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sexta-feira, 24 de agosto de 2012 Entrevista, Reportagem | 10:05

A transformação do Viva Rio de pedra em vidraça

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O Viva Rio nasceu como uma reação de um grupo da sociedade civil carioca a um momento particularmente violento na cidade, após as chacinas da Candelária e de Vigário Geral, em 1993. Está chegando aos 19 anos em transição. Surgiu como uma Organização Não-Governamental e está cada vez mais funcionando como uma Organização Social. Antes, promovia debates, coletava sugestões, fazia críticas. Era um criador de agendas. Agora, com essa mudança de perfil, o Viva Rio teve que aprender a meter a mão na massa e passou a atuar em parcerias com os governos. Virou um executor de políticas públicas. Isso quer dizer que ele deixa de ser pedra e passa a ser vidraça.

Clínica da família na Rocinha

Clínica da família na Rocinha operada pelo Viva Rio como Organização Social (foto divulgação)

Se surgiu preocupado em reduzir a violência urbana, hoje pensa em promover o desenvolvimento local com inclusão social. “A gente propunha agendas e horizontes para o Rio. Essa agenda se cumpriu. O grande desafio agora é fazer”, afirma o antropólogo Rubem César Fernandes, diretor-executivo do Viva Rio. “E é preciso atuar no micro. O micro mudou muito pouco”, lamenta. E justifica a mudança. “Os mecanismos institucionais são emperrados”.

Do ponto de vista jurídico, uma Organização Social pode receber isenções fiscais e verbas do governo para a realização de atividades de interesse público e social. Do ponto de vista prático, o mais importante é que uma OS tem mais muito mais flexibilidade para comprar e para contratar e demitir pessoas – os funcionários não se tornam funcionários públicos. Se por um lado é bem menos engessado, para seus críticos o modelo está submetido a menos controles.

Campanha fracassada

Nascida em dezembro de 1993, o Viva Rio hoje conta com 4 mil funcionários, que atuam nas áreas de saúde, meio-ambiente, educação, artes, esportes e segurança humana – um nome pomposo que inclui a elaboração de políticas públicas para diminuir a violência, campanhas de controle de armas, e programas de qualificação da Guarda Municipal e da PM, entre outras coisas. Seus programas atendem direta e indiretamente 1,2 milhão de pessoas. E o Viva Rio já recebeu dezenas de prêmios, no Brasil e no exterior.

Nos últimos anos, a ONG foi definitivamente se transmutando. As operações no Haiti são um exemplo. O Viva Rio levou para o país do Caribe a experiência desenvolvida nas favelas cariocas. Chegaram aos poucos em 2005, como consultores. Os representantes da ONU gostaram e pediram uma ampliação do trabalho. Hoje são 800 pessoas, sendo 450 haitianos.

No Rio, como OS, passou a operar clínicas da família dentro das comunidades carentes. E firmou um convênio para gerir seis UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) na cidade – cinco do Estado e uma do município.

Na parte de “segurança humana” o trabalho inclui ajudar a formar guardas municipais e PMs que trabalham nas UPPs em como lidar com moradores das favelas.

Não quer dizer que a origem de formulação de propostas tenha sido arquivada. Mas mesmo essa faceta também está envolta em polêmica. O Viva Rio já liderou a campanha pelo desarmamento. O plebiscito foi derrotado. Agora o objetivo é ainda mais delicado: mudar a legislação de drogas, liberando o plantio de maconha para consumo próprio e transferindo a questão da área criminal para a área médica.

“O Viva Rio se transformou em um instrumento de execução das agendas que a gente mesmo ajudou a discutir no passado. A gente não é uma empresa de RH ou de logística de saúde”, explica Rubem César.

Baixo astral e esvaziamento

Essa mudança de orientação do Viva Rio é reflexo da mudança da cidade, segundo Rubem César. Ele diz que no início dos anos 90, o carioca ficava discutindo o mundo e demorou a perceber a crise, o baixo astral, o esvaziamento da cidade, a criminalidade.

“A violência era o sintoma mais evidente de uma patologia maior, que era o esvaziamento econômico Os bancos estavam indo embora, as estatais tinham ido para Brasília. Todo mundo queria sair.  O Viva Rio foi uma resposta da elite da cidade”, diz ele, lembrando que os primeiros passos foram dados por empresários de comunicação. Walter de Mattos (do Lance) chamou Herbert de Souza, o Betinho, João Roberto Marinho (Organizações Globo), e Manoel Francisco Brito (então Jornal do Brasil). “Eles chamaram o resto”.

Rubem César reconhece que a iniciativa passou por muitas idas e vindas até se consolidar. E que se o Viva Rio ajudou a cidade a se reinventar, também se beneficia do momento favorável movido por descoberta do pré-sal, investimentos na cidade, grandes eventos (Rio+20, Jornada Mundial da Juventude, Copa das Confederações, Olimpíadas, Copa do Mundo).

Ele ainda vê com simpatia os movimentos recentes, como o Rio Como Vamos e o Eu Amo, Eu Cuido. “São iniciativas jovens e importantes”.

“O Brasil vive uma boa fase e o Rio simboliza essa recuperação do País. De exemplo de problema, está virando exemplo de solução. O Rio é um case de soluções para questões que pareciam insolúveis. E passou a ser novamente um sinalizador positivo para o Brasil”. Ele cita o Bope e as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora). “É curioso que a polícia do Rio tenha se tornado uma referência até internacional”. E ele cita experiências como o Favela-bairro e o trabalho da Comlurb, a empresa de limpeza urbana, nas favelas como exemplos de possibilidade de exportação de “know-how social”.

“O que o Rio viveu é um cenário frequente em várias partes do mundo, com países saindo de guerras civis, golpes de estado, e entrando em cenário de violência urbana potencializado por fragilidades institucionais. É comum na África, na América Central, em cidades muito grandes”.

Mas ele alerta que o momento positivo tem que ser aproveitado e que não dá para baixar a guarda. “Este início é promissor, mas há um risco de se perder no meio do caminho”. E que há muita coisa a se fazer. Ele diz que a política de integração social é aquém do necessário e que falta alinhamento de políticas públicas entre a capital e a região metropolitana. “E deveria haver mais descentralização da governança”.

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segunda-feira, 6 de agosto de 2012 Nota, Reportagem | 12:23

SP ainda está melhor do que o Rio em matéria de crimes letais

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Uma série de crimes na cidade de São Paulo colocou o governo paulista na berlinda. Principalmente por ações que envolveram a participação de policiais. Estatísticas da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo mostraram que o número de homicídios na capital cresceu 21,57% na comparação entre o primeiro semestre de 2012 e o mesmo período do ano passado.

O secretário de Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto, admitiu que o estado vive uma “escalada de violência”. Entre os episódios recentes mais notórios estão a morte do bancário italiano Tomasso Lotto, os assassinatos do empresário Ricardo Aquino, as mortes de César Dias de Oliveira e Ricardo Tavares da Silva, arrastões em restaurantes e a execução do delegado da polícia civil Paulo de Paula na marginal Tietê.

O Ministério Público Federal chegou a pedir a troca do comando da PM e cogitou pedir a intervenção federal no Estado para conter a violência.

O coordenador nacional do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), Rildo Marques de Oliveira, disse que o governo paulista “não conseguiu encontrar uma forma adequada de fazer uma política de segurança pública com cidadania”.

No Rio, a situação é inversa. Há um elogio praticamente unânime à política da Secretaria de Segurança Pública no estado, principalmente com a instalação das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) em favelas da capital carioca. Os índices de crimes, notadamente homicídio, vem caindo de forma constante.

Números do Rio são piores

Entretanto, basta comparar as estatísticas de segurança pública relativas ao primeiro semestre de 2012 divulgadas pelos dois governos para ver que as impressões de controle no Rio e de descontrole em São Paulo são exageradas.

É verdade que, no primeiro semestre, alguns índices importantes tiveram piora significativa em São Paulo e melhora no Rio, em relação ao mesmo período do ano passado. Contudo, se comparados, os números em São Paulo ainda são muito melhores do que os do Rio. Um estudo com números de 2010, aliás, mostrava que, entre as 27 capitais estaduais, São Paulo é a que tinha menor número de homicídios percentualmente.

