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sexta-feira, 23 de março de 2012 Entrevista, Reportagem | 16:07

Rio+20: Cúpula de regiões discutirá criação de pactos em oito temas

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Para marcar os 20 anos da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (UNCED), realizada no Rio de Janeiro em 1992, a capital carioca irá sediar entre 20 e 22 de junho deste ano a Rio+20, a conferência da ONU que vai discutir a economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza e a estrutura institucional para o desenvolvimento sustentável.

Logotipo da Rio+20

Logotipo da Rio+20

Mas outros eventos paralelos irão ocorrer. A secretaria estadual de Meio Ambiente está focando seu trabalho na Cúpula Mundial de Regiões (World Summit of Regions), que será realizada no Rio no dia 19 de junho, às vésperas da Conferência das Nações Unidas Sobre Desenvolvimento Sustentável.

A ideia dessa cúpula é criar uma coalizão global com regiões subnacionais (estados, províncias, departamentos) que se comprometam com algumas metas relacionadas aos temas da Rio+20.

“Os estados regionais e províncias têm mais flexibilidade do que as nações para tomar decisões e implantar medidas. Qualquer acordo no âmbito das Nações Unidas é extremamente complexo”, avalia em entrevista ao iG Suzana Kahn, subsecretaria estadual de Economia Verde do Rio de Janeiro e que está coordenando os trabalhos relativos a Rio+20 no estado.

A história pouco conhecida do herói nacional da preservação

Ela admite que a dificuldade de adoção de metas “verdes” globalmente, pelos países, tem frustrado muita gente. Daí a necessidade de se incluir outras instâncias do executivo em que ações possam ser mais facilmente tomadas. O que não significa abandonar as discussões e tentativas de entendimento entre as nações. É simplesmente procurar atuar em um outro nível do executivo, menos rígido.

“Assim a gente começa um movimento de baixo para cima. E isso pode ajudar as nações a usar essas ações posteriormente”, afirma Suzana, que ocupa a vice-presidência do grupo mundial de cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU (IPCC), que ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2007.

Energia suja e economia verde

Cada vez mais dependente financeiramente de uma energia “suja”, como petróleo e derivados, o Rio de Janeiro é o primeiro estado do País a criar uma subsecretaria de economia verde e também está coorganizando a Cúpula Mundial das Regiões.

A coalizão é iniciativa da nrg4SD (sigla em inglês para Rede de Governos Regionais para o Desenvolvimento Sustentável) e já conta com mais de 60 representantes, que ainda vão se debruçar sobre o documento final. Alguns do participante, além do estado do Rio de Janeiro, são São Paulo; Quebec (Canadá); Aragão, País Basco, Catalunha, Ilhas Canárias, Cantábria (Espanha); Bavária e Baden-Wuerttemberg (Alemanha); Xangai (China); Maryland e Califórnia (EUA); Bretanha, Aquitânia, Île de France, Rhone-Alpes (França); Buenos Aires, Chaco, Santa Fé (Argentina), País de Gales (Reino Unido) e Burkina do Norte (Burkina Fasso).

Outras regiões subnacionais foram recentemente convidadas para aderir a essa coalizão. O nrg4SD – que vai participar também da reunião preparatória para a Rio+20, entre os dias 13 e 15 de junho.

Oito temas estão sendo discutidos entre os membros da coalizão para serem incluídos em um programa conjunto: redução de emissão de gases de efeito estufa; aumento de eficiência energética; acesso universal à educação básica; melhoria da qualidade da água; quotas de transporte limpo e eficiente; criação de novos postos de trabalho “verdes”; redução na geração de resíduos por unidade de PIB; composição de energia renovável na matriz energética.

Serão discutidas metas, a criação de novos indicadores e formas de monitoramento. Mas não há nada completamente fechado ainda. “Vai ter algo de energia renovável, por exemplo. O que estamos discutindo agora é qual o percentual, qual o ano base”, explica ela, que é subsecretaria.

