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quinta-feira, 12 de julho de 2012 Entrevista | 09:22

Dicionário da Hinterlândia Carioca – o subúrbio pelo olhar de um sambista e historiador

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“Não conheço um único produto ou manifestação cultural que tenha se originado na zona sul do Rio. Nem a bossa nova, que é apenas um estilo de samba que floresceu na zona sul”, afirma o sambista e historiador Nei Lopes, 70 anos.

Para ele, a verdadeira alma carioca, conhecida para além das fronteiras da cidade e do País, nasceu no subúrbio. E com um livro ambicioso ele tenta não somente defender essa tese polêmica, mas dar evidências da riqueza cultural do que ele define como a hinterlândia carioca. “Quero dar uma derrubada nesse preconceito contra o subúrbio”, diz Nei.

Ele lança “Dicionário da Hinterlândia Carioca – Antigos Subúrbios e ‘Zona Rural’” pela Editora Pallas (R$ 69). Os verbetes abordam diversos temas ligados à essa hinterlândia, como culinária; atividades econômicas; bairros e localidades; brincadeiras e brinquedos; costumes; escolas de samba; história; linguagem; mitos; música e personalidades.

A própria opção pelo uso do termo hinterlândia em detrimento do mais usado subúrbio não foi por acaso. Ele diz que há um componente pejorativo que ele quis evitar e por isso optou por um termo mais técnico. Segundo o Houaiss, Hinterlândia é “o conjunto das terras situadas no interior (por oposição ao litoral)”. E também é a região afastada de áreas urbanas, ou, simplesmente, dos centros metropolitanos ou culturais mais importantes; interior”. “Foi uma opção científica para evitar essa flutuação de conceituação”, explica.

Trem e bonde

Mas mesmo essa hinterlândia segue uma lógica específica adotada pelo autor. Dela fazem parte 101 dos 160 bairros da cidade e 4.580.148 dos 6.320.446 habitantes do Rio de Janeiro. Obviamente ficam de fora a zona sul, Barra da Tijuca e o centro, mas também a Tijuca, a zona norte e outras áreas próximas do centro, como a Mangueira. A hinterlândia de Nei abarca o subúrbio tradicional, aquele que cresceu e se desenvolveu a partir das linhas de trem, dos ramais em direção à Baixada Fluminense. “Se a zona sul se desenvolveu a partir das linhas de bonde, o subúrbio cresceu na cola das linhas de trem”, observa Nei.

E o que essa hinterlândia carioca tem para mostrar? Muito, como evidencia Nei. A começar por tradições cultivadas lá que não migraram para a elitizada zona sul (ou estão presentes de forma menos ostensiva). Como a distribuição de doces para as crianças no dia de Cosme e Damião, as antigas brincadeiras de rua como soltar pipa, jogar bola de gude, rodar o pião. Ou a matança de porco, que Nei lembra de sua infância sem economia de detalhes sanguinolentos.

Nei não esconde as mazelas, com verbetes sobre as milícias, sobre a Fera da Penha (a comerciária que assassinou a filha pequena do amante, abalando a cidade) ou sobre a Roubauto (a popular feira livre clandestina em Acari).

A religiosidade é forte e há vários verbetes dedicados a ela. Nei fala da umbanda, do candomblé e de diversas igrejas. Foi na hinterlândia, aliás, que surgiu a Igreja Universal do Reino de Deus, criada em Del Castilho há 35 anos.

Poesia e música

Nas artes, o poeta Cruz e Souza, o escritor Lima Barreto, a atriz Fernanda Montenegro e o jornalista Millôr Fernandes são expoentes do subúrbio. Sem esquecer de Mussum, ídolo da criançada nos Trapalhões e que se tornou ícone pop da juventude da zona sul após a morte com uma infinidade de memes na internet.

Nei também cita personagens, livros e novelas ambientados na hinterlândia. Bentinho, o marido traído de Dom Casmurro, foi morar no Engenho Novo na velhice. E novelas como Bandeira Dois, Pecado Capital e Avenida Brasil (embora não citada), se passam no subúrbio. Ele aproveita para sentar a lenha na forma como seus tipos são retratados. “Essa dramaturgia televisiva é sempre pelo lado da caricatura e do estereótipo. Como se fosse tudo a mesma coisa”, diz ele. “Como se ninguém ouvisse jazz ou música clássica, como estou ouvindo agora”.

E por falar nisso, entre os músicos, obviamente, os notáveis vão de A de Aracy de Almeida a Z de Zeca Pagodinho. Passando por uma seleção da MPB com Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Guinga, Monarco, Dona Ivone Lara, Monarco, Clementina de Jesus, Elza Soares e indo a nomes mais recentes, como Marcelo D2.

Há perfis de escolas de samba, de agremiações e tradições ligadas ao Carnaval. Do bloco Cacique de Ramos à brincadeira de bate-bolas e à tradição do Clóvis (grupo de mascarados vestindo macacão colorido e capa bordada). O livro também trata de outras manifestações musicais fortes no subúrbio, como os bailes de charme.

É claro que alguns pontos são polêmicos. Caso da inclusão do verbete samba, que também não nasceu na hinterlândia. Foi na Praça 11 e no Estácio, regiões centrais. No dicionário, ele justifica: “Ao longo do século XX, o gênero se desenvolveu em diversos caminhos, subgêneros e estilos, mas conservou traços que o identificam como um típico produto do ambiente focalizado neste Dicionário, do qual foi, durante muitos anos, a grande expressão cultural”.

