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quarta-feira, 20 de junho de 2012 Reportagem | 18:03

Uma experiência antropológica em uma visita à Cúpula dos Povos

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“Só não é um samba do crioulo doido porque os índios não são chegados em um pagode”, diz um jornalista politicamente incorreto ao constatar a quantidade de índios ou de pessoas paramentadas como tais na Cúpula dos Povos. O evento paralelo a Rio+20 é organizado por ONGs e representantes da sociedade civil no Aterro do Flamengo, às margens da Baía de Guanabara, um dos locais mais poluídos da cidade.

Ao lado da Marina da Glória, tendo o Pink Fleet, o iate do bilionário Eike Batista, como testemunha, ocorrem meditações com cristais e incenso para Gaia (o planeta); manifestações contra a usina de Belo Monte (contei cinco); hare krishnas tentando convencer integrantes do MST a dançar balançando um pandeiro (em vão); estudantes tentado convencer da importância do esperanto como a língua universal; índio conclamando para a guerra; marcha da maconha; adeptos fazendo propaganda da Kaballah, da fé Bahá’í, do MST, da homeopatia. Na Cúpula dos Povos tem espaço até para a venda de um condomínio ecológico na Baixada Fluminense.

José Geraldo da Silva, com sua fantasia "Amar a natureza faz bem ao coração", dança com Raimundo Ambrósio Nascimento

José Geraldo da Silva, com sua fantasia "Amar a natureza faz bem ao coração", dança com Raimundo Ambrósio Nascimento (foto: Luiz Antonio Ryff)

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Isso sem falar em uma palestra contra o sistema bancário em um evento que é patrocinado por um banco, a Caixa Econômica Federal. Mas a única coisa que parece destoar por completo da atmosfera é o grupo de vendedoras uniformizadas de uma operadora de celular promovendo chips pré-pagos.

Um dia circulando entre as 60 tendas e espaços armados em mais de dois quilômetros do aterro é uma experiência antropológica.

Local da diversidade

Mauro Porto, Assessor de Programa de Mídia e Liberdade de Expressão da Ford Foundation, uma das participantes, acha que essa atmosfera, muitas vezes com ideias conflitantes, faz parte.

“Aqui é o espaço da diversidade, não é lugar de consenso. A fundação apoiou o comitê organizador e a proposta da cúpula é não ter nenhuma posição programática ou política para a Rio+20. Mas criar um espaço dinâmico para a sociedade civil discutir. Principalmente aqueles setores sem muita visibilidade”.

O cacique Raoni, ao centro, lidera uma manifestação contra a usina de Belo Monte (foto: Luiz Antonio Ryff)

O cacique Raoni, ao centro, lidera uma manifestação contra a usina de Belo Monte (foto: Luiz Antonio Ryff)

Os estandes mostram essa diversidade. Vai de organizações reconhecidas internacionalmente, como a Action Aid, o Greenpeace, a Caritas, a Cruz Vermelha, a Anistia Internacional à primeira estação de coleta e triagem de bitucas de cigarro no Brasil. Há quem faça propaganda da Kaballah, do Partido Comunista Marxista e Leninista; e quem propagandeie a fé Bahá’í ou se oponha à energia nuclear. Há um estande que promove um “condomínio ecológico” em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Casas de três quartos na faixa dos R$ 400 mil, a quem interessar.

Também há espaço para discutir a educação em Angola; pregar a liberdade para o povo saharauí (o Sahara Ocidental, ocupado pelo Marrocos); palestrar sobre o trabalho de socorristas no Tsunami no Japão.

Maconha, esperanto, hare, hare e Belo Monte

O estudante de Biologia paranaense Renato Guedes, 19 anos, ajuda a montar um espaço para difundir o Esperanto. Demonstra animação com a possibilidade de conquistar novos adeptos, já que ninguém da família e nenhum amigo se animou a segui-lo no estudo da “língua neutra internacional”. Ele só pratica em conversas no Skype e no Facebook.

Hare krishnas dançando e cantando na Cúpula dos Povos (foto: Luiz Antonio Ryff)

Hare krishnas dançando e cantando na Cúpula dos Povos (foto: Luiz Antonio Ryff)

Entre os estandes e tendas, o parque foi transformado em um imenso camelódromo a céu aberto, onde se vende de frutas a livros sobre política, poesia e religião, de utensílios indígenas a CDs e artesanato de várias partes do mundo.

Manifestações são quase tão corriqueiras na Cúpula quanto engravatados nas discussões oficiais no Riocentro. Há uma a cada dez passos. Contra a construção de Belo Monte eu contei cinco. Uma delas sendo puxada pelo cacique Raoni (aquele mesmo, amigo do Sting). E muitas danças de índios e de outros grupos. Os hare krishnas tentam convencer os passantes a entrarem na dança. Enquanto eu estava lá o pessoal do MST foi refratário a cantar “hare, hare” balançando o pandeiro.