Muitas vezes não são discussões simples. Além das metas é preciso criar mecanismo eficientes de monitoramento para aferir o cumprimento do que foi estabelecido. “Ter metodologias para avaliar o que há de verde no desenvolvimento econômico  não é algo trivial”, reconhece Suzana.

Os estados, as regiões, as províncias e os departamentos participantes se engajariam em algumas das metas dentro da necessidade ou possibilidade de cada um, não necessariamente em todas.

“Saneamento é uma das metas. Quebec não tem problema algum com saneamento. Ela optaria por alguma outra na listagem que vai ser discutida. Serão várias, de habitação, energia renovável, eficiência energética… Já em Burkina do Norte a falta de saneamento é um problema”, explica Suzana.

Uma das propostas feita pelo Estado de São Paulo é aumentar a quota de energia renovável (hídrica, biomassa, solar, vento, mar, geotérmica, marinha) tendo como base o ano de 2008 em 17% do total até 2030 e 27% do total até 2050.

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sexta-feira, 16 de março de 2012 Entrevista | 17:58

Custo das Olimpíadas só será sabido após evento, avisa presidente da Empresa Olímpica Municipal

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Os últimos dias foram importantes para o projeto das Olimpíadas de 2016 no Rio. Foram definidos alguns pontos, como a responsabilidade pela construção do Parque Olímpico, que ficará a cargo de um consórcio formado por Odebrecht, Carvalho Hosken e Andrade Gutierrez. Foram estabelecidas diretrizes para a construção e aproveitamento das edificações pelo mercado imobiliário do Porto Olímpico, que é a maior parceria público-privada do País. Foi anunciado que o escritório norte-americano Hanse Golf Course Design ganhou o concurso para construir o campo de golfe. E o Parque dos Atletas – que será o local de descanso e entretenimento dos esportistas durante os jogos – foi aberto ao público.

Mas uma questão central ainda está longe de ser definida. Afinal, quanto vai custar fazer as Olimpíadas no Brasil?

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Presidente da Empresa Olímpica Municipal (a quem cabe coordenar o projeto Rio 2016 no âmbito carioca), Maria Silvia Bastos Marques (ex-presidente da CSN e da Icatu Seguros), avisa que só será possível saber o valor gasto das Olimpíadas após o término do evento.

Maria Silvia Bastos Marques (à dir. na foto) "dá uma tacada" em visita de representantes do COI ao Rio

Maria Silvia (à dir) 'dá uma tacada' em visita de representantes do COI ao Rio. (Divulgação/J. P. Engelbrecht)

Maria Silvia compara a realização das Olimpíadas a uma grande obra em casa, só que em uma dimensão muito maior. Ela lembra que quem já enfrentou uma reforma sabe que é difícil respeitar prazos e orçamentos para quebrar um banheiro ou uma cozinha.

“Quando se fez o dossiê de candidatura, se fez uma estimativa de valor, mas não havia projeto. Você só tem orçamento quando se faz um projeto básico, com detalhamento. Só se tem um orçamento final quando a obra acaba. Mesmo durante o projeto executivo, que te dá uma medida muito próxima, acontecem imprevistos, uma greve de trabalhadores, atrasos, um equipamento quebra, um material não chega…”, enumerou para a coluna.

Para complicar, no caso das Olimpíadas os projetos estão sendo desenvolvidos em ritmos diferentes. E há várias esferas de poder envolvidas, já que não é um orçamento do município. Envolve cidade, Estado, governo federal e comitê organizador.

“Há projetos em fase de maturidade avançada, com a Transcarioca e a Transoeste, e outros que sequer foram licitados, como a Transbrasil e a Transolímpica. Se eu somo um com outro, eu somo coisas completamente diferentes”, explica ela citando obras de transporte na cidade. “A Transoeste vai ficar pronta este ano, o valor está próximo do custo final. A TransOlímpica está em licitação. E a TransBrasil sequer foi licitada. Os valores são estimativos. É claro que se a estimativa inicial é de R$ 100 milhões não deve virar R$ 500 milhões. Mas pode virar R$ 80 milhões, R$ 130 milhões ou R$ 150 milhões”.