“São Paulo está há 10 anos diminuindo a criminalidade. No que diz respeito à violência letal, a diferença a favor de São Paulo é sem dúvida muito grande ainda. Se pudéssemos trocar com São Paulo, faríamos um grande negócio”, afirma o sociólogo Ignácio Cano, professor do Laboratório de Análise da Violência da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), que acaba de publicar um estudo sobre as UPPs.

Para cada carro roubado no Rio, quatro são levados em São Paulo

No primeiro semestre de 2012 foram registrados 655 homicídios dolosos na capital carioca. Em São Paulo foram 622 no mesmo período. É bom lembrar que o número de habitantes em São Paulo é 78% maior, o que faz com que a relação paulistana de homicídios por 100 mil habitantes seja ainda menor. Pelo Censo 2010 são 11.244.369 moradores na capital paulista e 6.323.037 na fluminense.

Em outros índices importantes o resultado também é menos favorável ao Rio. Percentualmente, no primeiro semestre do ano, houve mais estupros, mais tentativas de homicídio e de homicídios culposos no trânsito no Rio.

Na comparação com o Rio, São Paulo também foi mais eficiente em armas apreendidas (+133%) e nas prisões efetuadas em flagrante e por mandato (+181%).

Se São Paulo está melhor do que o Rio no que diz respeito a crimes letais, o mesmo não se pode dizer em relação a crimes contra o patrimônio. No primeiro semestre se roubou muito mais veículos e carga na capital paulista. Para cada carro roubado no Rio foram levados quatro em São Paulo. Foram 23.028 só nos primeiros seis meses de 2012.

“As pessoas avaliam o momento. É natural. E hoje a conjuntura é desfavorável a São Paulo e favorável ao Rio. Mas a perspectiva deles ainda é melhor. O Rio ainda tem muito o que fazer para chegar aos índices de São Paulo. Se continuar nesse ritmo, talvez , em 5, 6, 7 anos o Rio chegue à situação de São Paulo hoje”, avalia Ignácio Cano.

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segunda-feira, 25 de junho de 2012 Reportagem | 16:37

Confusões e gafes nos bastidores da recepção aos poderosos da Rio+20

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A Conferência da ONU sobre desenvolvimento sustentável no Rio de Janeiro já terminou, mas a poeira ainda não assentou. Longe dos olhares da imprensa e da população mundial, na recepção aos chefes de estado e de governo nos bastidores da Rio+20, sobrou confusão, trapalhadas e improviso.

Houve até entre os altos dignatários estrangeiros quem provasse um gostinho do caos aéreo tupiniquim na base Aérea do Galeão, o aeroporto militar usado para os voos fretados das delegações que vieram participar do evento.

A experiência antropológica da Cúpula dos Povos
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Na manhã de quarta, dia 21, ao chegar, o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, teve que esperar durante quase duas horas dentro do avião pelo desembarque por falta de carros da Infraero. É que todos os disponíveis estavam sendo usados por outros chefes de estado que haviam aterrissado pouco antes. O adido militar indiano ficou irritado e disse que as autoridades brasileiras não passavam por isso quando visitam o seu país.

Nem sempre as autoridades tinham um controle eficiente de quem entrava e quem saia da base. Em uma ocasião, a Aeronáutica cobrava a chegada de uma tripulação africana, para levar o avião para a posição de decolagem. Mas a tripulação já estava na Base Aérea há duas horas e meia.

Segundo um funcionário do governo que participou da operação: “Nada sai como o planejado e surgem as informações mais desencontradas possíveis. Os órgãos não sabem trabalhar em conjunto e não há método para o fluxo de informações, nem para tomada de providências”.

Horas antes de a secretária de Estado Hillary Clinton chegar, a aproximação de um avião que ninguém sabia qual era, nem de onde vinha, suscitou um boato na sala de controle de que ela estaria no voo e pousaria em cinco minutos. O mesmo ocorreu com o líder cubano Raul Castro, alguns dias antes.

Troféu de confusão vai para a Gâmbia

A delegação de Gâmbia, foi um caso à parte. Se houvesse um prêmio para mau comportamento, segundo os diplomatas que serviram na Rio+20, ele iria para o país centro-africano. Eles não contrataram handling (os serviços em terra para uma aeronave, que vão de abastecimento de combustível, limpeza interna e externa, carregamento e descarregamento de bagagem, fornecimento de comida etc) para a aeronave que trouxe a delegação ao Brasil.

Isso teve que ser resolvido emergencialmente pela FAB, que contratou o serviço. Nem hospedagem a tripulação de Gâmbia tinha. O pessoal ficou na Base Aérea do Galeão sem passaporte, que havia sido levado pelo comando da delegação do País, governado por Yahya Jammeh desde 1994, quando subiu ao poder em um golpe de estado. Como nota de pé de página, não custa lembrar que o presidente da Gâmbia ganhou notoriedade em 2007, ao afirmar que curava Aids.

Ao deixar o Brasil, a delegação da Gâmbia também se recusou a pagar o catering. A conta pendurada ficou para a FAB. Além disso, um segurança da comitiva de Jammeh fez gestos ameaçadores e agrediu verbalmente um coronel do Exército no Riocentro. Faltou pouco para ser algemado e preso. O coronel brasileiro chegou a dar ordem para que os soldados imobilizassem e detivessem o gambiano caso ele esboçasse alguma reação armada.

A boca-livre dos diplomatas

Questões desse tipo acabavam sendo tratados pelos diplomatas de ligação brasileiros que serviram às delegações estrangeiras. Cada País tinha um diplig”, que era responsável por resolver a vida de cada participante. O que incluia acompanhamento em visitas ao Cristo Redentor, ao shopping e a churrascarias.

Eles tinham tarefas mais administrativas também. Deviam informar às autoridades competentes o horário dos voos de partida, quantas armas entravam no País com cada comitiva (era preciso um formulário específico de admissão temporária para checar que elas também saíam do País) etc.

Esse foi outro ponto de discórdia entre autoridades brasileiras e estrangeiras. Pelo menos uma delegação se recusou a mostrar as armas, o que causou descontentamento entre os funcionários da Receita Federal.

Os diplomatas de ligação também criaram problemas. Alguns tomaram o partido das delegações a que estavam servindo. Outros chamaram atenção usando estratagemas para comer de graça no setor VIP reservado para almoço de chefes de delegação no Pavilhão 5 do Riocentro. O local era restrito e não autorizado para os 200 diplomatas convocados para a função.

Isso gerou pelo menos uma situação embaraçosa, descrita no email em que a coordenadora de cerimonial apelava para que os diplomatas brasileiros evitassem esse tipo de comportamento.

“Alguns tentaram burlar o cerminonial e chegaram até mesmo a forçar a entrada de mais gente do que o permitido na sala de almoço. O caso mais grave foi de diplig que entrou correndo com quatro membros da delegação impedindo o controle do cerimonial e como se não bastasse retornou com mais quatro, que foram devidamente barrados. Infelizmente, no segundo grupo se encontrava o Primeiro-Ministro daquele país”.

“Enfim, os estratagemas foram vários e foram muitos os argumentos que as funcionárias do cerimonial tiveram que ouvir. Muitos deles nada agradáveis. Mesmo com toda a contenção, cerca de 14 dipligs furaram a barreira e almoçaram na tenda.
Se tal comportamento se repetir amanhã, quando teremos simultaneamente o almoço da Senhora PR (a presidente Dilma) e o almoço dos Ministros, teremos uma situação de caos total”, alertava a coordenadora do cerimonial.

Também por email, os dipligs tomaram um puxão de orelha do coordenador, Paulo Uchôa, que mandou que eles deveriam se virar para comer no Pavilhão 2 com as diárias (dobradas durante 20 dias) dadas pelo governo.

Placa coberta e caminho errado

Muitos problemas ocorreram com o transporte dos dignatários e representantes estrangeiros. Vans alugadas pelas delegações tiveram as placas cobertas com jornal, para evitar multas.

Alguns motoristas que serviram às delegações não conheciam os itinerários. O caso que ficou famoso foi uma van servindo ao Japão que acabou se perdendo e deu de frente com traficantes ao entrar em uma favela no Caju, zona portuária da cidade.

Outros erros de percurso, menos importantes, ocorreram. Na hora de deixar o Rio, por exemplo, o presidente do Chile, Sebastián Piñera, mofou durante duas horas dentro da aeronave porque duas vans da imprensa oficial se perderam a caminho da Base Aérea.

