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sexta-feira, 20 de abril de 2012 Entrevista, Reportagem | 16:44

Um ex-presidente de banco que investe reformando casarões em ruínas

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Como ex-presidente do BNDES, o economista Carlos Lessa foi responsável por gerenciar bilhões de reais de estímulo para empreendimentos que pudessem desenvolver o futuro do País. Como economista, preocupado com a gestão do próprio patrimônio, ele usa seus dinheiro preservando o passado carioca.

Ele é responsável por resgatar 11 imóveis antigos na região central da cidade. Preservando suas características arquitetônicas, viraram brasserie, livraria, pizzaria, botequim, casa de shows. São sobrados do século 19 em sua maioria. Um dos primeiros a ser resgatado, na rua do Rosário, Lessa acredita ter sido um dos primeiros bancos do Brasil sob d. João VI.

Carlos Lessa na rua do Mercado, onde restaurou sobrados antigos (foto: divulgação)

Carlos Lessa na rua do Mercado, onde restaurou sobrados antigos (foto: divulgação)

Sete casas estão alugadas e viraram empreendimentos comerciais. Duas estão ocupadas por familiares – e uma delas abriga sua biblioteca de 20 mil livros.

Sua última empreitada é o Ameno Resedá, um casarão arruinado que ele transformou em casa de shows e restaurante no Catete, bairro carregado de história a poucos metros do palacete que abrigou a Presidência até a transferência da capital para Brasília.

“O Catete tem uma simbologia muito grande. E ainda fica no pé da favela, na beira do asfalto”, afirma ele ao iG. Ao contrário dos outros empreeendimentos, este ele decidiu tocar pessoalmente.

É um caso de amor antigo com final feliz. Lessa havia comprado o casarão década atrás quando era diretor do Conselho Regional de Economia. O objetivo era fazer lá a Casa do Economista, um espaço de convívio da classe, com restaurante e livraria. A administração seguinte se opôs à ideia e vendeu o imóvel, que acabou nas mãos de uma igreja evangélica.

Como nasceu o interesse

Autor de 15 livros sobre economia e sobre o Brasil, Lessa tem um currículo extenso, que enche com folga uma página. Doutor em Economia pela Unicamp, é considerado um dos mais influentes economistas do País, foi reitor da UFRJ, a maior do País, e professor de diversas faculdades antes de se tornar presidente do BNDES no governo Lula.

Embora sempre tivesse tido curiosidade intelectual pela história do Rio, seu interesse pelo resgaste histórico tem origem em uma das atividades que exerceu. No início dos anos 90 ele foi coordenador do Plano Estratégico da cidade. Foi quando aproveitou para fazer um mergulho mais aprofundado na história.

“O Rio é uma metrópole linear. Você só pode ir de A para C passando por B. Os bairros são sequenciais. Em outras cidades você por ir de A para C por B, mas há outros caminhos. E em uma cidade octagonal, como São Paulo, há vários centros. E o centro do Rio estava morrendo. Seria acabar com o ponto de união dos cariocas da zona sul com os da zona norte. Esse encontro é importante para manter as características de cordialidade e convivialidade do carioca”.

Seu relatório do Plano Estratégico apontava isso. Mas havia um problema, que ele confessa. “Eu tinha vergonha de assinar aquilo. Minha família tinha dois imóveis inteiramente podres no centro do Rio, na rua do Rosário, que fediam, com esgoto a céu aberto. Se eu não recuperasse daria um atestado de hipocrisia”, admite.

Poder público é obstáculo

Os sobrados da família foram os primeiros. E ele ganhou gosto. Começaram a lhe oferecer todos os imóveis podres da rua. “Tinha até casa de tolerância que pertenceu a uma tal madame Lili”, confidencia ele.

E lamenta que o Rio não seja uma cidade que preserve mais sua própria memória. Sonha em fazer da Cinelândia (que ganhou esse nome pela quantidade de cinemas grandiosos que chegou a abrigar) uma Broadway brasileira.

Não que a recuperação de imóveis antigos em condição lastimável seja uma tarefa fácil. Antes de tudo é preciso fazer um levantamento de dívidas de IPTU, de contas não pagas de luz e água. Se há questões jurídicas e questionamentos de titularidade.