A proposta vencedora para a construção do Parque Olímpico, por exemplo, foi de R$ 1,375 bilhão – pouco abaixo da previsão de R$ 1,4 bilhão.

Com a experiência de quem já comandou a secretaria de Fazenda do município e foi diretora do BNDES, Maria Silvia acha insensato cobrar que um orçamento para uma obra tão grande não tenha ajuste. Mas, o importante, é saber comunicar essa questão do orçamento com transparência para evitar a percepção de que houve aumento de gasto e falta de controle das verbas.

“Londres aumentou mais de três vezes o orçamento das Olimpíadas. E é tido como um case de cumprimento de orçamento. Por quê? Por que foi bem comunicado. É preciso explicar. Eu não quero que o dinheiro do meu imposto seja usado para pagar uma coisa que não deveria custar aquilo”, diz ela que promete, em breve, ter um site da Empresa Olímpica que mostre a evolução dos gastos com os Jogos.

“Mas não é uma tarefa fácil comunicar o orçamento de uma coisa tão complexa quanto a realização dos Jogos”, admite, já sabendo qual será uma de suas tarefas mais difíceis.

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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012 Entrevista, Reportagem | 09:00

Ex-coordenador de UPP diz que números oficiais deveriam ser revistos

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Ex-vice-presidente do Instituto de Segurança Pública e ex-coordenador-geral das Unidades de Polícia Pacificadora, o atual chefe do Estado-Maior administrativo da PM do Rio, coronel Robson Rodrigues, afirma que os números apresentados pelo iG são “surpreendentes” e afirma que as estimativas de população atendida pelas UPPs deveriam ser revistas.

O coronel foi a pessoa indicada pelas assessorias da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro e das UPPs para comentar a reportagem sobre os números de moradores beneficiados nas comunidades pacificadas. Ele salientou que não saberia explicar tecnicamente como foram estabelecidos os números de população atendida nas comunidades pacificadas com as UPPs. O coronel reconhece, no entanto, que são estimativas anteriores ao Censo 2010.

Saiba como foi feito o cálculo do número de moradores das comunidades pacificadas

“Esses números que você está me trazendo são os do Censo. E a pesquisa censitária é a melhor que tem. É necessário fazer as correções”, avalia o coronel Robson, que foi o responsável pela coordenação, controle e preparação doutrinária e operacional das UPPs, bem como pelo planejamento de instalação de novas unidades.

População atendida é um dos fatores para definir efetivo

Ele lembra também que o número de habitantes de uma área não é o único dado importante para se definir como será feita a ocupação e qual o efetivo policial a ser empregado. “Essa é uma das variáveis. Mas levamos em consideração outros fatores, como os aspectos geográficos e sócio-econômicos, o tipo de dominação do poder paralelo, por exemplo”, explica ele.

O coronel Robson, entretanto, afirma que o foco das UPPs não é apenas as favelas e ressalta que elas nem mesmo são mencionadas em seu decreto de criação (decreto 42.787 de 6 de janeiro de 2011). E que o importante no projeto das UPPs é a reconquista do território.

Segundo o decreto, as áreas que devem receber as UPPs são “aquelas compreendidas por comunidades pobres, com baixa institucionalidade e alto grau de informalidade, em que a instalação oportunista de grupos criminosos ostensivamente armados afronta o Estado Democrático de Direito”.

Com relação a uma revisão das estimativas de moradores nas “comunidades pacificadas”, o coronel Robson salienta que as UPPs são responsabilidade da Secretaria de Segurança Pública, que é munida de informações e dados estatísticos pelo ISP. Caberia ao instituto verificar os números e efetuar as correções.