O presidente francês também enfrentou contratempo parecido na sua primeira ida ao Riocentro. O batedor se perdeu na chegada e foi parar em um pavilhão errado. François Hollande ficou preso por quase vinte minutos no carro. Mas não perdeu o bom humor e reagiu com simpatia, dizendo que não havia problema e que aproveitaria para rever os textos.

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quarta-feira, 20 de junho de 2012 Reportagem | 18:03

Uma experiência antropológica em uma visita à Cúpula dos Povos

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“Só não é um samba do crioulo doido porque os índios não são chegados em um pagode”, diz um jornalista politicamente incorreto ao constatar a quantidade de índios ou de pessoas paramentadas como tais na Cúpula dos Povos. O evento paralelo a Rio+20 é organizado por ONGs e representantes da sociedade civil no Aterro do Flamengo, às margens da Baía de Guanabara, um dos locais mais poluídos da cidade.

Ao lado da Marina da Glória, tendo o Pink Fleet, o iate do bilionário Eike Batista, como testemunha, ocorrem meditações com cristais e incenso para Gaia (o planeta); manifestações contra a usina de Belo Monte (contei cinco); hare krishnas tentando convencer integrantes do MST a dançar balançando um pandeiro (em vão); estudantes tentado convencer da importância do esperanto como a língua universal; índio conclamando para a guerra; marcha da maconha; adeptos fazendo propaganda da Kaballah, da fé Bahá’í, do MST, da homeopatia. Na Cúpula dos Povos tem espaço até para a venda de um condomínio ecológico na Baixada Fluminense.

José Geraldo da Silva, com sua fantasia "Amar a natureza faz bem ao coração", dança com Raimundo Ambrósio Nascimento

José Geraldo da Silva, com sua fantasia "Amar a natureza faz bem ao coração", dança com Raimundo Ambrósio Nascimento (foto: Luiz Antonio Ryff)

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Falta sinalização na Cúpula dos Povos
Representantes dos governos estão desconectados do povo, critica senador francês

Isso sem falar em uma palestra contra o sistema bancário em um evento que é patrocinado por um banco, a Caixa Econômica Federal. Mas a única coisa que parece destoar por completo da atmosfera é o grupo de vendedoras uniformizadas de uma operadora de celular promovendo chips pré-pagos.

Um dia circulando entre as 60 tendas e espaços armados em mais de dois quilômetros do aterro é uma experiência antropológica.

Local da diversidade

Mauro Porto, Assessor de Programa de Mídia e Liberdade de Expressão da Ford Foundation, uma das participantes, acha que essa atmosfera, muitas vezes com ideias conflitantes, faz parte.

“Aqui é o espaço da diversidade, não é lugar de consenso. A fundação apoiou o comitê organizador e a proposta da cúpula é não ter nenhuma posição programática ou política para a Rio+20. Mas criar um espaço dinâmico para a sociedade civil discutir. Principalmente aqueles setores sem muita visibilidade”.

O cacique Raoni, ao centro, lidera uma manifestação contra a usina de Belo Monte (foto: Luiz Antonio Ryff)

O cacique Raoni, ao centro, lidera uma manifestação contra a usina de Belo Monte (foto: Luiz Antonio Ryff)

Os estandes mostram essa diversidade. Vai de organizações reconhecidas internacionalmente, como a Action Aid, o Greenpeace, a Caritas, a Cruz Vermelha, a Anistia Internacional à primeira estação de coleta e triagem de bitucas de cigarro no Brasil. Há quem faça propaganda da Kaballah, do Partido Comunista Marxista e Leninista; e quem propagandeie a fé Bahá’í ou se oponha à energia nuclear. Há um estande que promove um “condomínio ecológico” em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Casas de três quartos na faixa dos R$ 400 mil, a quem interessar.

Também há espaço para discutir a educação em Angola; pregar a liberdade para o povo saharauí (o Sahara Ocidental, ocupado pelo Marrocos); palestrar sobre o trabalho de socorristas no Tsunami no Japão.

Maconha, esperanto, hare, hare e Belo Monte

O estudante de Biologia paranaense Renato Guedes, 19 anos, ajuda a montar um espaço para difundir o Esperanto. Demonstra animação com a possibilidade de conquistar novos adeptos, já que ninguém da família e nenhum amigo se animou a segui-lo no estudo da “língua neutra internacional”. Ele só pratica em conversas no Skype e no Facebook.

Hare krishnas dançando e cantando na Cúpula dos Povos (foto: Luiz Antonio Ryff)

Hare krishnas dançando e cantando na Cúpula dos Povos (foto: Luiz Antonio Ryff)

Entre os estandes e tendas, o parque foi transformado em um imenso camelódromo a céu aberto, onde se vende de frutas a livros sobre política, poesia e religião, de utensílios indígenas a CDs e artesanato de várias partes do mundo.

Manifestações são quase tão corriqueiras na Cúpula quanto engravatados nas discussões oficiais no Riocentro. Há uma a cada dez passos. Contra a construção de Belo Monte eu contei cinco. Uma delas sendo puxada pelo cacique Raoni (aquele mesmo, amigo do Sting). E muitas danças de índios e de outros grupos. Os hare krishnas tentam convencer os passantes a entrarem na dança. Enquanto eu estava lá o pessoal do MST foi refratário a cantar “hare, hare” balançando o pandeiro.

E há a Marcha da Maconha, na qual, além de gritos contra a PM (“Ê, polícia, maconha é uma delícia/ Ê, maconha, polícia é uma vergonha”), são entoados slogans como: “Maconha é natural, coxinha é que faz mal”. Esses o pessoal do Hare Krishna conseguiu colocar para dançar.

Pitoresco e folclórico

Muitos participantes não pertencem a qualquer grupo, mas fazem parte da festa. É o caso de José Geraldo da Silva, montador de máquinas de 52 anos que deixou Pedra Azul, em Minas Gerais, para participar da Cúpula dos Povos e se define como “uma gotinha no oceano.

Marcha da Maconha encontra o grupo hare krishna: "Hare, hare, legalize, legalize, hare, hare" (foto: Luiz Antonio Ryff)

Marcha da Maconha encontra o grupo hare krishna: "Hare, hare, legalize, legalize, hare, hare" (foto: Luiz Antonio Ryff)

“Vim tentar semear minha pequena sementinha por um mundo melhor e declarar meu amor à natureza”, explica ele, que chama atenção com uma roupa verde, com vários bichos de plástico, bandeiras do Brasil e folhas verdes grudadas.

“É minha fantasia. Eu a chamo de ‘Amar a natureza faz bem ao coração’. Eu tenho essa roupa há vários anos e vou adaptando à circunstância. Serve para ecologia, carnaval, corrida rústica, vôlei…”, enumera até ser interrompido por visitantes que querem fotografá-lo. “Já me tornei uma pessoa pitoresca e folclórica”, sorri feliz antes de puxar para dançar Raimundo Ambrósio Nascimento, 64 anos, que se diz um “índio em trânsito”.

A inglesa Victoria Sinclair, 38 anos, veio ao Rio para participar de meditações para “elevar a consciência mundial”. Com cristais e “incensos druidas”, ela se prepara para meditar em prol de Gaia (o planeta Terra), dos grupos indígenas e para trazer inspiração aos líderes mundiais reunidos no Riocentro. Está animada com o solstício de inverno nesta quinta (dia 21). “É bom para aproveitar a energia específica da lua nova. E no calendário Maia esse é um momento propício de equilíbrio entre passado e futuro”.

Disneylândia e azaração

Victoria Sinclair veio meditar pelo planeta com a ajuda de incenso e cristais (foto: Luiz Antonio Ryff)

Victoria Sinclair veio meditar pelo planeta com a ajuda de incenso e cristais (foto: Luiz Antonio Ryff)

Um pouco afastado da movimentação do evento, alguns participantes aproveitam o visual da praia do Flamengo, com o Pão-de-Açúcar ao fundo. A francesa Elise Soulier, 27 anos, veio como participante de uma associação de ensino. São 13 jovens ao todo em seu grupo, que vai produzir vídeos e escrever artigos quando voltar a França. Ela esteve no Riocentro e na Cúpula, onde lamentou que muitas discussões fossem apenas em português.

“O Riocentro é muito policiado e as discussões parecem estéreis. Deu para ver que gastaram muito dinheiro. É muito estranho, em uma conferência sobre desenvolvimento sustentável, ver tantas garrafas de plástico e o ar-condicionado no máximo”, critica. “Aqui é mais caloroso, mais intenso. Mas é meio uma Disneylândia, é um pouco folclórico”.