Ele lamenta que as autoridades municipais não ajudem como poderiam. Ele lista os três principais obstáculos que poderiam ser facilitados: identificação da titularidade (muitas vezes é difícil identificar os donos, às vezes há problemas legais com os espólios); acelerar o processo de licença; e ajudar a construção facilitando carga e descarga em ruas centrais e estreitas.

Na última obra, no Ameno Resedá, um deteriorado poste de luz na calçada ameaçava a fachada do casarão e impedia o início da reforma. Demorou um ano para que ele fosse removido. “Só quando a Justiça condenou à prisão o presidente da empresa e estipulou uma multa, que não foi paga até hoje”, conta Lessa.

E quando há incentivos, eles são difíceis de tirar do papel. A isenção de imposto para recuperar um imóvel antigo é um exemplo. “É a maior dificuldade conseguir essa isenção da Prefeitura. É muito obstáculo”, lamenta ele que diz que não há apoio nem para coisas elementares como remoção de entulho.

E esses obstáculos não estão apenas na esfera pública. A modernidade acabou condenando diversas especializações profissionais. É dificílimo encontrar um mestre gesseiro ou outros artesãos para fazer uma restauração adequada.

Investimento fabuloso

Fachada do Ameno Resedá, o casarão reformado e transformado em casa de shows (foto: divulgação/Kita Pedroza)

Fachada do Ameno Resedá, o casarão reformado e transformado em casa de shows (foto: divulgação/Kita Pedroza)

Apesar de tudo isso, o ex-presidente do BNDES afirma que esses empreendimentos são também um ótimo investimento financeiro e se surpreende que não existam mais investidores fazendo o mesmo. Ele avalia que há diversas áreas do Rio que estão subvalorizadas e mal utilizadas. Ele cita a quantidade de imóveis abandonados na avenida Brasil, estrategicamente ligando o centro à rodovias importantes como a Dutra.

“Comprar um imóvel destruído no centro e recuperar é uma aplicação patrimonial muito boa. É um investimento fabuloso comprar muito barato e gastar uma pequena fortuna restaurando. Mas dá um trabalho infernal, se amola uma barbaridade. É importante bolar um uso para o imóvel antes da reforma, imaginar para o que será usado. E é preciso paciência e não confiar no poder público. Ele não vai ajudar”, resume ele, que não revela cifras pagas pelos imóveis, quanto gasta nas reformas, nem o rendimento obtido com os aluguéis.

O Ameno Resedá é o ponto culminante desse processo. E tem uma história curiosa. Foi um rancho, uma espécie de precursor dos blocos carnavalescos, criado em 1907. E com vários detalhes típicos do ecumenismo carioca, como aponta Lessa. “Era uma atividade profana que começou com patrocínio da Igreja da Glória. E uma vez foram parar dentro do Palácio do Catete, se apresentando para o presidente, com um enredo sobre belzebu”, diverte-se.

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sábado, 3 de dezembro de 2011 Reportagem | 08:01

Desconhecido dos cariocas, o Morro da Conceição abre suas portas

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É como uma pequena e tranquila cidade do interior no meio do burburinho caótico do centro do Rio de Janeiro. A poucos passos do antigo cais do porto da praça Mauá, com suas decadentes boates de strip-tease; do início da avenida Rio Branco, e atrás da avenida Presidente Vargas, com seus engravatados apressados, está escondido o Morro da Conceição.

Palácio episcopal, hoje ocupado pelo exército

Palácio Episcopal, hoje ocupado pelo Exército

Escondido não é modo de dizer. Um paredão de prédios impede a visão do local, desconhecido da maioria dos cariocas apesar de ser um dos marcos fundadores da cidade e de extrema importância para o desenvolvimento do que se tornou o Rio de Janeiro. Poucos sabem que há uma fortaleza no morro, com guarnição do exército e tudo – e aberta a visitação.