Campos de pelada

Futebol é parte importante da vida no subúrbio, nos campos de pelada da região surgiram jogadores como o goleiro da Copa de 50 Barbosa, Ademir da Guia e Domingos da Guia, Romário, Ronaldo, Carlos Alberto Torres, Dadá Maravilha, Adriano Imperador e Zico, que também traz no apelido uma certidão de origem: “Galinho de Quintino”. E vários times surgiram lá e tem verbetes no dicionário: Bonsucesso, Madureira, Bangu, Campo Grande.

E como o historiador da hinterlândia carioca vê a recente promoção da cidade a Patrimônio Mundial pela Unesco, baseada em muito no clichê glamorizado da zona sul carioca? “É uma estratégia de mercado com um preconceito. Não acho que a cidade seja isso tudo. Tem uma paisagem belíssima, mas com muita degradação. Mostra os cartões postais e esconde a favela, a poluição. É uma fantasia mercadológica”, opina.

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domingo, 8 de julho de 2012 Nota | 07:54

A mística do Fla-Flu em 11 lances de Nelson Rodrigues

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Hoje, como definiu Lamartine Babo na letra do hino do Flamengo, é dia de “ai, Jesus”. É dia de Fla-Flu. Mas não um qualquer. É o do centenário.

Se o Flamengo nasceu de uma dissidência do Fluminense, quando nove jogadores do time das Laranjeiras deixaram o clube para fundar o futebol no clube de regatas, a rivalidade do clássico foi crescendo aos poucos. Os principais responsáveis foram dois irmãos: o jornalista Mário Filho e o dramaturgo Nelson Rodrigues.

Leia a cobertura especial do iG sobre o Fla-Flu centenário
Relembre os 10 maiores clássicos do Fla-Flu
A rivalidade em números
Famosos tomam partido em rivalidade centenária

Rubro-negro, Mario inventou o termo Fla-Flu em 1933. Tricolor, Nelson escreveu crônicas e cunhou diversas frases e expressões que ajudaram a tornar o embate o mais famoso da história do futebol brasileiro.

Não me atrevo a fazer um prognóstico sobre o jogo do centenário. Afinal, como já disse Nelson, no Fla-Flu acontecem coisas que escapariam a vidência até de um Maomé, até de um Moisés de Cecil B. de Mille.

Leia, abaixo, onze exemplos de frases de Nelson sobre o jogo:

“O Fla-Flu não tem começo. O Fla-Flu não tem fim. O Fla-Flu começou quarenta minutos antes do nada. E aí então as multidões despertaram.”

“Um dia, houve uma dissidência no Fluminense. Eu gostaria de saber que gesto, ou palavra, ou ódio deflagrou a crise. Imagino bate-bocas homicidas. E não sei quantos Tricolores saíram para fundar o Flamengo. Hoje, nos grandes jogos, o Estádio Mário Filho é inundado pela multidão rubro negra. O Flamengo tornou-se uma força da natureza e, repito, o Flamengo venta, chove, troveja, relampeja. Eis o que eu pergunto: – Os gatos pingados que se reuniram, numa salinha imaginavam as potencialidades que estavam liberando?.”

“Vejam como, histórica e psicologicamente, esse primeiro resultado seria decisivo. Se o Flamengo tivesse ganho, a rivalidade morreria, ali, de estalo. Mas a vitória tricolor gravou-se na carne e na alma flamengas. E sempre que os dois se encontram é como se o fizessem pela primeira vez.”

“Há um parentesco óbvio entre o Fluminense e o Flamengo. E como este se gerou no ressentimento, eu diria que os dois são os irmãos Karamazov do futebol brasileiro.”

“Cada brasileiro, vivo ou morto, já foi Flamengo por um instante, por um dia.”

“Desta coluna, eu já fiz um apelo aos tricolores, vivos ou mortos. Ninguém pode faltar ao Maracanã domingo. Incluí os fantasmas na convocação, e explico: a morte não exime ninguém de seus deveres clubísticos. Em certos clássicos, cada adversário arrisca o passado, o presente e o futuro. Precisamos pensar nos títulos já possuídos. Ai do clube que não cultiva santas nostalgias. Com os torcedores de hoje e os fantasmas de velhíssimos triunfos: ganharemos o mais dramático Fla-Flu de todos os tempos.”

“O tricolor é o melhor, foi o melhor, teve mais time. Mas há, claro, uma campeão oficial, que é o Flamengo. E, aqui, abro um capítulo para falar da alegria rubro-negra, santa alegria que anda solta pela cidade. Nada é mais bonito do que a euforia da massa flamenga. À saída do estádio, eu vi um crioulão arrancar a camisa diante do meu carro. Seminu como um São Sebastião, ele dava arrancos medonhos. Do seu lábio, pendia a baba elástica e bovina do campeão.”

“Amigos, a humildade acaba aqui. Desde ontem o Fluminense é o campeão da cidade. No maior Fla-Flu de todos os tempos, o tricolor conquistou a sua mais bela vitória. E foi também o grande dia do Estádio Mário Filho. A massa “pó-de-arroz” teve o sentimento do triunfo. Aconteceu, então, o seguinte: — vivos e mortos subiram as rampas. Os vivos saíram de suas casas e os mortos de suas tumbas. E, diante da platéia colossal, Fluminense e Flamengo fizeram uma dessas partidas imortais.”

“Eu queria dizer que o Fla-Flu apaixona até os neutros.”

“Cada jogo entre o Fluminense e o Flamengo parece ser o maior do século e será assim eternamente.”

“O Fla-Flu, já me dizia o meu irmão Mário Filho, o Fla-Flu é um jogo para sempre, não é um jogo para um século, um século é muito pouco para a sede e a fome do Fla-Flu.”