Sentado na areia, o londrino Daniel Morrell, 40 anos, tenta puxar papo com um grupo de belas meninas paulistas. Incomodado com a interrupção, elenca o que já fez em prol da sustentabilidade do planeta enquanto olha para as moças, que não prestam atenção no que ele fala. Ele conta ter criado quatro empresas que negociam créditos de carbono. “Eu inventei o termo ‘carbon neutral'”, afirma ele, que ainda não tem uma opinião sobre a Cúpula dos Povos. “Cheguei agora”, explica. Em vez das discussões nas tendas, foi à azaração na praia. Afinal, a Cúpula dos Povos também é social.

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segunda-feira, 18 de junho de 2012 Reportagem | 16:29

Gol e Azul fazem voos com biocombustíveis de cana, óleo vegetal e resto de gordura

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Querosenes feito de cana-de-açúcar e de óleo vegetal e restos de gorduras animais são os biocombustíveis experimentais que serão usados por duas companhias aéreas nacionais em voos testes pioneiros nesta terça-feira, dia 19. Os voos da Gol e da Azul saem de São Paulo para o Rio, onde ocorre a Rio+20. O anúncio foi feito hoje em palestra no Fórum Humanidades, evento paralelo da Rio+20 sediado no Forte de Copacabana.

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No caso da Azul, o projeto é uma parceria com a Amyris (que desenvolveu o biocombustível para aviação), com a Embraer e a GE. Será o primeiro voo no mundo usando querosene derivado de cana-de-açúcar. Com convidados da empresa, um jato Embraer 195 (com 118 lugares) sai de Viracopos, em Campinas, para o aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro.

É um voo não comercial, já que é um teste e o combustível ainda não foi certificado pelas autoridades locais. Ele também é uma mistura de 50% de bioquerosene e 50% de querosene de aviação normal.

O preço de produção atual é proibitivo. Custaria cerca de 4 a 5 vezes mais do que o querosene de aviação convencional. É bom lembrar que o combustível responde por até 40% dos custos de uma empresa de aviação. Mas, segundo o diretor de relações institucionais da Azul, Abelardo Febeliano, com uma produção em larga escala o bioquerosene derivado de cana-de-açúcar ficaria competitivo. Ele acredita que em dois anos isso poderia começar a ocorrer. E que o percentual de combustível de origem renovável poderia chegar a 100%.

“É preciso pensar em fontes renováveis, já que o petróleo vai acabar. Além de ser uma fonte renovável, a cana é menos poluente. Ela reduz em 82% as emissões de gases de efeito estufa”, afirma Febeliano.

“Já há biocombustíveis com óleos vegetais que receberam o certificado para voos comerciais. Mas esse projeto é o pioneiro no mundo a transformar açúcar em hidrocarboneto”, afirma Adilson Liebsch, diretor de marketing da Amyris.

Outro voo verde

Biocombustível usando óleo vegetal é o modelo adotado pela Gol. O voo da Gol fará o trajeto da ponte aérea São Paulo-Rio, com um avião saindo de Congonhas às 12h40 e chegando ao Santos Dumont às 13h42. O biocombustível usado pela empresa foi produzido a partir de óleo de milho não comestível e óleos e gorduras residuais, que são convertidos em hidrocarbonetos puros. O resultado é misturado a 50% de combustível fóssil.

Um dos passageiros do voo da Gol será o secretário-geral da Organização Internacional de Aviação Civil, Raymond Benjamin. Na onde verde e ecologicamente responsável promovida pela Rio+20, a conferência de desenvolvimentos sustentável da ONU, ele avisou que virá do Canadá, passando pelo México e por São Paulo viajando apenas em aeronaves que usam biocombustível.

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sexta-feira, 18 de maio de 2012 Reportagem | 18:16

Casa Daros: Bilionária suíça banca museu no Rio

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No Brasil, os bilionários ou multimilionários que gastam uma parte de suas fortunas com obras de arte costumam guardá-las para si mesmos, nas paredes de suas casas, nos jardins de suas mansões, longe do olhar do público e, não raro, do fisco. Há exceções, como o empresário da mineração Bernardo Paz, que fundou Inhotim, uma junção fabulosa de instituto de arte contemporânea e jardim botânico em Brumadinho, a 60 km de Belo Horizonte.

Por isso, é surpreendente que um museu de nível internacional vá abrir ainda este ano no Rio custeado pela fortuna de uma única pessoa. Mais surpreendente ainda é que a dona da fortuna é estrangeira: a suíça Ruth Schmidheiny. Ela financia do próprio bolso a abertura da Casa Daros, um espaço em Botafogo, na zona sul carioca, para exposição da maior coleção europeia de arte latino-americana contemporânea.

Rio tem a maior concentração de investimentos no mundo

O pátio interno da Casa Daros sob reforma (foto: Fabio Caffé/divulgação)

O pátio interno da Casa Daros sob reforma (foto: Fabio Caffé/divulgação)

A origem dos Schmidheiny

Ruth é ex-mulher de Stephan Schmidheiny, pertencente a mais tradicional dinastia industrial suíça e uma das famílias mais ricas do mundo. Seu ex-marido e seu ex-cunhado estão na lista da Forbes de maiores fortunas do mundo. Quando o pai morreu, dividiu o espólio em dois. Thomas ficou com o setor de cimento (a segunda maior empresa do setor no mundo). E Stephan ficou com a Eternit, a gigante do cimento amianto (uma substância cancerígena), o que fez com que ele se tornasse uma figura bastante controversa. Em fevereiro foi condenado a 16 anos de prisão por um tribunal italiano em um julgamento sobre contaminação por amianto – ele anunciou que vai recorrer.

Maior museu de arte naïf no mundo reabre no Rio

Publicamente , Stephan condenou o uso do amianto bem antes que a substância fosse proibida e começou a substituir seu uso. Ele se aposentou em 2003 para se dedicar à filantropia e ao ambientalismo. Gastou mais de US$ 1 bilhão em projetos, a maioria na América Latina. A Forbes se referiu a ele como o Bill Gates da Suíça. Sua preocupação com o reflorestamento data dos anos 80 e ele foi um dos principais conselheiros de Maurice Strong, o secretário-geral da Rio92, durante a preparação e a realização da conferência da ONU no Brasil.

A Casa Daros é um projeto de sua ex-mulher, Ruth. Embora não sejam mais casados, continuam compartilhando certa aversão a entrevistas e conversas com a imprensa. O museu vai servir de local de exposição da coleção Daros Latinamerica que ela mantém em Zurich, na Suíça, com acervo composto de meios e formatos diversos – de pinturas e esculturas a fotografias, instalações e vídeos.

O museu no Rio deve receber entre duas e três grandes mostras por ano. A de abertura já está escolhida. Será “Cantos Cuentos Colombianos”, com 11 artistas da Colômbia, entre eles Doris Salcedo, Oscar Muñoz e José Alejandro Restrepo.

Prédio era orfanato para meninas

Fachada da entrada principal da Casa Daros (foto: Jacqueline Felix/Divulgação)

Fachada da entrada principal da Casa Daros. No alto a imagem da Santa que virou modelo para Vik Muniz (foto: Jacqueline Felix-Imagens do Povo/Divulgação)

A Casa Daros deve ser inaugurada no segundo semestre deste ano. A data depende da conclusão da minuciosa reforma por que passa o imenso casarão neoclássico projetado pelo arquiteto Joaquim Bethencourt da Silva e erguido em 1866 na Rua General Severiano.

A construção é da época em que a região não era tão densamente povoada e podia abrigar uma chácara. Desde 1819 o local pertencia à Santa Casa de Misericórdia e nas últimas décadas foi ocupada por uma escola conhecida no Rio (o Anglo-Brasileiro). Mas, em sua origem, foi criado com outra função. Era o Recolhimento Santa Teresa, um orfanato para meninas pobres que teve entre os beneméritos D.Pedro II e a imperatriz Tereza Cristina. Posteriormente virou um educandário, também ligado à Santa Casa.

Curiosamente, a imagem que adorna o alto da fachada de entrada do casarão não é de Santa Teresa, como pareceria natural. É de Nossa Senhora das Graças, uma das invocações da Virgem Maria. Ela acabou virando inspiração e modelo para uma encomenda a Vik Muniz dentro da série “Pictures of Junk”. Foi recriada em dimensões maiores a partir do entulho da própria reforma do casarão.