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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012 Entrevista, Reportagem | 10:01

Os últimos cem anos de artes plásticas no Brasil em 186 obras

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Das paredes de agências bancárias espalhadas pelo País, de saguões, escritórios e salões do Itaú, 186 obras de 137 artistas – representativas dos últimos 100 anos de artes plásticas no Brasil – foram reunidas no Paço Imperial, no centro do Rio.

"O Impossível", escultura em bronze de Maria Martins está exposta no pátio do Paço

Um dos locais com mais história no País, o Paço Imperial recebe a mostra “1911-2011 Arte Brasileira e depois, na Coleção Itaú”, um recorte impressionante, amplo e abrangente, de um dos mais importantes acervos de obras nacionais.  É quase um quem é quem das artes plásticas no Brasil. Vai de Lasar Segall, Tarsila do Amaral, Portinari e Di Cavalcanti até Adriana Varejão, Beatriz Milhazes, Ernesto Neto e Tunga, passando por Iberê Camargo, Cícero Dias, Maria Martins, Volpi e Samson Flexor.

E o local escolhido para exibir um acervo tão precioso está à altura. Foi no Paço, a primeira sede administrativa no País, que D. Pedro I teve o seu dia do Fico, em que avisou que preferia continuar aqui a se mandar para Portugal. Foi no Paço que a Lei Áurea de abolição da escravatura foi assinada. Lá também funcionou a Casa da Moeda. Era lá que D. João VI despachava quando chegou ao Brasil fugindo de Napoleão. E o prédio ainda serviu de local de trabalho e residência eventual para os dois imperadores brasileiros, que lá tiveram suas aclamações populares após as coroações. Em uma de suas salas ocorriam as cerimônias de beija-mão.

Escultura de aço cromado sem título de Lygia Pape em primeiro plano, com telas de Cícero Dias e Samson Flexor ao fundo

Escultura de aço cromado sem título de Lygia Pape em primeiro plano, com telas de Cícero Dias e Samson Flexor ao fundo

Após ficar fechado no ano passado para uma reforma estrutural – que permitiu o acesso do público a áreas que estavam restritas –, o Paço reabre com a mostra do Itaú. Uma das coleções mais representativas do País, ela começou a ser formada há 60 anos e conta com 3.600 peças de todos os principais movimentos da arte nacional.

Remoção impossível

O recorte da exposição é um panorama que cobre a evolução da produção artística brasileira durante os últimos cem anos. O marco inicial é um óleo sobre cartão “A Pequena Aldeã”, de Lasar Segall, de 1911, que abre a mostra. Vai até manifestações mais recentes, como instalações e arte digital. Há inclusive aquisições de obras produzidas em 2011. A mais recente é “Vermelho Grace Jones”, de Rodolpho Parigi.

O curador responsável pela mostra, Teixeira Coelho, crítico de arte e curador-diretor do Masp, diz que a exposição apresenta as obras mais marcantes da coleção Itaú, com poucas exceções. Do que ficou de fora, algumas não entraram por questões físicas (em uma das sedes do banco ficou um amplo painel do Portinari, de remoção impossível); outras pelo risco no transporte (uns pequenos pães de argila de Carlos Fajardo); ou por não se encaixarem na narrativa da mostra proposta por Teixeira Coelho.

Não há um percurso cronológico rígido, embora ele esteja presente. “A narrativa que eu proponho tem menos a ver com os canais e trilhos habituais da história da arte e mais com uma forma como os próprios artistas veem a arte”, afirma.

Divisão em seis grupos

São seis seções com algumas subdivisões: A Marca Humana; Irrealismos; Modos de Abstração; A Contestação Pop, Na Linha da Ideia; e Outros Modos, Outras Mídias.

“A Pequena Aldeã” abre o primeiro módulo, que apresenta obras com figuras humanas como tema. É onde estão os “Seringueiros”, de Portinari, e o autorretrato de Pancetti.