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quinta-feira, 5 de julho de 2012 Nota | 17:32

Sexo, religião, pitangas e outras curiosidades nos 120 anos de Copacabana

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Copacabana faz 120 anos nesta sexta-feira. O batismo de sua urbanização é a abertura do Túnel Velho (oficialmente Alaor Prata), em 6 de julho de 1892, quando foi possível ir de Botafogo para Copacabana sem ter que subir os morros que isolavam a região. O túnel foi aberto pela Companhia Jardim Botânico, de bondes, não sem muita discussão entre seus acionistas, contrários a que “se gastasse tanto para levar os trilhos da companhia a um areal onde só havia araçás e pitangas”.

Para convencer os cariocas a percorrerem o trajeto, entre muitos estratagemas, a empresa apelava até para quadrinhas impressas nos versos dos bilhetes de bonde.

“Pedem vossos pulmões ar salitrado
Correi, antes que a tísica os algeme,
Deixai do Rio o centro infeccionado,
Tomai um bonde que vá dar ao Leme…

Graciosas senhoritas, moços chics,
Fugi das ruas, da poeira insana:
Não há lugares para pic-nics
Como em Copacabana…”

Leia mais sobre o Rio de Janeiro

Mais de um século depois, não se vê araçás ou pitangas no bairro. Nem pic-nics. E seria tachado de louco qualquer um que dissesse que foge da poeira insana da cidade e busca o ar salitrado em Copacabana.

Leia abaixo algumas curiosidades sobre o bairro mais famoso do Brasil.

– Quando portugueses e franceses aqui chegaram, no século 16, a praia e suas vizinhanças eram ocupadas por tabas dos tamoios.

– O nome original de Copacabana era Sacopenapan, corruptela de “çoco pê nupã”, termo indígena que significava “caminho batido dos socós”, um tipo de ave pernalta abundante na região.

– Há referências (controversas, diga-se) à pesca de baleias no litoral de Copacabana. Dessa atividade viria o nome arpoador, ao morro que faz divisa com Ipanema.

– No século 17, foi proibida aos pescadores que erguessem residência na praia. Era medo que navios estrangeiros que tentassem invadir a cidade usassem as moradias como base.

– A origem do nome do bairro vem da imagem de Nossa Senhora de Copacabana, santa venerada em Copacabana, às margens do lago Titicaca, na Bolívia. A imagem no Brasil teria sido trazida por mercadores de prata que viajavam entre o Rio, a Bolívia e o Peru. No século 18, a imagem foi adornar uma pequena capela que ficava onde hoje está o forte de Copacabana. A capela foi destruída em 1918.

– Durante o Primeiro Império, ainda quase despovoada Copacabana era pródiga, além de pitangueiras à beira-mar, em espinheiros, cardos e ananases.

– Até meados do século 19, para ir de Botafogo até Copacabana era preciso subir e descer os morros que isolavam a área, em trilhas como Caminho dos Pretos Quebra-Bolos. E só a cavalo.

– A principal rua do bairro, a Nossa Senhora de Copacabana começou a ser aberta em 1892. A Avenida Atlântica é posterior. Sua urbanização foi iniciada em 1905, ainda muito precária, só sendo melhorada em 1919. Uma ressaca destruiu as obras e elas tiveram que ser refeitas no ano seguinte.

– O bairro Peixoto, reduto de casas e edifícios pequenos em meio à selva de arranha-céus de Copacabana, tem origem na chácara de Paulo Felisberto da Fonseca, o Comendador Peixoto. Nos banhados da área ainda se caçavam patos no início do século passado.

– Mais famoso hotel do País, o Copacabana Palace foi fundado em 1923, tendo como inspiração os hotéis da Riviera Francesa Negresco (Nice) e Carlton (Cannes). Nenhum hotel no Brasil abrigou tantas celebridades. De Santos Dumont a Stravinsky, da Princesa Diana aos Rolling Stones, de Bill Clinton a Madonna, de Rita Hayworth a Walt Disney, de Orson Welles a Gene Kelly, de John Wayne a Will Smith, de Nelson Mandela ao U2.

– Muitos políticos importantes moraram em Copacabana, como os ex-presidentes Tancredo Neves, Juscelino Kubitschek, João Goulart, os ex-governadores Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, Carlos Lacerda e Magalhães Pinto. E o bairro foi testemunha de vários acontecimentos políticos marcantes. Para ficar em dois: a Revolta dos 18 do Forte, marco originário do movimento tenentista que acabaria com a República Velha, em 1922; e o atentado a Carlos Lacerda, na Rua Tonelero, em 1954, que culminaria no suicídio de Getúlio Vargas.

– Além de servir de inspiração para músicas, filmes, livros e peças teatrais, Copacabana também sempre abrigou muitos artistas. O poeta Carlos Drummond de Andrade e o cantor Dorival Caymmi ganharam até estátuas em homenagem. E embora associada a Ipanema, boa parte da Bossa Nova está ligada a Copacabana. Seja pelas boates no Beco das Garrafas, onde o estilo evoluiu, ou pelas reuniões no célebre apartamento de Nara Leão, onde se reuniam alguns dos expoentes do gênero embrionário. E João Gilberto morava em um apartamento atrás da Praça Cardeal Arcoverde quando fez seus dois primeiros e mitológicos LPs. Era lá que ele ensaiava “Chega de Saudade”.

– Na década de 20, o bairro contava com cerca de 20 mil habitantes. Atualmente, de acordo com o Censo 2010, tem 146.392 moradores. E tem uma alta proporção de idosos. São 43.411 pessoas com mais de 65 anos.

– Ao contrário da cidade, do Estado e do País, em Copacabana os homens são maioria: 83.986 para 62.406 mulheres.