Obra Nossa Senhora das Graças, feita por Vik Muniz (foto divulgação)

Obra Nossa Senhora das Graças, feita por Vik Muniz com entulho da reforma (foto divulgação)

A obra se incorpora ao acervo de mais de 1.100 peças de 114 artistas latino-americanos contemporâneos. Dezessete artistas brasileiros estão presentes na coleção da Daros. Entre eles, alguns bastante conhecidos, mas de estilos e trajetórias bastante diferentes, como Antonio Dias, Cildo Meireles, Hélio Oiticica, Lygia Clark, Ernesto Neto, Iole de Freitas, Mario Cravo Neto, Nelson Leirner. Entre os estrangeiros constam a escultora colombiana Doris Salcedo e o pintor uruguaio Joaquín Torres Garcia.

Dobradiças refeitas

Detalhe do ferrolho restaurado em uma das portas (foto: Fabio Caffé/Divulgação)

Detalhe do ferrolho restaurado em uma das portas (foto: Fabio Caffé/Divulgação)

A equipe da Casa Daros tem uma ambição, que o espaço sirva para difusão e reflexão acerca da arte latino-americana. E, para tanto, pretende funcionar baseada em um tripé: arte, educação e comunicação.

Além de exposições, ela irá oferecer atividades integradas de arte-educação, como oficinas, seminários, cursos. E também terá o esquema de “artistas visitantes”, em que convidados passarão pequenas temporadas associados à Casa, trabalhando e difundindo sua arte, possibilitando o funcionamento de um espaço de convivência com práticas artísticas.

Para chegar até isso foram necessários seis anos. O casarão foi comprado em 2006. As obras começaram no ano seguinte. A inauguração do museu chegou a ser anunciada, inicialmente, para 2008 e, posteriormente, para 2009. Mas as dificuldades e especificidades encontradas durante a obra atrasaram o projeto.

“Achávamos que seria uma reforma bem mais simples. Houve um cálculo equivocado que ela duraria um ano e meio, dois anos. Mas a manutenção era pavorosa e a necessidade de restauro foi maior. Entrava água quando chovia, por exemplo. E não imáginávamos que teríamos que trocar o telhado inteiro”, explicou ao iG Isabella Rosado Nunes, diretora-geral da Casa Daros.

Musa Paradisíaca, do colombiano José Alejandro Restrepo, deve estar na mostra de inauguração (foto: Divulgação)

Musa Paradisíaca, instalação do colombiano José Alejandro Restrepo, deve estar na mostra de inauguração (foto: Divulgação)

Como o imóvel era tombado, houve acompanhamento do Patrimônio Histórico. A preocupação era recuperar o prédio, sem descaracterizá-lo, adaptando o espaço para abrigar um museu do porte e com as necessidades da Casa Daros. Um exemplo é a instalação de elevadores de carga que possam carregar obras pesadas e de grande formato. Ao mesmo tempo, foi dispendido tempo e energia para recuperar a pintura marmorizada das paredes do saguão de entrada. O cuidado se estendeu às gigantescas palmeiras imperiais que ornam a frente do casarão.

Um passeio pelo prédio, acompanhando o trabalho dos operários, evidencia o cuidado com os detalhes na reforma. Para restaurar os janelões e portas imensas, foi preciso achar artesões que pudessem refazer as dobradiças e ferrolhos da forma mais próxima das originais. E olha que são 500 vãos de portas e janelas. O chão foi inteiramente rebaixado em meio metro para que pudesse ser utilizado. Sem falar em toda a parte elétrica e hidráulica, que foi refeita do zero.

Sorte do Rio, azar de Havana

O objetivo agora é concluir a restauração de dois terços dos 11 mil metros quadrados de área construída para a inauguração.

Se tudo correr sem novos imprevistos, a Casa Daros abrirá seus portões no final do ano. O prédio contará com uma biblioteca, um auditório para cem pessoas, um restaurante e uma cafeteria. O objetivo é levar ao museu não apenas o público habituado a esse tipo de espaço. Funcionará de quarta a domingo com uma previsão de 300 visitantes diários.

Por último, e não menos surpreendente, em um País onde o hábito do investimento em cultura pela iniciativa privada se dá em troca do abatimento do imposto a pagar e mediante publicidade para a própria empresa, até o momento nenhum centavo de dinheiro público custeou a Casa Daros. E só o casarão custou R$ 16 milhões. A ideia é tocar o museu sem recorrer a verbas governamentais, embora não esteja descartada a possibilidade de parcerias com outras instituições, inclusive públicas, no futuro.

A vinda da Casa Daros para o Rio também tem um componente de boa fortuna, na segunda acepção da palavra. Inicialmente, a ideia era tocar o projeto em Havana. Mas problemas burocráticos por lá acabaram inviabilizando a escolha e a opção recaiu sobre o Rio. Azar dos cubanos.

O pátio interno da Casa Daros iluminado (foto: Fábio Caffé/Divulgação)

O pátio interno da Casa Daros iluminado (foto: Fábio Caffé/Divulgação)

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terça-feira, 8 de maio de 2012 Entrevista, Reportagem | 18:07

Com 3ª epidemia de dengue em 11 anos, Rio deve se preparar para conviver com doença

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O tipo 4 da dengue chegou ao Rio de Janeiro com força este ano. Com 62.601 mil casos notificados até 5 de maio, a cidade enfrenta sua terceira epidemia em 11 anos (as de 2002 e 2008 foram de outros tipos). E, infelizmente, não há nenhuma perspectiva de solução para evitar a repetição do problema nos próximos anos.

Mosquito da dengue

Mosquito da dengue, agora na versão tipo 4 (foto: reprodução)

“Não vai dar para erradicar a doença a curto, médio ou longo prazo”, avisa Giovanini Coelho, coordenador do Programa Nacional de Controle da Dengue, do Ministério da Saúde. “Só poderíamos evitar que as pessoas adoecessem com uma vacina, mas ela não existe ainda”.

Giovanini explica por que, quando se trata da dengue, o Rio de Janeiro está no topo das preocupações do ministério. “O Rio de Janeiro é a maior cidade tropical do País. Tem as condições climáticas e ambientais que favorecem a proliferação do mosquito. É quente, úmida e é um aglomerado urbano com alta densidade populacional”, afirma. Não foi à toa que as grandes epidemias com os tipos anteriores começaram pela cidade. Foram três epidemias em 11 anos na cidade. E cinco nos últimos 26 anos. Em 1986 e 1992 os cariocas também enfrentaram o problema.

Tire suas dúvidas sobre a dengue
Tire suas dúvidas sobre outras doenças

O coordenador do Programa Nacional de Controle da Dengue explica que muito da dinâmica da doença tem a ver com a infraestrutura urbana da cidade. E a fatores culturais e sócio-econômicos que favorecem a proliferação do mosquito. “É um mosquito que se prolifera preferencialmente em criadouros artificiais, como caixas d’água. Se não tivéssemos caixas d’água, como em países da Europa, onde elas são proibidas, esse fator deixaria de existir”, exemplifica.  E a falta de destino adequado para os dejetos, bem como para o lixo produzido pela cidade, também contribui para formação de criadouros potenciais.

Auge foi em março

Mas existem duas boas notícias. A primeira é que a incidência da doença está em queda. Embora a secretaria de Saúde tenha decretado a epidemia no final de abril, tecnicamente a situação foi pior em março, quando passou dos 300 casos por 100 mil habitantes por mês (foram 397,6/100 mil em março e 310,5/100 mil em abril). O auge foi registrado nas duas últimas semanas de março, com mais de 6 mil contaminações em cada uma. A segunda é que, comparativamente, a letalidade está baixa. Foram 15 mortos até agora (contra 62 e 147 óbitos nas epidemias anteriores).

Giovanini salienta que a magnitude dessa epidemia é diferente das anteriores. “Houve um aumento de casos em comparação a 2011, mas a situação epidêmica é mais tranquila”, afirma. Com base na análise de mais de 800 epidemias nos últimos 10 anos, ele acredita que o auge da doença já passou e que o número de casos tende a baixar muito. “Em geral leva 14 a 14 semanas e meia para atingir o pico. E nós passamos da 18ª”, explica. “Ainda mais com a temperatura caindo. O mosquito gosta de calor”.