As tendências e movimentos estão lá. Mas nem sempre com o nome mais óbvio. Essas pequenas subversões ocorreram onde, segundo Teixeira Coelho, a pressão do rótulo não fosse muito forte. É o caso da produção surrealista, cuja seção ganhou outro nome: “juízo jocoso”. “É uma forma de se apresentar ao mundo e ver a arte através do riso”, justifica.

“O Brasil nunca teve uma produção surrealista muito forte. Mas a arte pop feita aqui foi muito diferenciada, com uma vertente mais política do que a dos EUA, onde nasceu”, afirma ele.

A obra "Palíndromo Incesto (Três Dedais)", de Tunga, vem com um aviso de que elementos em sua composição podem "causar prejuízo aos portadores de marcapassos e válvulas cardíacas não biológicas e para aqueles cuja saúde pode ser afetada por emissões eletromagnéticas. Recomendamos que pessoas nestas condições mantenham distância mínima de 1 m da obra"

Inspirada em objetos da cultura de massa, como quadrinhos e embalagens de produtos, a arte pop tem uma seção sua, com obras de Rubens Gerchman e Paulo Brusky, no grupo Contestação Pop.

Outras vertentes e movimentos influentes estão presentes. Caso da arte concreta. “Foi uma tendência internacional e foi muito forte no Brasil, com várias décadas de atraso”, avalia Teixeira Coelho. Seus representantes estão em Modos de Abstração.

Diversidade artística

Busto do escritor Mário de Andrade feito pelo escultor Bruno Giorgi. Ao fundo, maquetes de Portinari para o mural "Ciclo Econômico"

Não há um fio condutor na mostra. “Ainda bem. São vários vetores que orientam. A coleção é um retrato da diversidade da produção artística brasileira no último século”.

Para Teixeira Coelho, aliás, o grande traço da arte atual no Brasil é a diversidade. “Hoje não há uma proposta única. Mas não havia isso há 60 anos, nas primeira bienais em São Paulo”.

A preocupação com uma linguagem ou temática nacional também foi deixada de lado, embora fosse presente nas obras de artistas mais antigos. Caso de Tarsila do Amaral e do gaúcho Vasco Prado, com seu interesse regionalista.

Como é difícil que apenas uma coleção cubra de forma igualmente significativa um período tão extenso,  há algumas lacunas pontuais. “O que está na coleção não é o mais representativo do Hélio Oiticica e da Lygia Pape”, reconhece o curador.  Dos mais novos e com apelo para um público mais amplo a ausência que mais chama atenção é a de Vik Muniz. Mas das novas safras e com reconhecimento internacional estão Adriana Varejão, Beatriz Milhazes e Cildo Meireles, por exemplo.

A exposição pode ser vista de terça a domingo, das 12h às 18h, e se encerra em 12 de fevereiro.

"Menino Pescando", acrílico sobre tela de Beatriz Milhazes

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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012 Entrevista, Perfil | 16:23

A história pouco conhecida do major Archer, um herói nacional

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“Em outros países ele seria herói nacional, teria selo, seria efígie de nota de dinheiro, daria nome a ruas e escolas. Aqui é ignorado”, lamenta o escritor, jornalista e diplomata Pedro Cunha E Menezes, ex-diretor do Parque Nacional da Tijuca, o mais visitado do País.

O major Archer, que comandou o replantio da Floresta da Tijuca

O “ele” a quem Cunha E Menezes se refere é o major Manoel Gomes Archer, que em janeiro de 1862, há exatamente 150 anos, semeou as primeiras mudas no replantio da Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. Contrariando as ordens recebidas de como proceder, ele comandou a primeira experiência no mundo de regeneração pela mão humana de uma mata primária. Foi o pai da silvicultura no Brasil.

