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terça-feira, 13 de dezembro de 2011 Reportagem | 12:31

‘Álbuns de família’ expõe a privacidade de políticos poderosos do acervo do CPDOC

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Se de perto ninguém é normal, como disse Caetano Veloso, isso serve para o oposto, de perto ninguém é tão anormal ou diferente assim. Mesmo políticos poderosos, polêmicos, ou até ditadores, têm lá seus momentos prosaicos de ternura, doçura ou singeleza na intimidade, como revela a exposição “Álbuns de Família – A vida privada no acervo CPDOC”, no Espaço Cultural FGV (Rua da Candelária, 6, no Centro do Rio).

Tancredo Neves (no centro, à direita) fantasiado no carnaval

Tancredo Neves (no centro, à direita) fantasiado no carnaval

A exposição é um mergulho na iconografia guardada pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, o maior do País, que abriga mais de 1,8 milhão de documentos e cerca de 200 arquivos pessoais de homens públicos.

Organizada por Mônica Almeida Kornis, responsável pelo setor audiovisual do CPDOC, e por Regina da Luz Moreira, a exposição conta com material de acervos de alguns presidentes, como Getúlio Vargas, João Goulart, Costa e Silva, Ernesto Geisel e Tancredo Neves. Mas também usa fotos de políticos não tão expressivos, como embaixadores, governadores e ministros.

A mostra está dividida em três partes: “Retratos de família”, com fotos mais convencionais, muitas posadas em estúdio; “Lazer”, com imagens de viagens e férias; e “Comemorações”, com registros de cerimônias marcantes, como casamentos, batizados ou aniversários”.

O presidente Ernesto Geisel nadando no mar do Havaí

O presidente Ernesto Geisel nadando no mar do Havaí

Alguns flagrantes inusitados chamam a atenção. Principalmente dos personagens mais conhecidos. É o caso do ex-presidente Ernesto Geisel no mar do Havaí, ou de Tancredo Neves, ainda criança, fantasiado em um baile de carnaval. Ou do sisudo general Costa e Silva recebendo um beijo carinhoso da neta.

Entre ex-presidentes, Getúlio Vargas e sua família têm um destaque maior. É dele um dos principais acervos da instituição, juntos com os de Tancredo, do ex-ministro Gustavo Capanema e do ex-chanceler Azeredo da Silveira.

Ulisses Guimarães com Ruth Marinho (então mulher de Roberto Marinho) em Angra dos Reis

Ulisses Guimarães com Ruth Marinho (então mulher de Roberto Marinho) em Angra dos Reis

Alimentando as emas e de sunga azul

A exposição revela um olhar pouco usual para a intimidade do poder. Dos principais governantes brasileiros, o único que fez questão de mostrar sua vida privada de forma constante e oficial foi Luiz Inácio Lula da Silva. O fotógrafo da Presidência, Ricardo Stuckert, teve acesso franqueado à intimidade de Lula e de sua família.

Em oito anos de poder não faltaram registros de atividades prosaicas de Lula, como dar comida aos peixes e emas do Palácio da Alvorada com uma camiseta do Vasco; deitado na grama abraçado à cadela de estimação, Michele; trocando afagos com a primeira-dama, Maria Letícia; e fantasiado de caipira na famosa festa junina que costumava promover na Granja do Torto.

Algumas fotos devem ter enlouquecido os diplomatas encarregados do cerimonial e preocupados com o protocolo do cargo. Afinal, não há liturgia que resista a um presidente submerso vestindo apenas uma sunga azul como o flagrante captado na Praia de Atalaia em Fernando de Noronha.

Mas Lula é um político diferente dos demais. Não só por isso, claro. Outros governantes brasileiros se deixaram mostrar em momentos privados, mas nenhum com tamanho grau de evasão de privacidade. A divulgação de registros tão íntimos, entretanto, acabam por ajudar a compor a imagem pública desses personagens.

Muitas vezes tais flagrantes tinham um objetivo político. Um caso famoso, certamente, é o de Fernando Collor, que costumava fazer suas corridas dominicais vestindo camisetas com slogans.

Cartão de natal e sombrinhas no cemitério

Na exposição do CPDOC, contudo, ambos estão de fora. Seus acervos não fazem parte da instituição. “Álbuns de Família”, foca nos diversos aspectos da vida privada de homens públicos que atuaram no cenário político brasileiro pós-1930”. Entretanto, a despeito do texto de apresentação, personagens pré-revolução de 30 não foram esquecidos.

Familiares de Quintino Bocaiúva visitam seu túmulo em 1913, no primeiro aniversário de sua morte

Familiares de Quintino Bocaiúva visitam seu túmulo em 1913, no primeiro aniversário de sua morte

É o caso de Quintino Bocaiúva, que foi o primeiro ministro das Relações Exteriores após a proclamação da República, em 1889, e foi presidente do Estado do Rio de Janeiro no início do século passado. Um bairro do Rio, aliás, foi batizado em sua homenagem. Em exibição está uma foto de 11 de junho de 1913. Sua família visita seu túmulo no primeiro aniversário de sua morte – com todos os membros vestidos de preto e as mulheres com sombrinhas para proteger do sol posando circunspectos para um fotógrafo.

Nesse registro, como em vários outros, não há homens públicos nas fotos, mas familiares. Como no caso dos netos do marechal Odílio Denys, ex-ministro da Guerra e expoente do golpe de 1964, sentados em uma escada em um cartão de boas festas de 1980. Ou nas fotos de Alzira e Getúlio Vargas Filho curtindo o carnaval em Poços de Caldas em 1935, quando o pai era presidente.

É interessante perceber também – e isso é ressaltado pelas organizadoras – a maneira como evoluiu com o passar do tempo a relação dos fotografados com a câmera. Das poses duras em estúdio até flagrantes descontraídos.

Sem contexto

Eis aí, entretanto, a nota fora de tom da exposição. Há maior preocupação em discorrer sobre a evolução técnica da fotografia do que em explicar o momento captado, sua importância, ou mesmo quem é o retratado. Como se o público comum soubesse quem foram Agamenon Magalhães (interventor e governador de Pernambuco e ministro da do trabalho e da Justiça entre as décadas de 30 e 50), Cordeiro de Farias (participante do movimento tenentista na década de 20, da revolução de 30, interventor no Rio Grande do Sul e governador de Pernambuco), ou Temístocles Cavalcanti (ex-ministro do STF), para citar alguns. Afinal, personagens mais conhecidos como presidentes da República estão em minoria.

Para uma instituição que tem como fundamento a preservação da memória e trabalha com a divulgação de informações sobre a história contemporânea do País soa como uma falha.

Mônica Kornis discorda e explica que essa nunca foi uma preocupação na feitura da exposição. “Não pensamos nisso. Isso privilegiaria menos a questão privada e mais a dimensão política dessas figuras. Não importa tanto saber se o personagem era um ministro, presidente ou um governador, mas sim fazer um recorte da vida privada, independente de quem eram”.

E diz que a ideia da mostra foi justamente preencher uma lacuna. “Temos um conjunto grande de imagens nos nossos arquivos e seu uso é centrado na trajetória política dos homens públicos. O aspecto relativo à vida privada é secundário nas pesquisas da casa e de fora”.

O presidente Getúlio Vargas abraça o pai, Manuel do Nascimento Vargas (com o irmão, Viriato, à direita),

O presidente Getúlio Vargas abraça o pai, Manuel do Nascimento Vargas (com o irmão, Viriato, à direita)

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