A doença também é um fenômeno que não se manifesta de forma uniforme. Há regiões da cidade em que o problema é mais grave do que em outras. Notadamente Bangu e Realengo, na zona oeste, onde a incidência chegou a 1 em cada 100 moradores. A situação também é ruim em Madureira.

Redução da mortalidade

A baixa letalidade da doença é algo a ser comemorado. No caso do Rio ela se deve a alguns fatores. Primeiro é que o tipo 4 se mostrou menos agressivo do que outros, como o 2 – que está associado a número maior de casos graves e óbitos.

E segundo é que foi criada uma rede de atendimento especializado para tratar das vítimas e não congestionar a rede hospitalar. Afinal, a doença é de tratamento simples. “O Rio se preparou para isso. Foram montados 28 pólos de hidratação”, explica Giovanini.

A questão da redução da mortalidade é o principal foco das autoridades no momento. Do início do ano até agora foram 15 mortes por causa da dengue, no Rio. No mesmo período do ano passado o número de óbitos atingiu 39.

“Hoje é mais fácil prevenir a letalidade. As ferramentas de que dispomos não dão conta de impedir o surgimento da doença”, admite Giovanini, revelando que as autoridades, embora preocupadas com as epidemias, têm se esforçado mais para evitar os óbitos.

É uma questão simples de custo e benefício. Já que não dá para impedir a doença, é possível evitar a morte do doente. Não existem tecnologias ou drogas específicas para o tratamento. No entanto, para tratar a doença são necessários cuidados simples: hidratação (principalmente água e soro caseiro) e descanso (e evitar ingestão de aspirina). Além de uma capacidade de organização do poder público para garantir aos cidadãos o acesso a isso.

Já para diminuir a infestação é mais complicado. É preciso a mobilização das pessoas, combatendo focos de mosquitos nas próprias residências (o principal local de contaminação).

Como não erradicam o mosquito como no século passado?

Muita gente não entende como as autoridades públicas não conseguem resolver esse problema eliminando o mosquito, como fez o sanitarista Oswaldo Cruz no início do século passado. Mas quando ele erradicou a febre amarela da então capital federal a situação era outra. Foram usados até homens armados para forçar os cidadãos a abrir as casas para remover os criadouros dos mosquitos e para tomar a vacina.

Hoje seria impossível usar tal método. Além disso, existem duas outras diferenças significativas. Ainda não há vacina para a doença (há uma em teste e que pode ser homologada em dois anos, mas com cerca de 70% a 80% de eficiência). E no passado foi usado DDT – hoje aposentado por ser cancerígeno.

O que levanta outra polêmica. Mesmo o uso de inseticidas é visto com muita reserva por especialistas, pois os mosquitos acabam adquirindo resistência a eles. “É um problema sério. Principalmente o de uso residencial. Existem quatro opções para combater as larvas, mas para mosquitos adultos só existem dois tipos”, afirma Giovanini.

Sazonal e urbana

As epidemias como a atual são favorecidas por dois fatores: introdução de novos sorotipos em áreas onde eles não existiam; e a mudança de virus predominante. É o que ocorre no Rio. A epidemia atual é do vírus tipo 4 (84,7% dos casos). O curioso é que ele ficou 28 anos sem circular no País. O primeiro caso recente foi registrado em julho de 2010 em Roraima.

As referências sobre casos de dengue datam do século 19. No início do século passado, existem relatos sobre o aparecimento da doença em São Paulo, em 1916, e Niterói, em 1923. Mas a primeira epidemia documentada clinica e laboratorialmente ocorreu em Boa Vista, em 1981/1982.

Em 1986, houve a primeira grande epidemia nacional, atingindo o Rio de Janeiro e algumas capitais do Nordeste.

É importante ressaltar que a dengue é uma doença sazonal e urbana. Cerca de 70% dos casos ocorrem entre janeiro e maio. E grandes concentrações favorecem a epidemia.Em 1995, 1.753 municípios estavam infestados por Aedes aegypti, o mosquito transmissor. Em 2010 já eram 4.007 municípios. Este ano o Ministério da Saúde repassou verbas para 1.159 municípios enfrentarem o problema.

O Rio não é nem o município brasileiro em pior situação em 2012. Rio Branco (Acre), Araguaína e Palmas (Tocantins) vivenciaram uma incidência maior de casos por 100 mil habitantes. Nacionalmente, entretanto, o Ministério da Saúde informa que a situação apresenta uma melhora em relação ao ano passado. Até 18 de abril houve reduções de 51% nos casos notificados; de 90% nos casos graves confirmados; e de 82% no de óbitos.

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sexta-feira, 27 de abril de 2012 Entrevista, Reportagem | 16:14

Maior museu de arte naïf no mundo reabre após cinco anos fechado

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Nascido na França de uma família de origem judia polonesa, Lucien Finkelstein (1931-2008) chegou ao Rio de Janeiro sozinho, aos 16 anos, pouco após a Segunda Guerra acabar, sem falar uma palavra de português. Tinha passado o conflito escondido em uma casa no interior da França.

Exemplo de molas panamenhas exposta no Mian (foto: divulgação)

Exemplo de molas panamenhas exposta no Mian (foto: divulgação)

No Brasil, construiu uma família, um nome como joalheiro de reputação internacional e a maior coleção de arte naïf, que ele legou à cidade. O Museu Internacional de Arte Naïf fica no Cosme Velho, a poucos passos do bondinho do Corcovado, que leva ao Cristo Redentor.

“Ele achava que a arte naïf era a mais genuína de um povo. E o museu era o jeito dele para pagar uma dívida com a cidade que o tinha acolhido. Meu avô chegou aqui com uma mão na frente e a outra atrás, passando fome”, conta a educadora Tatiana Levy, que atua como gerente executiva do Mian.

Infelizmente, o museu ficou fechado durante cinco anos. Reabriu nesta sexta-feira (27), mostrando 250 obras em oito exposições. Uma delas é a panamenha “Molas”, que apresenta 15 telas com técnicas de sobreposição de tecidos feitas pelas índias da tribo Kuna.

A história do criador do museu

Lucien veio morar com os tios e começou a trabalhar na loja que vendia pedras e gemas brasileiras de propriedade do marido de sua tia, um imigrante judeu russo. Aprendeu português, virou atleta e chegou a competir pelo Fluminense em modalidades olímpicas como o arremesso de dardo.

Gostava de desenhar e pintar. Se encantou ao ver uma aquarela de Di Cavalcanti e um quadro de Heitor dos Prazeres na Livraria Francesa, em Copacabana. Daí nasceu o interesse pela arte naïf (também conhecida como arte primitiva moderna, ela se caracteriza por certa ingenuidade dos traços, por ter um caráter autodidata, não vinculado à qualquer corrente acadêmica formal).

Os Arcos da Lapa retratados pelo pintor Agostinho (foto: divulgação)

Os Arcos da Lapa retratados pelo pintor Agostinho (foto: divulgação)

Ao casar, Lucien resolveu criar uma joalheria e desenhar as próprias peças, valorizando um design próprio, em vez de apenas vender as gemas. Acabou descoberto por socialites como Teresa Souza Campos e foi catapultado para a capa da Manchete, importante revista de então.

Viveu seu auge profissional nos anos 50 e 60, quando uma pulseira fez parte do acervo da rainha Elizabeth II e criou uma coleção com Di Cavalcanti – de quem ficou amigo e passou a trocar quadros por joias. Pelo design de suas obras, acabou agraciado com o De Beers, o mais importante prêmio do mercado joalheiro mundial,.

Com o dinheiro das joias ele começou sua coleção. Colecionou durante 40 anos. E reuniu cerca de 6 mil obras de mais de 100 países. Teve que arranjar um apartamento para colocar o acervo. Em 1988, exibiu parte dele em uma exposição no Paço Imperial.

O sucesso levou ao desejo de montar um local para a exibição permanente. Ele comprou um casarão do século 19 no Cosme Velho para abrigar as obras. O Mian foi aberto em 1995, pelo esforço dele. O museu acabou recebendo uma verba municipal para o funcionamento, que foi cortada. Em 2007 ele foi fechado por falta de dinheiro para operar.

“O museu fechou em 2007 e meu avô morreu no ano seguinte de ataque cardíaco. Ele ficou deprimido e triste. Não conseguia entender como o governo não se interessava em manter na cidade um acervo tão significativo”, diz Tatiana. Ela conta que o avô tinha recebido convites para levar o acervo para outras instituições, mas queria que ficasse no Rio.