– São 92 mil edificações, entre casas, apartamentos, escritórios e lojas.

– Muito por abrigar grande número de hotéis e pousadas, Copacabana era, em meados da década passada, foco de crimes contra visitantes da cidade. Metade dos furtos e roubos cometidos contra turistas em todo o Estado ocorria em Copacabana. Nos últimos cinco anos o número de roubos caiu em 2/3.

– Copacabana é rica em histórias associadas a sexo. À noite, a orla ainda fica coalhada de mulheres e travestis se oferecendo aos motoristas. Durante os anos 90 e o início do novo século, boa parte das moças do métier se encontrava com os clientes na discoteca Help, que foi demolida para dar lugar ao novo Museu da Imagem e do Som, que está sendo construído. Mas a associação de Copacabana com o sexo é antiga. Durante as décadas de 10 a 30 funcionou no posto 6, quase na divisa com Ipanema, o estabelecimento Mère Louise, um rendez vous, como se chamava antigamente, famoso por suas noitadas. Hoje, no local, ergue-se o Sofitel.

– Mère Louise é a precursora. Mas os exemplos de um bairro associado ao tema são muitos. Da discoteca Help, às boates de strip tease da Prado Júnior, da Galeria Alaska com o show de travestis que ficou famoso nos anos 80 (transformado mais tarde em reduto evangélico), às aventuras de Kátia Flávia contadas pelo poeta Fausto Fawcett.

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segunda-feira, 25 de junho de 2012 Reportagem | 16:37

Confusões e gafes nos bastidores da recepção aos poderosos da Rio+20

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A Conferência da ONU sobre desenvolvimento sustentável no Rio de Janeiro já terminou, mas a poeira ainda não assentou. Longe dos olhares da imprensa e da população mundial, na recepção aos chefes de estado e de governo nos bastidores da Rio+20, sobrou confusão, trapalhadas e improviso.

Houve até entre os altos dignatários estrangeiros quem provasse um gostinho do caos aéreo tupiniquim na base Aérea do Galeão, o aeroporto militar usado para os voos fretados das delegações que vieram participar do evento.

A experiência antropológica da Cúpula dos Povos
Leia a cobertura do iG sobre a Rio+20
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Na manhã de quarta, dia 21, ao chegar, o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, teve que esperar durante quase duas horas dentro do avião pelo desembarque por falta de carros da Infraero. É que todos os disponíveis estavam sendo usados por outros chefes de estado que haviam aterrissado pouco antes. O adido militar indiano ficou irritado e disse que as autoridades brasileiras não passavam por isso quando visitam o seu país.

Nem sempre as autoridades tinham um controle eficiente de quem entrava e quem saia da base. Em uma ocasião, a Aeronáutica cobrava a chegada de uma tripulação africana, para levar o avião para a posição de decolagem. Mas a tripulação já estava na Base Aérea há duas horas e meia.

Segundo um funcionário do governo que participou da operação: “Nada sai como o planejado e surgem as informações mais desencontradas possíveis. Os órgãos não sabem trabalhar em conjunto e não há método para o fluxo de informações, nem para tomada de providências”.

Horas antes de a secretária de Estado Hillary Clinton chegar, a aproximação de um avião que ninguém sabia qual era, nem de onde vinha, suscitou um boato na sala de controle de que ela estaria no voo e pousaria em cinco minutos. O mesmo ocorreu com o líder cubano Raul Castro, alguns dias antes.

Troféu de confusão vai para a Gâmbia

A delegação de Gâmbia, foi um caso à parte. Se houvesse um prêmio para mau comportamento, segundo os diplomatas que serviram na Rio+20, ele iria para o país centro-africano. Eles não contrataram handling (os serviços em terra para uma aeronave, que vão de abastecimento de combustível, limpeza interna e externa, carregamento e descarregamento de bagagem, fornecimento de comida etc) para a aeronave que trouxe a delegação ao Brasil.

Isso teve que ser resolvido emergencialmente pela FAB, que contratou o serviço. Nem hospedagem a tripulação de Gâmbia tinha. O pessoal ficou na Base Aérea do Galeão sem passaporte, que havia sido levado pelo comando da delegação do País, governado por Yahya Jammeh desde 1994, quando subiu ao poder em um golpe de estado. Como nota de pé de página, não custa lembrar que o presidente da Gâmbia ganhou notoriedade em 2007, ao afirmar que curava Aids.

Ao deixar o Brasil, a delegação da Gâmbia também se recusou a pagar o catering. A conta pendurada ficou para a FAB. Além disso, um segurança da comitiva de Jammeh fez gestos ameaçadores e agrediu verbalmente um coronel do Exército no Riocentro. Faltou pouco para ser algemado e preso. O coronel brasileiro chegou a dar ordem para que os soldados imobilizassem e detivessem o gambiano caso ele esboçasse alguma reação armada.

A boca-livre dos diplomatas

Questões desse tipo acabavam sendo tratados pelos diplomatas de ligação brasileiros que serviram às delegações estrangeiras. Cada País tinha um diplig”, que era responsável por resolver a vida de cada participante. O que incluia acompanhamento em visitas ao Cristo Redentor, ao shopping e a churrascarias.

Eles tinham tarefas mais administrativas também. Deviam informar às autoridades competentes o horário dos voos de partida, quantas armas entravam no País com cada comitiva (era preciso um formulário específico de admissão temporária para checar que elas também saíam do País) etc.

Esse foi outro ponto de discórdia entre autoridades brasileiras e estrangeiras. Pelo menos uma delegação se recusou a mostrar as armas, o que causou descontentamento entre os funcionários da Receita Federal.

