. George nasceu na parte francesa.

Ele viveu lá até 1954, quando a família foi “convidada” a se retirar, junto com os outros estrangeiros, pelas autoridades comunistas.

Na época os pais já haviam se separado. George vivia com a mãe, que pensou em ir para o Canadá, mas acabou vindo para o Brasil, onde tinha uma amiga. No Rio, ela foi trabalhar em uma fábrica de biscoitos na Avenida Brasil. Depois, como enfermeira, foi trabalhar no Hospital dos Estrangeiros, ajudando nas radiografias. Enquanto isso, George passou sua infância e adolescência em um internato em Petrópolis, antes de entrar no colégio Pedro II.

O acaso no início da coleção

A coleção de George começou quase com um acaso. Em meados dos anos 90, ele foi acompanhar amigos a uma galeria de arte em Santa Teresa, no centro do Rio. Perto da exposição, um punhado de barraquinhas estavam montadas em uma praça, como uma quermesse de interior. Em uma delas, uma moça vendia as duplicatas de uma coleção de cartões postais que pertencera ao avô. George comprou o lote todo, com 100 peças. Eram exemplares do início do século 19, que podiam a chegar, individualmente, a R$ 100, R$ 200.

Ao chegar em casa, ficou admirando o que havia comprado. E decidiu que gostaria de colecionar fotografias do Rio antigo.

O trabalho na Varig, onde era diretor, ajudou na coleção. Ele viajava muito para Paris, onde há um comércio grande de fotografias antigas. “Muitos turistas europeus vinham para o Brasil e compravam fotos de recordação. O cartão postal começou no final do século 19. Tinha muita coisa do Rio em Paris”.

Os preços ainda não eram tão altos. George conta que a fotografia começou se popularizar e os preços estouraram. Pelas suas contas, a valorização ultrapassou 500% em cerca de 15 anos. “Comprei um lote de 30, 35 fotos do Juan Gutierrez que me custou uma pequena fortuna. Uns US$ 600 cada uma. Hoje custam cinco vezes mais”, diz.

Ele salienta que preço de uma foto é bastante variável. Depende da tiragem, do tamanho, do estado de conservação, do autor, da qualidade da foto, do que foi fotografado. No caso do Rio, entre as mais valorizadas estão as de Augusto Stahl, pela raridade.

Preocupação com os fungos

Não basta comprar. É preciso saber conservar. Manter uma coleção de fotos antigas requer alguns cuidados. O Rio é úmido e quente, condições propícias para o surgimento de fungos. As fotografias necessitam de um ambiente refrigerado e seco.

De uma maneira geral, é mais fácil preservar os acervos na Europa ou nos Estados Unidos. “No Brasil, a grande maioria das fotos se perdeu”, lamenta ele, que mais recentemente passou a comprar também em leilões na internet. “Mas é preciso conhecer. Tem muita porcaria”.

Por isso, ele mantém sua coleção de 7 mil imagens dentro de caixas onde as fotos ficam acondicionadas de forma apropriada, em películas próprias em um quarto climatizado. Quase tudo é original. As cópias não chegam a 200. Algumas são reproduções feitas por Augusto Malta de fotos feitas por ele mesmo.

De fotos da cidade a retratos de personalidades

George começou colecionando apenas imagens do Rio antigo, do século 19 até os anos 30. Acabou ampliando para os anos 60 e, posteriormente, diversificou para fotos de personalidades que ele admira, como músicos e escritores. Sua afeição é abrangente. Inclui originais de José de Alencar, Castro Alves, D. Pedro II, José do Patrocínio, Villa-Lobos, Vitor Hugo e Picasso. Mas esses itens têm um nicho diferente de mercado. Acabam se valorizando se estão autografados pelas personalidades.

Com tanta paixão pela fotografia, George começou a tirar fotos também. Planeja fazer reportagens fotográficas nos próximos anos.

“O que eu gosto, o que me dá prazer, é me sentir uma pessoa útil guardando a memória do que foi, do que existiu, para as gerações futuras. No Brasil, a maior parte dos acervos vai para o lixo. As pessoas não dão atenção aos velhos álbuns de família. Por isso o papel do colecionador é importante. Se eu não comprasse, seriam destruídos”.