E há a Marcha da Maconha, na qual, além de gritos contra a PM (“Ê, polícia, maconha é uma delícia/ Ê, maconha, polícia é uma vergonha”), são entoados slogans como: “Maconha é natural, coxinha é que faz mal”. Esses o pessoal do Hare Krishna conseguiu colocar para dançar.

Pitoresco e folclórico

Muitos participantes não pertencem a qualquer grupo, mas fazem parte da festa. É o caso de José Geraldo da Silva, montador de máquinas de 52 anos que deixou Pedra Azul, em Minas Gerais, para participar da Cúpula dos Povos e se define como “uma gotinha no oceano.

Marcha da Maconha encontra o grupo hare krishna: "Hare, hare, legalize, legalize, hare, hare" (foto: Luiz Antonio Ryff)

Marcha da Maconha encontra o grupo hare krishna: "Hare, hare, legalize, legalize, hare, hare" (foto: Luiz Antonio Ryff)

“Vim tentar semear minha pequena sementinha por um mundo melhor e declarar meu amor à natureza”, explica ele, que chama atenção com uma roupa verde, com vários bichos de plástico, bandeiras do Brasil e folhas verdes grudadas.

“É minha fantasia. Eu a chamo de ‘Amar a natureza faz bem ao coração’. Eu tenho essa roupa há vários anos e vou adaptando à circunstância. Serve para ecologia, carnaval, corrida rústica, vôlei…”, enumera até ser interrompido por visitantes que querem fotografá-lo. “Já me tornei uma pessoa pitoresca e folclórica”, sorri feliz antes de puxar para dançar Raimundo Ambrósio Nascimento, 64 anos, que se diz um “índio em trânsito”.

A inglesa Victoria Sinclair, 38 anos, veio ao Rio para participar de meditações para “elevar a consciência mundial”. Com cristais e “incensos druidas”, ela se prepara para meditar em prol de Gaia (o planeta Terra), dos grupos indígenas e para trazer inspiração aos líderes mundiais reunidos no Riocentro. Está animada com o solstício de inverno nesta quinta (dia 21). “É bom para aproveitar a energia específica da lua nova. E no calendário Maia esse é um momento propício de equilíbrio entre passado e futuro”.

Disneylândia e azaração

Victoria Sinclair veio meditar pelo planeta com a ajuda de incenso e cristais (foto: Luiz Antonio Ryff)

Victoria Sinclair veio meditar pelo planeta com a ajuda de incenso e cristais (foto: Luiz Antonio Ryff)

Um pouco afastado da movimentação do evento, alguns participantes aproveitam o visual da praia do Flamengo, com o Pão-de-Açúcar ao fundo. A francesa Elise Soulier, 27 anos, veio como participante de uma associação de ensino. São 13 jovens ao todo em seu grupo, que vai produzir vídeos e escrever artigos quando voltar a França. Ela esteve no Riocentro e na Cúpula, onde lamentou que muitas discussões fossem apenas em português.

“O Riocentro é muito policiado e as discussões parecem estéreis. Deu para ver que gastaram muito dinheiro. É muito estranho, em uma conferência sobre desenvolvimento sustentável, ver tantas garrafas de plástico e o ar-condicionado no máximo”, critica. “Aqui é mais caloroso, mais intenso. Mas é meio uma Disneylândia, é um pouco folclórico”.

Sentado na areia, o londrino Daniel Morrell, 40 anos, tenta puxar papo com um grupo de belas meninas paulistas. Incomodado com a interrupção, elenca o que já fez em prol da sustentabilidade do planeta enquanto olha para as moças, que não prestam atenção no que ele fala. Ele conta ter criado quatro empresas que negociam créditos de carbono. “Eu inventei o termo ‘carbon neutral'”, afirma ele, que ainda não tem uma opinião sobre a Cúpula dos Povos. “Cheguei agora”, explica. Em vez das discussões nas tendas, foi à azaração na praia. Afinal, a Cúpula dos Povos também é social.

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terça-feira, 19 de junho de 2012 Nota | 22:47

Índio defende movimento revolucionário indígena na Cúpula dos Povos

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Uma faixa estendida em uma mesa colocada estrategicamente entre algumas das principais tendas e um auditório na Cúpula dos Povos, evento paralelo a Rio+20, chamava atenção: Pedia guerreiros indigenas para o Movimento Revolucionário Indígena – 500. Um cartaz conclamava: “Ações guerreiras já”.