Os diplomatas de ligação também criaram problemas. Alguns tomaram o partido das delegações a que estavam servindo. Outros chamaram atenção usando estratagemas para comer de graça no setor VIP reservado para almoço de chefes de delegação no Pavilhão 5 do Riocentro. O local era restrito e não autorizado para os 200 diplomatas convocados para a função.

Isso gerou pelo menos uma situação embaraçosa, descrita no email em que a coordenadora de cerimonial apelava para que os diplomatas brasileiros evitassem esse tipo de comportamento.

“Alguns tentaram burlar o cerminonial e chegaram até mesmo a forçar a entrada de mais gente do que o permitido na sala de almoço. O caso mais grave foi de diplig que entrou correndo com quatro membros da delegação impedindo o controle do cerimonial e como se não bastasse retornou com mais quatro, que foram devidamente barrados. Infelizmente, no segundo grupo se encontrava o Primeiro-Ministro daquele país”.

“Enfim, os estratagemas foram vários e foram muitos os argumentos que as funcionárias do cerimonial tiveram que ouvir. Muitos deles nada agradáveis. Mesmo com toda a contenção, cerca de 14 dipligs furaram a barreira e almoçaram na tenda.
Se tal comportamento se repetir amanhã, quando teremos simultaneamente o almoço da Senhora PR (a presidente Dilma) e o almoço dos Ministros, teremos uma situação de caos total”, alertava a coordenadora do cerimonial.

Também por email, os dipligs tomaram um puxão de orelha do coordenador, Paulo Uchôa, que mandou que eles deveriam se virar para comer no Pavilhão 2 com as diárias (dobradas durante 20 dias) dadas pelo governo.

Placa coberta e caminho errado

Muitos problemas ocorreram com o transporte dos dignatários e representantes estrangeiros. Vans alugadas pelas delegações tiveram as placas cobertas com jornal, para evitar multas.

Alguns motoristas que serviram às delegações não conheciam os itinerários. O caso que ficou famoso foi uma van servindo ao Japão que acabou se perdendo e deu de frente com traficantes ao entrar em uma favela no Caju, zona portuária da cidade.

Outros erros de percurso, menos importantes, ocorreram. Na hora de deixar o Rio, por exemplo, o presidente do Chile, Sebastián Piñera, mofou durante duas horas dentro da aeronave porque duas vans da imprensa oficial se perderam a caminho da Base Aérea.

O presidente francês também enfrentou contratempo parecido na sua primeira ida ao Riocentro. O batedor se perdeu na chegada e foi parar em um pavilhão errado. François Hollande ficou preso por quase vinte minutos no carro. Mas não perdeu o bom humor e reagiu com simpatia, dizendo que não havia problema e que aproveitaria para rever os textos.

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sexta-feira, 22 de junho de 2012 Nota | 22:32

Ban Ki-Moon perde voo e Dilma tem que usar avião reserva

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A Rio+20 não terminou muito bem para Dilma Rousseff e para o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon. E isso não tem nada a ver com o criticado texto final da conferência sobre desenvolvimento sustentável. É que, na hora de ir embora da cidade, o avião da presidente deu pane. Em vez de voltar à Brasília em um A319, como previsto, ela teve que ir em uma aeronave reserva, um Embraer 190.

A experiência antropológica da Cúpula dos Povos
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Representantes dos governos estão desconectados do povo, critica senador francês

Comentário, entre os funcionários do governo na Base Aérea do Galeão é que alguém ia tomar esporro hoje à noite.

Mas Dilma, pelo menos, conseguiu viajar. Pior sorte teve Ban Ki-Moon. O secretário-geral da ONU foi do Riocentro à Base Áerea do Galeão acreditando que iria dar tempo de pegar o avião de volta, um voo comercial da Continental. Só que a aeronave já estava taxiando na pista, pronto para decolar. Já tinham desembarcado a bagagem, retirado seguranças e assessores que iriam com ele. Ban Ki-Moon deve ir neste sábado em um outro voo.

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quarta-feira, 20 de junho de 2012 Reportagem | 18:03

Uma experiência antropológica em uma visita à Cúpula dos Povos

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“Só não é um samba do crioulo doido porque os índios não são chegados em um pagode”, diz um jornalista politicamente incorreto ao constatar a quantidade de índios ou de pessoas paramentadas como tais na Cúpula dos Povos. O evento paralelo a Rio+20 é organizado por ONGs e representantes da sociedade civil no Aterro do Flamengo, às margens da Baía de Guanabara, um dos locais mais poluídos da cidade.

Ao lado da Marina da Glória, tendo o Pink Fleet, o iate do bilionário Eike Batista, como testemunha, ocorrem meditações com cristais e incenso para Gaia (o planeta); manifestações contra a usina de Belo Monte (contei cinco); hare krishnas tentando convencer integrantes do MST a dançar balançando um pandeiro (em vão); estudantes tentado convencer da importância do esperanto como a língua universal; índio conclamando para a guerra; marcha da maconha; adeptos fazendo propaganda da Kaballah, da fé Bahá’í, do MST, da homeopatia. Na Cúpula dos Povos tem espaço até para a venda de um condomínio ecológico na Baixada Fluminense.

José Geraldo da Silva, com sua fantasia "Amar a natureza faz bem ao coração", dança com Raimundo Ambrósio Nascimento

José Geraldo da Silva, com sua fantasia "Amar a natureza faz bem ao coração", dança com Raimundo Ambrósio Nascimento (foto: Luiz Antonio Ryff)

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Falta sinalização na Cúpula dos Povos
Representantes dos governos estão desconectados do povo, critica senador francês

Isso sem falar em uma palestra contra o sistema bancário em um evento que é patrocinado por um banco, a Caixa Econômica Federal. Mas a única coisa que parece destoar por completo da atmosfera é o grupo de vendedoras uniformizadas de uma operadora de celular promovendo chips pré-pagos.