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quinta-feira, 26 de julho de 2012 Nota | 12:05

Fotógrafo da Magnum lança ‘novela visual’ ambientada no Rio

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David Alan Harvey é um fotógrafo norte-americano renomado mundialmente. Pertence aos quadros da agência Magnum – a famosa cooperativa fundada por Henri Cartier Bresson e Robert Capa – é colaborador frequente da National Geographic, do New York Times, já expôs no Moma e ganhou o prêmio de fotógrafo do ano pela National Press Photographers Association em 1978. Também é o criador e editor da Burn Magazine, uma publicação online que mostra o seu trabalho e o de fotógrafos emergentes. Mas em sua página no Facebook ele se define como “fotógrafo, mentor, editor e agente secreto”.

Pois o último trabalho de DAH é dedicado ao Rio de Janeiro, uma de suas paixões. “(based on a true story)” (editado pela BurnBooks) é um ensaio diferente sobre a cidade. É uma novela visual que se passa no Rio, mas não é sobre o Rio. Virou livro de arte. Mas antes foi um projeto online de crowfunding (com o nome de “The Rio Book”). Bryan Harvey, seu filho, fez um belo e curto vídeo (em inglês) mostrando DAH trabalhando no projeto e em que ele fala da importância da conexão de um fotógrafo com o tema de seu trabalho.

E conta que há dois tipos de fotógrafos, aqueles que olham pela janela para o mundo e aqueles que olham para o espelho. “E para mim. Estar no Rio, com certeza, é olhar para o espelho”, diz DAH.

Aqueles que contribuíram com projeto enquanto ele estava sendo feito podiam acompanhar a feitura do trabalho e poderiam comprar o livro a um preço mais em conta, pois a obra não pode ser considerara barata. São 600 cópias numeradas, impressas na Itália em papel Fedrigoni Splendorgel Extra White 160gr. Os preços variam. Os primeiros exemplares foram vendidos a US$ 95. Os últimos saem a US$ 192.

Imagens do livro "(based on a true story)", do fotógrafo norte-americano David Alan Harvey (reprodução)

No livro, DAH mostra vários Rios. Vai dos bailes de gala do Copa até o subúrbio de Coelho Neto. De um treino do Bope na favela Tavares Bastos a prosaicos salsichões na chapa de algum ambulante. E há imagens de rapazes jogando altinho, de crianças antes do desfile de Carnaval, dos arredores do Sambódromo, de comércio popular e de jovens armados e com drogas em vielas de uma favela.

A primeira capa traz a imagem do desenho das pedras portuguesas no calçamento da praia de Ipanema. No interior do livro, as imagens, mesmo quando abordam clichês (como as garotas de biquini na praia, cerimônias religiosas de origem africana, a beleza natural da cidade), vão além deles.

Um outro vídeo dá uma mostra de como é “(based on a true story)” e como sua “leitura” não é necessariamente linear. “Há mais de uma maneira de ler esta novela”, avisa DAH em um cartão-postal em anexo. Há um jogo entre as imagens, como se ela interagissem umas com as outras.

Não há quase texto. As imagens estão ali para interpretação de cada um. Um livro que pode ser descontruído e construído novamente (como não tem costura, aliás, as páginas são destacáveis). É um quebra-cabeça que pode ser montado de diversas formas.

Harvey passou dois anos e meio fotografando a cidade para criar “uma narrativa de inspiração jornalistica”. Que ele mesmo chama de “novela”. Ele diz que se inspirou no jornalista gonzo Hunter S. Thompson, e nos cineastas David Lynch e Joel e Ethan Coen para a atmosfera do trabalho. Certamente em suas fotos do Rio há um quê de féerico e de hiper-realista.

Ele é autor de outros livros: “Tell It Like It Is”, Living Proof”, “Cuba: Island at a Crossroad” e “Divided Soul”. E parte desse seu trabalho sobre o Rio deve ser editado e publicado na edição de outubro da National Geographic nos EUA (onde já publicou mais de 40 ensaios).

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