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Tiuré durante seu 'processo espiritual' (foto: Luiz Antonio Ryff)

Tiuré durante seu 'processo espiritual' (foto: Luiz Antonio Ryff)

No meio da tarde o estande improvisado estava vazio. Apenas os cartazes, algumas flechas e a faixa. Uma hora depois um homem com uma espécie de cocar de palha e com o corpo pintado estava sentado em uma das cadeiras, com olhar longínquo. “Agora não posso falar. Estou num processo espiritual”, desculpou-se falando baixo e lentamente. 
”Volte mais tarde”, balbuciou.

Algumas horas depois, o homem estava disponível. Identificou-se como Tiuré, 63 anos, índio potiguara da aldeia Lagoa do Mato, na Paraíba e explicou por que não podia falar.

“Eu estava em uma outra sintonia, não estava aqui. Um parente me deu uma planta mágica para cheirar”. A tal planta é um pó, rapé indígena, que é colocado em um canudo. Tiuré conta que o parente soprou o pó para dentro de sua narina.

E o que essa planta mágica faz, perguntei? “Eu fico em paz, recebendo energia dos meus antepassados”.

Tiuré já pronto para a guerra (foto: Luiz Antonio Ryff)

Tiuré já pronto para a guerra (foto: Luiz Antonio Ryff)

Mas tirando o efeito do rapé, Tiuré não quer paz. Ao contrário. Ele defende a guerra e se propõe a conclamar os indígenas guerreiros para uma ação na cúpula. “Estamos nos preparando para isso. Ainda não temos gente suficiente”.

“Temos que pressionar o Estado para que ele tome ações concretas”, afirma. No caso de sua aldeia, Tiuré quer retomar 20 mil hectares que ele diz terem sido tomados à força nos últimos 40 anos – e que foram entregues a usinas e grandes proprietários.

Para isso ele defende ações armadas. “Mas não com armas de fogo”, salienta. “Só usamos as nossas armas, bordunas, arco e flecha, foice, facão e machado”, explica sem alterar a voz ou mostrar agressividade.

“Nós estamos prontos para morrer, como nossos antepassados, na luta pela nossa terra”, garante ele, que diz que o movimento é autônomo, não é filiado a partido e não aceita dinheiro de governo.

Exilado político

Ele explica que seu envolvimento com questões políticas e a defesa das questões indígenas data da época da ditadura, quando conta ter sido preso e torturado, o que o levou ao exílio em Montreal, no Canadá.

Após conversar um pouco em francês, lembrando que lá se fala o quebecois, Tiuré diz que foi o primeiro índio brasileiro reconhecido pelo Alto Comissariado da ONU para refugiados e questiona o atual governo brasileiro e a Comissão da Verdade.

“Há um silêncio sobre a questão dos índios durante a ditadura. Não há uma linha nos livros sobre as atrocidades cometidas contra nós durante esse período. A Comissão da Verdade está aí e não se fala nada. E não houve desaparecimento de indivíduos. Houve genocídio. Aldeias foram exterminadas”.

Para não ficar na gaveta

Apesar de participar da Cúpula dos Povos, ele critica a Rio+20. “Aqui há uma manipulação grande da questão indígena por ONGs e por igrejas, que defendem a elaboração de documentos. É preciso romper com isso. Sou contra esse cenário midiático. Daqui só sai elaboração de papéis que vão para as gaveta e armários. Não podemos esperar um Rio+40, é preciso agir já”.

“Eu quero partir para a ação. Em Belo Monte, temos que invadir os acampamentos, os canteiros de obras e parar tudo. O modelo de desenvolvimento adotado por esse governo não vai parar. Por isso estou conclamando os guerreiros para uma guerra”, diz ele. que, ao fim da conversa, gentilmente pede. “Você me manda o texto por email quando sair?”.

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Nota | 18:51

Senador francês diz que representantes dos governos estão desconectados do povo

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Joël Labbé, 60 anos, é um senador francês pelo Partido Verde e está no Rio de Janeiro para a Rio+20. Ele esteve no Riocentro, onde ocorre a conferência da ONU, mas foi visitar a Cúpula dos Povos, evento paralelo organizado pela sociedade civil no Aterro do Flamengo.

O senador francês Joel Labbé numa banquinha do MST na Cúpula dos Povos

O senador francês Joel Labbé numa banquinha do MST na Cúpula dos Povos (Foto: Luiz Antonio Ryff)

Foi encontrado comendo frutas em pé, em uma banquinha do MST, com o paletó nas costas. Sorridente, criticou os encontros oficiais, onde falou em um painel sobre a grilagem de terras por multinacionais.

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“O mundo do Riocentro é completamente desconectado em relação ao povo. Não tem muitos representantes políticos vindo aqui”, lamenta ele. “Mas o ambiente para a verdadeira mudança está aqui”, diz Labbé, que também é prefeito de Saint-Nolff, na Bretanha.

“Sou otimista por natureza, mas não tenho ilusões em relação ao texto original”, afirma ele, que defende a agricultura biológica orgânica e está em contato com a Via Campesina.

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