Um dia circulando entre as 60 tendas e espaços armados em mais de dois quilômetros do aterro é uma experiência antropológica.

Local da diversidade

Mauro Porto, Assessor de Programa de Mídia e Liberdade de Expressão da Ford Foundation, uma das participantes, acha que essa atmosfera, muitas vezes com ideias conflitantes, faz parte.

“Aqui é o espaço da diversidade, não é lugar de consenso. A fundação apoiou o comitê organizador e a proposta da cúpula é não ter nenhuma posição programática ou política para a Rio+20. Mas criar um espaço dinâmico para a sociedade civil discutir. Principalmente aqueles setores sem muita visibilidade”.

O cacique Raoni, ao centro, lidera uma manifestação contra a usina de Belo Monte (foto: Luiz Antonio Ryff)

O cacique Raoni, ao centro, lidera uma manifestação contra a usina de Belo Monte (foto: Luiz Antonio Ryff)

Os estandes mostram essa diversidade. Vai de organizações reconhecidas internacionalmente, como a Action Aid, o Greenpeace, a Caritas, a Cruz Vermelha, a Anistia Internacional à primeira estação de coleta e triagem de bitucas de cigarro no Brasil. Há quem faça propaganda da Kaballah, do Partido Comunista Marxista e Leninista; e quem propagandeie a fé Bahá’í ou se oponha à energia nuclear. Há um estande que promove um “condomínio ecológico” em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Casas de três quartos na faixa dos R$ 400 mil, a quem interessar.

Também há espaço para discutir a educação em Angola; pregar a liberdade para o povo saharauí (o Sahara Ocidental, ocupado pelo Marrocos); palestrar sobre o trabalho de socorristas no Tsunami no Japão.

Maconha, esperanto, hare, hare e Belo Monte

O estudante de Biologia paranaense Renato Guedes, 19 anos, ajuda a montar um espaço para difundir o Esperanto. Demonstra animação com a possibilidade de conquistar novos adeptos, já que ninguém da família e nenhum amigo se animou a segui-lo no estudo da “língua neutra internacional”. Ele só pratica em conversas no Skype e no Facebook.

Hare krishnas dançando e cantando na Cúpula dos Povos (foto: Luiz Antonio Ryff)

Hare krishnas dançando e cantando na Cúpula dos Povos (foto: Luiz Antonio Ryff)

Entre os estandes e tendas, o parque foi transformado em um imenso camelódromo a céu aberto, onde se vende de frutas a livros sobre política, poesia e religião, de utensílios indígenas a CDs e artesanato de várias partes do mundo.

Manifestações são quase tão corriqueiras na Cúpula quanto engravatados nas discussões oficiais no Riocentro. Há uma a cada dez passos. Contra a construção de Belo Monte eu contei cinco. Uma delas sendo puxada pelo cacique Raoni (aquele mesmo, amigo do Sting). E muitas danças de índios e de outros grupos. Os hare krishnas tentam convencer os passantes a entrarem na dança. Enquanto eu estava lá o pessoal do MST foi refratário a cantar “hare, hare” balançando o pandeiro.

E há a Marcha da Maconha, na qual, além de gritos contra a PM (“Ê, polícia, maconha é uma delícia/ Ê, maconha, polícia é uma vergonha”), são entoados slogans como: “Maconha é natural, coxinha é que faz mal”. Esses o pessoal do Hare Krishna conseguiu colocar para dançar.

Pitoresco e folclórico

Muitos participantes não pertencem a qualquer grupo, mas fazem parte da festa. É o caso de José Geraldo da Silva, montador de máquinas de 52 anos que deixou Pedra Azul, em Minas Gerais, para participar da Cúpula dos Povos e se define como “uma gotinha no oceano.

Marcha da Maconha encontra o grupo hare krishna: "Hare, hare, legalize, legalize, hare, hare" (foto: Luiz Antonio Ryff)

Marcha da Maconha encontra o grupo hare krishna: "Hare, hare, legalize, legalize, hare, hare" (foto: Luiz Antonio Ryff)

“Vim tentar semear minha pequena sementinha por um mundo melhor e declarar meu amor à natureza”, explica ele, que chama atenção com uma roupa verde, com vários bichos de plástico, bandeiras do Brasil e folhas verdes grudadas.

“É minha fantasia. Eu a chamo de ‘Amar a natureza faz bem ao coração’. Eu tenho essa roupa há vários anos e vou adaptando à circunstância. Serve para ecologia, carnaval, corrida rústica, vôlei…”, enumera até ser interrompido por visitantes que querem fotografá-lo. “Já me tornei uma pessoa pitoresca e folclórica”, sorri feliz antes de puxar para dançar Raimundo Ambrósio Nascimento, 64 anos, que se diz um “índio em trânsito”.

A inglesa Victoria Sinclair, 38 anos, veio ao Rio para participar de meditações para “elevar a consciência mundial”. Com cristais e “incensos druidas”, ela se prepara para meditar em prol de Gaia (o planeta Terra), dos grupos indígenas e para trazer inspiração aos líderes mundiais reunidos no Riocentro. Está animada com o solstício de inverno nesta quinta (dia 21). “É bom para aproveitar a energia específica da lua nova. E no calendário Maia esse é um momento propício de equilíbrio entre passado e futuro”.