Se o Rio vai receber em junho uma centena de chefes de Estado e de governo na conferência da ONU sobre desenvolvimento sustentável, a Rio+20, marcando os vinte anos da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Unced), é por causa desse feito, ocorrido há um século e meio.

Hoje, o Rio abriga a maior floresta urbana do planeta e a primeira ser refeita em um projeto pioneiro que mostrou ao mundo que o homem podia reverter o processo de desmatamento e  evitar problemas ambientais.

E, no entanto, o aniversário foi na semana passada, no dia 4, mas ninguém lembrou. Não houve festa, nem mesmo nota nos jornais. E nenhum governo achou que valesse usar algum dinheiro das centenas de milhões de reais gastos em propaganda  anualmente. No meio do ano, a Casa da Moeda lançou uma moeda comemorativa. E foi praticamente isso.

Falta de água ameaçava a capital

A principal pessoa por trás desse feito é  pouco conhecida no Rio e ignorada no resto do Brasil. Pouco se sabe sobre o major Archer. Assume-se que era da Guarda Nacional, força paramilitar criada no Império para suprir a falta de um exército profissional  – e em que a patente correspondia ao número de homens que um cidadão-eleitor conseguia arregimentar.

Ele nasceu em 21 de outubro de 1821 e era engenheiro. A historiografia oficial não registra se teve filhos, nem quando e como morreu. Ele tem apenas uma foto conhecida. Mas isso são lacunas biográficas que não diminuem sua importância, embora sirvam para reforçar a tese de que este é um país sem memória.

Archer tinha uma fazenda em Guaratiba, na zona oeste da cidade, onde mais tarde viria a funcionar a fundação Leão XIII, órgão estadual de assistência social. Ele gostava de botânica e mantinha mudas de espécies nativas lá, que foram usadas no replantio da floresta.

Plantação de café na Gávea Pequena, feita por Owen Stanley em 1847

O major Archer foi recrutado por D. Pedro II para reverter uma situação que ameaçava a capital do Império. O principal problema era a crise de abastecimento de água, decorrência do desmatamento da floresta da Tijuca. Só restava vegetação nativa nos topos dos morros e nas encostas mais íngremes.

“Os mananciais assorearam-se e, sem ter as copas das árvores para amortecer a queda dos pingos de chuva, a erosão do solo aumentou muito, carreando barro para os córregos e rios, fazendo chegar aos chafarizes da cidade uma água cada vez mais turva, cheia de impurezas e menos potável”, explica Cunha E Menezes.

Contrariando as ordens

O decreto imperial foi assinado em dezembro, mas as primeira mudas foram plantadas apenas em 4 de janeiro de 1862. E Archer contrariou as ordens recebidas. O decreto estabelecia que o reflorestamento fosse feito “em linhas paralelas retas entre si, sendo as de uma direção perpendiculares às de outra”. Archer optou por um replantio aleatório. Durante 12 anos, foram 80 mil mudas com variedades de espécies e privilegiando as da mata Atlântica.

E não foi um trabalho sem oposição. Quando começou, a Floresta da Tijuca era ocupada por uma centena de pequenas e médias chácaras, que serviam de veraneio para a elite econômica do Império ou abrigavam decadentes plantações de café.

O ciclo cafeeiro na cidade foi iniciado e impulsionado por franceses. Inicialmente, expatriados pela revolução francesa, em seguida, oriundos das fileiras bonapartistas. Pedro Cunha E Menezes explica que o padrão era “comprar, desmatar, vender a madeira como carvão vegetal e plantar café no terreno limpo”. O período de boom desse sistema ocorreu na primeira metade do século 19.

Interesses contrariados

Sem o major não teríamos a Floresta da Tijuca atual e, certamente, a história da cidade, e a vida nela, seria distinta. Mas outras pessoas tiveram papel importante no processo, como Tomás Nogueira da Gama, que ficou encarregado do replantio em uma área contígua à Floresta da Tijuca, nas Paineiras.