Entre 2007 e 2011, embora de portas fechadas, o museu ainda podia ser visitado por grupos que o contatassem. Em 2010, contudo, uma chuva destruiu o telhado e inundou a reserva técnica. Trezentos quadros foram danificados.

O painel "Rio de Janeiro, gosto de você, gosto dessa gente feliz...", de Lia Mittarakis, tem 4 x 7 metros (foto: divulgação)

O painel "Rio de Janeiro, gosto de você, gosto dessa gente feliz...", de Lia Mittarakis, tem 4 x 7 metros (foto: divulgação)

Em abril do ano passado o museu fechou completamente. A ajuda chegou com a Secretaria Municipal de Cultura, que liberou uma verba, e o Prince Claus Fund, instituição holandesa que preserva acervos pelo mundo e custeou a reforma do telhado e da reserva técnica.

O museu reabre reformado. Houve uma reforma museológica que privilegiou uma nova identidade visual e elementos de tecnologia com audioguias. No subsolo há uma videoinstalação em homenagem a Henri Rousseau, le douanier, francês precursor e nome mais conhecido da arte naïf no mundo.

Mas ainda tem muita coisa a fazer. A lojinha deve começar a funcionar este mês. O café ainda não tem prazo. A perspectiva do site é ficar pronto em maio. E Tatiana diz que é preciso restaurar a fachada do museu e que não há verba de manutenção básica para serviços de limpeza, conservação, jardim, gastos com luz, água… – a família ainda arca com isso.

“Queremos transformar o museu em uma instituição auto-sustentável. Mas ainda falta um caminho a percorrer”, diz Tatiana.

MUSEU INTERNACIONAL DE ARTE NAÏF (MIAN)
Rua Cosme Velho, 561 – Cosme Velho.
Funcionamento: de terça a sexta, das 10h às 18h; sábado, das 12h às 18h com agendamento prévio (até um dia antes).
Ingresso: R$ 16; crianças até 5 anos não pagam; R$ 8 (meia entrada), estudantes, menores de idade e maiores de 60 anos.
Telefone: (21) 2205-8612

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sexta-feira, 20 de abril de 2012 Entrevista, Reportagem | 16:44

Um ex-presidente de banco que investe reformando casarões em ruínas

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Como ex-presidente do BNDES, o economista Carlos Lessa foi responsável por gerenciar bilhões de reais de estímulo para empreendimentos que pudessem desenvolver o futuro do País. Como economista, preocupado com a gestão do próprio patrimônio, ele usa seus dinheiro preservando o passado carioca.

Ele é responsável por resgatar 11 imóveis antigos na região central da cidade. Preservando suas características arquitetônicas, viraram brasserie, livraria, pizzaria, botequim, casa de shows. São sobrados do século 19 em sua maioria. Um dos primeiros a ser resgatado, na rua do Rosário, Lessa acredita ter sido um dos primeiros bancos do Brasil sob d. João VI.

Carlos Lessa na rua do Mercado, onde restaurou sobrados antigos (foto: divulgação)

Carlos Lessa na rua do Mercado, onde restaurou sobrados antigos (foto: divulgação)

Sete casas estão alugadas e viraram empreendimentos comerciais. Duas estão ocupadas por familiares – e uma delas abriga sua biblioteca de 20 mil livros.

Sua última empreitada é o Ameno Resedá, um casarão arruinado que ele transformou em casa de shows e restaurante no Catete, bairro carregado de história a poucos metros do palacete que abrigou a Presidência até a transferência da capital para Brasília.

“O Catete tem uma simbologia muito grande. E ainda fica no pé da favela, na beira do asfalto”, afirma ele ao iG. Ao contrário dos outros empreeendimentos, este ele decidiu tocar pessoalmente.

É um caso de amor antigo com final feliz. Lessa havia comprado o casarão década atrás quando era diretor do Conselho Regional de Economia. O objetivo era fazer lá a Casa do Economista, um espaço de convívio da classe, com restaurante e livraria. A administração seguinte se opôs à ideia e vendeu o imóvel, que acabou nas mãos de uma igreja evangélica.

Como nasceu o interesse

Autor de 15 livros sobre economia e sobre o Brasil, Lessa tem um currículo extenso, que enche com folga uma página. Doutor em Economia pela Unicamp, é considerado um dos mais influentes economistas do País, foi reitor da UFRJ, a maior do País, e professor de diversas faculdades antes de se tornar presidente do BNDES no governo Lula.

Embora sempre tivesse tido curiosidade intelectual pela história do Rio, seu interesse pelo resgaste histórico tem origem em uma das atividades que exerceu. No início dos anos 90 ele foi coordenador do Plano Estratégico da cidade. Foi quando aproveitou para fazer um mergulho mais aprofundado na história.

“O Rio é uma metrópole linear. Você só pode ir de A para C passando por B. Os bairros são sequenciais. Em outras cidades você por ir de A para C por B, mas há outros caminhos. E em uma cidade octagonal, como São Paulo, há vários centros. E o centro do Rio estava morrendo. Seria acabar com o ponto de união dos cariocas da zona sul com os da zona norte. Esse encontro é importante para manter as características de cordialidade e convivialidade do carioca”.

Seu relatório do Plano Estratégico apontava isso. Mas havia um problema, que ele confessa. “Eu tinha vergonha de assinar aquilo. Minha família tinha dois imóveis inteiramente podres no centro do Rio, na rua do Rosário, que fediam, com esgoto a céu aberto. Se eu não recuperasse daria um atestado de hipocrisia”, admite.

Poder público é obstáculo

Os sobrados da família foram os primeiros. E ele ganhou gosto. Começaram a lhe oferecer todos os imóveis podres da rua. “Tinha até casa de tolerância que pertenceu a uma tal madame Lili”, confidencia ele.

E lamenta que o Rio não seja uma cidade que preserve mais sua própria memória. Sonha em fazer da Cinelândia (que ganhou esse nome pela quantidade de cinemas grandiosos que chegou a abrigar) uma Broadway brasileira.

Não que a recuperação de imóveis antigos em condição lastimável seja uma tarefa fácil. Antes de tudo é preciso fazer um levantamento de dívidas de IPTU, de contas não pagas de luz e água. Se há questões jurídicas e questionamentos de titularidade.

Ele lamenta que as autoridades municipais não ajudem como poderiam. Ele lista os três principais obstáculos que poderiam ser facilitados: identificação da titularidade (muitas vezes é difícil identificar os donos, às vezes há problemas legais com os espólios); acelerar o processo de licença; e ajudar a construção facilitando carga e descarga em ruas centrais e estreitas.

Na última obra, no Ameno Resedá, um deteriorado poste de luz na calçada ameaçava a fachada do casarão e impedia o início da reforma. Demorou um ano para que ele fosse removido. “Só quando a Justiça condenou à prisão o presidente da empresa e estipulou uma multa, que não foi paga até hoje”, conta Lessa.

E quando há incentivos, eles são difíceis de tirar do papel. A isenção de imposto para recuperar um imóvel antigo é um exemplo. “É a maior dificuldade conseguir essa isenção da Prefeitura. É muito obstáculo”, lamenta ele que diz que não há apoio nem para coisas elementares como remoção de entulho.

E esses obstáculos não estão apenas na esfera pública. A modernidade acabou condenando diversas especializações profissionais. É dificílimo encontrar um mestre gesseiro ou outros artesãos para fazer uma restauração adequada.

Investimento fabuloso

Fachada do Ameno Resedá, o casarão reformado e transformado em casa de shows (foto: divulgação/Kita Pedroza)

Fachada do Ameno Resedá, o casarão reformado e transformado em casa de shows (foto: divulgação/Kita Pedroza)

Apesar de tudo isso, o ex-presidente do BNDES afirma que esses empreendimentos são também um ótimo investimento financeiro e se surpreende que não existam mais investidores fazendo o mesmo. Ele avalia que há diversas áreas do Rio que estão subvalorizadas e mal utilizadas. Ele cita a quantidade de imóveis abandonados na avenida Brasil, estrategicamente ligando o centro à rodovias importantes como a Dutra.