Disneylândia e azaração

Victoria Sinclair veio meditar pelo planeta com a ajuda de incenso e cristais (foto: Luiz Antonio Ryff)

Victoria Sinclair veio meditar pelo planeta com a ajuda de incenso e cristais (foto: Luiz Antonio Ryff)

Um pouco afastado da movimentação do evento, alguns participantes aproveitam o visual da praia do Flamengo, com o Pão-de-Açúcar ao fundo. A francesa Elise Soulier, 27 anos, veio como participante de uma associação de ensino. São 13 jovens ao todo em seu grupo, que vai produzir vídeos e escrever artigos quando voltar a França. Ela esteve no Riocentro e na Cúpula, onde lamentou que muitas discussões fossem apenas em português.

“O Riocentro é muito policiado e as discussões parecem estéreis. Deu para ver que gastaram muito dinheiro. É muito estranho, em uma conferência sobre desenvolvimento sustentável, ver tantas garrafas de plástico e o ar-condicionado no máximo”, critica. “Aqui é mais caloroso, mais intenso. Mas é meio uma Disneylândia, é um pouco folclórico”.

Sentado na areia, o londrino Daniel Morrell, 40 anos, tenta puxar papo com um grupo de belas meninas paulistas. Incomodado com a interrupção, elenca o que já fez em prol da sustentabilidade do planeta enquanto olha para as moças, que não prestam atenção no que ele fala. Ele conta ter criado quatro empresas que negociam créditos de carbono. “Eu inventei o termo ‘carbon neutral'”, afirma ele, que ainda não tem uma opinião sobre a Cúpula dos Povos. “Cheguei agora”, explica. Em vez das discussões nas tendas, foi à azaração na praia. Afinal, a Cúpula dos Povos também é social.

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terça-feira, 19 de junho de 2012 Nota | 22:47

Índio defende movimento revolucionário indígena na Cúpula dos Povos

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Uma faixa estendida em uma mesa colocada estrategicamente entre algumas das principais tendas e um auditório na Cúpula dos Povos, evento paralelo a Rio+20, chamava atenção: Pedia guerreiros indigenas para o Movimento Revolucionário Indígena – 500. Um cartaz conclamava: “Ações guerreiras já”.

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Tiuré durante seu 'processo espiritual' (foto: Luiz Antonio Ryff)

Tiuré durante seu 'processo espiritual' (foto: Luiz Antonio Ryff)

No meio da tarde o estande improvisado estava vazio. Apenas os cartazes, algumas flechas e a faixa. Uma hora depois um homem com uma espécie de cocar de palha e com o corpo pintado estava sentado em uma das cadeiras, com olhar longínquo. “Agora não posso falar. Estou num processo espiritual”, desculpou-se falando baixo e lentamente. 
”Volte mais tarde”, balbuciou.

Algumas horas depois, o homem estava disponível. Identificou-se como Tiuré, 63 anos, índio potiguara da aldeia Lagoa do Mato, na Paraíba e explicou por que não podia falar.

“Eu estava em uma outra sintonia, não estava aqui. Um parente me deu uma planta mágica para cheirar”. A tal planta é um pó, rapé indígena, que é colocado em um canudo. Tiuré conta que o parente soprou o pó para dentro de sua narina.

E o que essa planta mágica faz, perguntei? “Eu fico em paz, recebendo energia dos meus antepassados”.

Tiuré já pronto para a guerra (foto: Luiz Antonio Ryff)

Tiuré já pronto para a guerra (foto: Luiz Antonio Ryff)

Mas tirando o efeito do rapé, Tiuré não quer paz. Ao contrário. Ele defende a guerra e se propõe a conclamar os indígenas guerreiros para uma ação na cúpula. “Estamos nos preparando para isso. Ainda não temos gente suficiente”.

“Temos que pressionar o Estado para que ele tome ações concretas”, afirma. No caso de sua aldeia, Tiuré quer retomar 20 mil hectares que ele diz terem sido tomados à força nos últimos 40 anos – e que foram entregues a usinas e grandes proprietários.

Para isso ele defende ações armadas. “Mas não com armas de fogo”, salienta. “Só usamos as nossas armas, bordunas, arco e flecha, foice, facão e machado”, explica sem alterar a voz ou mostrar agressividade.

“Nós estamos prontos para morrer, como nossos antepassados, na luta pela nossa terra”, garante ele, que diz que o movimento é autônomo, não é filiado a partido e não aceita dinheiro de governo.

Exilado político

Ele explica que seu envolvimento com questões políticas e a defesa das questões indígenas data da época da ditadura, quando conta ter sido preso e torturado, o que o levou ao exílio em Montreal, no Canadá.

Após conversar um pouco em francês, lembrando que lá se fala o quebecois, Tiuré diz que foi o primeiro índio brasileiro reconhecido pelo Alto Comissariado da ONU para refugiados e questiona o atual governo brasileiro e a Comissão da Verdade.

“Há um silêncio sobre a questão dos índios durante a ditadura. Não há uma linha nos livros sobre as atrocidades cometidas contra nós durante esse período. A Comissão da Verdade está aí e não se fala nada. E não houve desaparecimento de indivíduos. Houve genocídio. Aldeias foram exterminadas”.

Para não ficar na gaveta

Apesar de participar da Cúpula dos Povos, ele critica a Rio+20. “Aqui há uma manipulação grande da questão indígena por ONGs e por igrejas, que defendem a elaboração de documentos. É preciso romper com isso. Sou contra esse cenário midiático. Daqui só sai elaboração de papéis que vão para as gaveta e armários. Não podemos esperar um Rio+40, é preciso agir já”.