Vista de uma rua do Morro da Conceição

Vista de uma rua do Morro da Conceição

Com os morros do Castelo, de Santo Antônio e de São Bento, o da Conceição formava os quatro pontos onde o Rio de Janeiro nasceu e cresceu por quase três séculos a partir de sua fundação em 1565.

Essa áreas foram privilegiadas no início por conta das características topográficas da região, dominada por manguezais e áreas inundáveis. Os dois primeiros morros foram destruídos. O terceiro abriga o mosteiro que leva seu nome. O único que permanece como local de moradia é o da Conceição, com casario antigo de sobrados centenários em meio a becos, ladeiras, escadarias e ruelas com nomes estranhos, como rua do Escorrega.

A baía de Guanabara chegava aos pés do Morro da Conceição cujas muradas que serviram de ancoradouro durante séculos. Em seu topo, em 1634, foi construída a ermida de Nossa Senhora da Conceição, que se tornou o convento dos Capuchinhos. É lá que ficaria o Palácio Episcopal, com a chegada em 1702 do bispo d. Francisco de São Jerônimo, que escolheu o lugar para morar.

Pilhagem corsária

Fachada de uma casa no Morro da Conceição

Fachada de uma casa no Morro da Conceição

Oito anos depois o local foi alvo das baterias francesas na tentativa fracassada de invasão capitaneada por Duclerc.  No ano seguinte – a exatos 300 anos -, em nova investida comandada pelo corsário René Duguay-Trouin, os franceses foram bem sucedidos, após bombardeio e saque da cidade. Ele escolheu o palácio como sua residência. Só foi embora após receber um resgate.

Para evitar experiências do tipo, os cariocas resolveram reforçar a defesa da cidade construindo uma fortaleza nos fundos do terreno do palácio. Mais tarde ela receberia como prisioneiros, três participantes da Inconfidência Mineira, incluindo Thomaz Antonio Gonzaga (o Dirceu do poema arcadiano “Marília de Dirceu”).

Hoje, a fortaleza da Conceição abriga a 5ª Divisão de Levantamento do Exército, responsável pela área de cartografia da corporação. Além da fortaleza do Exército, o local também abriga um observatório, o do Valongo, onde antes havia uma chácara em que escravos eram vendidos, nos períodos colonial e imperial.

Samba, escravos e a Pedra do Sal

A Pedra do Sal, onde escravos desembarcavam na cidade

Em uma das entradas do morro, aliás, está a Pedra do Sal, que ganhou esse nome porque o tal produto era descarregado das embarcações ancoradas nas proximidades. Com o tempo, escravos também passaram a descer ali dos navios negreiros. No início do século passado, a área, frequentada por Pixinguinha, Donga e João da Baiana foi um dos berços do samba.

O restaurador Oyama Achcar é um dos artistas com ateliê no local

O restaurador Oyama Achcar é um dos artistas com ateliê no local

Apesar da localização central e da importância histórica, o Morro da Conceição foi se deteriorando com os anos. Cerca de 500 famílias ainda moram no local, que está passando por obras. Algumas moradores foram personagens do documentário feito pela cineasta Cristiana Grumbach com o nome do lugar.

Ultimamente passou a acolher artistas plásticos, que ajudaram a revigorar o bairro e criaram o projeto Mauá. Eles organizam, anualmente, o “Arte por toda parte”, que abre as portas dos ateliês e realiza eventos culturais. Um deles é o Ventos do Norte, de Oyama Achcar (especializado em restauração) e Tania Gollnick. O deste ano é neste final de semana.

Com feira de artesanato e antiguidades, palestras e inclui com shows da Orquestra Voadora (no sábado) e do bloco de carnaval Escravos da Mauá (no domingo).

Também têm passeios feitos por guias do programa Palácios do Rio, desenvolvido pelo Laboratório de Tecnologia e Desenvolvimento Social da Coppe/UFRJ.

De forma didática e interessante, eles contam a história do morro e ainda visitam a fortaleza da Conceição. O projeto se encerra na próxima semana, no dia 8 (o telefone para agendar é 21/2263-0685).

Baía de Guanabara vista da fortaleza da Conceição

Baía de Guanabara com a ponte Rio-Niterói ao fundo vista da fortaleza da Conceição

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