“Comprar um imóvel destruído no centro e recuperar é uma aplicação patrimonial muito boa. É um investimento fabuloso comprar muito barato e gastar uma pequena fortuna restaurando. Mas dá um trabalho infernal, se amola uma barbaridade. É importante bolar um uso para o imóvel antes da reforma, imaginar para o que será usado. E é preciso paciência e não confiar no poder público. Ele não vai ajudar”, resume ele, que não revela cifras pagas pelos imóveis, quanto gasta nas reformas, nem o rendimento obtido com os aluguéis.

O Ameno Resedá é o ponto culminante desse processo. E tem uma história curiosa. Foi um rancho, uma espécie de precursor dos blocos carnavalescos, criado em 1907. E com vários detalhes típicos do ecumenismo carioca, como aponta Lessa. “Era uma atividade profana que começou com patrocínio da Igreja da Glória. E uma vez foram parar dentro do Palácio do Catete, se apresentando para o presidente, com um enredo sobre belzebu”, diverte-se.

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sexta-feira, 13 de abril de 2012 Entrevista, Reportagem | 15:57

Entulho, poeira, lama e mítica na visita às obras do Maracanã

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Após 1 ano e 7 meses fechado para a reforma que o deixará pronto para a Copa do Mundo de 2014, o Maracanã será reaberto ao público neste sábado (14). Mas nada das grandes multidões que acorriam para ver os clássicos naquele que já foi o maior estádio de futebol do mundo. Serão visitas guiadas com cinco grupos pequenos, de 50 pessoas, uma vez por mês.

Vista aérea da obra de reforma do Maracanã (Foto: divulgação/Angular Fotografias Aéreas)

Vista aérea da obra de reforma do Maracanã (Foto: divulgação/Angular Fotografias Aéreas)

E quem entrar em campo não verá vestígio do gramado em que Pelé estreou pela seleção brasileira; onde ele marcou seu milésimo gol; onde o Brasil foi derrotado pelo Uruguai em 1950, palco de alguns dos maiores momentos do futebol.

No centro do empoeirado campo de terra, entre poças de lama, jaz uma considerável montanha de entulho; nas laterais, quatro gruas e um guindaste capaz de carregar 800 toneladas, rodeados por tratores, caminhões e alguns dos 5.200 operários que tentam – em dois turnos de 10 horas, sete dias na semana – finalizar a obra em fevereiro do próximo ano, a tempo para a Copa das Confederações, em junho, e para os sete jogos que sediará em 2014, incluindo a final.

VEJA TAMBÉM: Cinco estádios da Copa 2014 têm mais de 50% das obras concluídas

É uma corrida contra o relógio. Palco de jogos de futebol, de shows de Frank Sinatra, Paul McCartney, KISS, Madonna, Rolling Stones e de duas missas do papa João Paulo II, o Maracanã foi reduzido a seu esqueleto e começa agora a ganhar corpo. Em 31 de março, com a demolição e a recuperação estrutural praticamente encerradas,  tinha 45% do projeto concluído.

O maior do mundo reduzido à metade

Quando o Maracanã ficar pronto, os engenheiros garantem que, do lado de fora, quase não se perceberá a diferença. A fachada é tombada pelo patrimônio histórico. Já dentro… As mudanças começam pela capacidade. Ela será reduzida à metade da original, de 166.639 espectadores passará a pouco menos de 80 mil. Mais de 100 mil a menos do que o famoso recorde obtido em 1969 durante um jogo da seleção brasileira contra o Paraguai durante as eliminatórias da Copa de 70: 183.341 pessoas. Mas a diferença não é tanta se comparada aos 87 mil lugares que ele tinha ao ser fechado.

“Hoje é impossível assistir um jogo como se fazia antigamente. As pessoas assistiam de pé (no setor da geral), sem qualquer conforto. A legislação mudou, a preocupação com a segurança aumentou”, explica Ícaro Moreno, presidente da Emop (Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio), que coordena o consórcio responsável pela reforma do Maracanã (formado por Andrade Gutierrez, Delta e Odebrecht).

As arquibancadas vistas do meio do campo

As arquibancadas vistas do meio do campo (Foto: LAR)

Quem olha para a quantidade de escombros, nas mudanças necessárias para modernizar o Maracanã e pensa no valor gasto na obra (foi inicialmente estimada em R$ 705 milhões e está em R$ 860 milhões) imagina se não seria mais fácil, mais rápido e mais barato construir um estádio do zero.

Só de entulho removido até março – não contando, portanto, o que jaz no centro do campo – foram 42.744,17 metros cúbicos. Se cada metro cúbico fosse empilhado um em cima do outro poderiam ser erguidas cinco pilhas do tamanho do Everest, a maior montanha do mundo.

“Seria mais fácil e mais barato demolir tudo e construir um novo, como foi feito em Wembley, em Londres”, reconhece ícaro, que disse que a reforma foi a maneira de preservar a história e um bem tombado.

Estádio tinha 3.200 tipos de degrau

As dificuldades foram variadas, segundo ele. A situação estrutural estava pior do que a imaginada. Os pilares estavam desgastados, as marquises tiveram que ser destruídas. Havia muita corrosão e o material usado era muito poroso.

Até o formato elípitico do estádio – em vez de retangular, quadrado ou redondo, como os mais modernos – foi um fator de complicação. “Por conta disso, encontramos 3.200 tipos de degrau, exemplifica.

Partes do velho estádio permanecerão. A arquibancada superior nos setores norte e sul (atrás de cada gol) serão preservadas, por exemplo. “Conseguimos manter um estádio que é um ícone, sem descaracterizá-lo e modernizando ele. Continua sendo um estádio de futebol, mas também vai ser uma arena multiuso”, diz. “A empada é a mesma, mas mudamos o recheio”, brinca ele.

VEJA FOTOS DA REFORMA DO MARACANÃ

Ícaro fez um passeio guiado pela obra com o iG para mostrar como está o estádio e o que os visitantes poderão ver. O campo será encolhido. Serão menos cinco metros de comprimento e sete a menos na largura. As quatro linhas do gramado ficarão contidas em 105m x 68m.

Em compensação, o público ficará bem mais próximo do espetáculo. A distância da primeira fileira para a linha lateral cai pela metade. Ficará a 12 metros. A visibilidade será de 100% e os camarotes ficarão mais próximos do gramado e mais integrados com o resto da torcida.

O sistema de som e de iluminação será computadorizado, lounges serão climatizados. Haverá mais banheiros (231) e bares (60), além de quatro videowalls de 100 metros quadrados.

Cobertura inédita

Imagem de como será a nova cobertura de lona tensionada (Foto: Divulgação)

Imagem de como será a nova cobertura de lona tensionada (Foto: Divulgação)

A nova cobertura, de lona tensionada, uma tecnologia alemã nunca usada no País, protegerá mais o público, que também sofrerá bem menos com as vibrações na arquibancada. “O Maracanã vibrava muito. Na época em que foi feito não tinha cálculo estrututal para isso”, explica o presidente da Emop.

O levantamento da cobertura, aliás, é a principal preocupação. Está marcado para setembro. E não pode haver erro no tensionamento dela, que será coordenado por técnicos alemães. “Nem temos calculistas no Brasil que façam isso”, diz ícaro.

Na reforma há também uma preocupação ecológica – exigência da Fifa. O Maracanã terá um sistema de captação de energia solar no topo do anel superior e irá reaproveitar a água da chuva. O objetivo é receber uma certificação de estádio verde.

Parte dessas mudanças poderão ser entendidas pelos visitantes com o vídeo que será exibido no início do passeio, que terá uma hora de duração. Ele mostra de forma concisa algumas das alterações e melhorias usando uma maquete eletrônica.

Depois, paramentados com capacetes de proteção, as pessoas serão levadas ao centro do campo, no meio do canteiro de obras, para ver a reforma, ouvir explicações sobre o projeto, tirar fotos e dúvidas. Mas é bom correr. Mesmo antes do início da visitação já há mais de mil inscritos.

Serviço das visitas ao Maracanã:

– As visitas serão agendadas.
– Interessados devem enviar email para: visitaguiada@maracanario2014.com.br
– Elas serão realizadas no primeiro sábado de cada mês. A próxima será no dia 5 de maio.
– As visitas acontecerão de hora em hora, das 8h às 13h, em grupos de no máximo 50 pessoas.
– A idade mínima para a visita é 10 anos.
– Por segurança, não será permitida a entrada com bermuda, saia, sandália, sapatilha, tênis e salto alto.

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