“Eu quero partir para a ação. Em Belo Monte, temos que invadir os acampamentos, os canteiros de obras e parar tudo. O modelo de desenvolvimento adotado por esse governo não vai parar. Por isso estou conclamando os guerreiros para uma guerra”, diz ele. que, ao fim da conversa, gentilmente pede. “Você me manda o texto por email quando sair?”.

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Nota | 22:45

Rio+20: Delegação russa cria saia justa diplomática

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Os russos estão chegando. E o Itamaraty e o resto do governo que se cuidem. A vinda da delegação que deve ter o ex-presidente e atual primeiro-ministro Dmitri Medvedev à frente causou duas dores de cabeça para as equipes encarregadas de receberem os chefes de estado e de governo que participarão da Rio+20.

O primeiro problema foi a chegada de um contêiner lacrado. Como é de praxe, a Receita Federal foi inspecionar. Mas os russos não deixaram. Criou-se um impasse. O contêiner acabou liberado sem que fosse vistoriado.

Ontem, dia 18, chegaram carros blindados para o deslocamento de Medveded e de sua entourage. A Receita e a Polícia Federal quiseram ver o que tinha nas malas. Mais uma vez os russos negaram permissão. Com o novo impasse, instâncias superiores foram novamente acionadas. E mais uma vez os russos levaram a melhor. Entraram no Brasil sem que as bagagens fossem vistoriadas.

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Nota | 18:51

Senador francês diz que representantes dos governos estão desconectados do povo

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Joël Labbé, 60 anos, é um senador francês pelo Partido Verde e está no Rio de Janeiro para a Rio+20. Ele esteve no Riocentro, onde ocorre a conferência da ONU, mas foi visitar a Cúpula dos Povos, evento paralelo organizado pela sociedade civil no Aterro do Flamengo.

O senador francês Joel Labbé numa banquinha do MST na Cúpula dos Povos

O senador francês Joel Labbé numa banquinha do MST na Cúpula dos Povos (Foto: Luiz Antonio Ryff)

Foi encontrado comendo frutas em pé, em uma banquinha do MST, com o paletó nas costas. Sorridente, criticou os encontros oficiais, onde falou em um painel sobre a grilagem de terras por multinacionais.

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“O mundo do Riocentro é completamente desconectado em relação ao povo. Não tem muitos representantes políticos vindo aqui”, lamenta ele. “Mas o ambiente para a verdadeira mudança está aqui”, diz Labbé, que também é prefeito de Saint-Nolff, na Bretanha.

“Sou otimista por natureza, mas não tenho ilusões em relação ao texto original”, afirma ele, que defende a agricultura biológica orgânica e está em contato com a Via Campesina.

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segunda-feira, 18 de junho de 2012 Reportagem | 16:29

Gol e Azul fazem voos com biocombustíveis de cana, óleo vegetal e resto de gordura

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Querosenes feito de cana-de-açúcar e de óleo vegetal e restos de gorduras animais são os biocombustíveis experimentais que serão usados por duas companhias aéreas nacionais em voos testes pioneiros nesta terça-feira, dia 19. Os voos da Gol e da Azul saem de São Paulo para o Rio, onde ocorre a Rio+20. O anúncio foi feito hoje em palestra no Fórum Humanidades, evento paralelo da Rio+20 sediado no Forte de Copacabana.

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No caso da Azul, o projeto é uma parceria com a Amyris (que desenvolveu o biocombustível para aviação), com a Embraer e a GE. Será o primeiro voo no mundo usando querosene derivado de cana-de-açúcar. Com convidados da empresa, um jato Embraer 195 (com 118 lugares) sai de Viracopos, em Campinas, para o aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro.

É um voo não comercial, já que é um teste e o combustível ainda não foi certificado pelas autoridades locais. Ele também é uma mistura de 50% de bioquerosene e 50% de querosene de aviação normal.

O preço de produção atual é proibitivo. Custaria cerca de 4 a 5 vezes mais do que o querosene de aviação convencional. É bom lembrar que o combustível responde por até 40% dos custos de uma empresa de aviação. Mas, segundo o diretor de relações institucionais da Azul, Abelardo Febeliano, com uma produção em larga escala o bioquerosene derivado de cana-de-açúcar ficaria competitivo. Ele acredita que em dois anos isso poderia começar a ocorrer. E que o percentual de combustível de origem renovável poderia chegar a 100%.

“É preciso pensar em fontes renováveis, já que o petróleo vai acabar. Além de ser uma fonte renovável, a cana é menos poluente. Ela reduz em 82% as emissões de gases de efeito estufa”, afirma Febeliano.

“Já há biocombustíveis com óleos vegetais que receberam o certificado para voos comerciais. Mas esse projeto é o pioneiro no mundo a transformar açúcar em hidrocarboneto”, afirma Adilson Liebsch, diretor de marketing da Amyris.

Outro voo verde

Biocombustível usando óleo vegetal é o modelo adotado pela Gol. O voo da Gol fará o trajeto da ponte aérea São Paulo-Rio, com um avião saindo de Congonhas às 12h40 e chegando ao Santos Dumont às 13h42. O biocombustível usado pela empresa foi produzido a partir de óleo de milho não comestível e óleos e gorduras residuais, que são convertidos em hidrocarbonetos puros. O resultado é misturado a 50% de combustível fóssil.

Um dos passageiros do voo da Gol será o secretário-geral da Organização Internacional de Aviação Civil, Raymond Benjamin. Na onde verde e ecologicamente responsável promovida pela Rio+20, a conferência de desenvolvimentos sustentável da ONU, ele avisou que virá do Canadá, passando pelo México e por São Paulo viajando apenas em aeronaves que usam biocombustível.

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