Do ponto de vista político, de projeto do Estado, dois personagens foram fundamentais. Além do próprio imperador, que tomou a decisão política de enfrentar o problema, o ministro dos Negócios, Luís do Couto Ferraz, futuro Visconde de Bom Retiro, foi quem conduziu a questão, de extrema complexidade.

Obra de Rugendas retrata a experiência mal sucedida de importar chineses para plantar chá nas encostas da floresta

Petrópolis ainda não era a cidade de balneário usada pela elite da corte para fugir do verão e das doenças e epidemias da estação. Desde D. Pedro I a família imperial veraneava na floresta. A capital não contava com rede de esgoto e os dejetos eram jogados no meio das ruas estreitas. Um recanto como a Floresta da Tijuca, era praticamente uma imposição sanitária.

“Todo mundo que era importante tinha casa lá e ninguém queria sair. O replantio ocorreu em uma área na qual estava 90% do PIB do Brasil na época. O D. Pedro II comprou a briga e o Visconde de Bom Retiro fez a costura política”, conta Cunha E Menezes.

Para dar o exemplo, o próprio Visconde de Bom Retiro e sua família tiveram as terras desapropriadas. O Barão de Mauá, o Barão de Itamaraty, o Conde de Bonfim e o doutor Cochrane (um dos principais empresários da corte) tinham propriedades por lá.

O Visconde de Bom Retiro foi bem sucedido em quebrar resistências ao propor que, além de ajudar a preservar os mananciais e a regular o clima, a floresta regenerada poderia ser uma área de lazer – em consonância com o que acontecia nas principais cidades do mundo. Afinal, essa era uma época dourada do paisagismo, com a remodelação do Bois de Boulogne, em Paris, e a criação do Central Park em Nova York e de novos parques na Inglaterra.

Mitos equivocados

Há alguns mitos envolvendo a história do replantio. Um deles é que Archer teria empreendido a tarefa apenas com seis escravos da Nação – sobre os quais se sabe menos ainda, apenas os nomes (Constantino, Eleutério, Leopoldo, Manuel, Maria e Mateus). Na verdade, os registros mostram que sempre houve trabalho assalariado e que os empregados sempre foram em número superior ao de escravos.

Uma corrente afirma que Archer foi boicotado e que ele perdeu apoio. Cunha E Menezes salienta que o reflorestamento coincidiu, em certo momento, com a Guerra do Paraguai (1864 a 1870). “Foi o maior dreno de recursos da história do Brasil. O Archer não interrompeu o trabalho em nenhum momento. Todo o resto do País quase parou e o dele continuou”, contemporiza.

E sobre a falta de apoio oficial, é importante notar que D. Pedro II levou Archer com ele para a Exposição Mundial na Filadélfia, em 1876, e, após sua saída do parque, o nomeou para cuidar da fazenda imperial, justamente para que fizesse o mesmo trabalho de recomposição da mata feita na Tijuca.

Parque e Floresta da Tijuca não são a mesma coisa

Criado há 50 anos, o Parque Nacional da Tijuca é herdeiro desse processo. Embora tenha uma área da Floresta da Tijuca, seus limites não coincidentes. E o próprio reconhecimento popular do que seria a Floresta da Tijuca ficou mais abrangente com o passar do tempo.

O parque divide as zonas sul e norte da cidade. Ele se divide em quatro setores (identificadas no mapa abaixo com as seguintes letras): a) Floresta da Tijuca; b) Serra da Carioca; c) Pedra Bonita/Gávea; e d) Pretos Forros/Covanca. É a menor unidade de conservação do País, com 3.953 hectares (3,5% do município), mas é o mais visitado do Brasil, com 2 milhões de pessoas – muito por causa do Cristo Redentor, que está dentro de seu território.

A chefe atual do parque, Maria de Lourdes Figueira, diz que há um estudo para ele seja ampliado, mas não há previsão de aprovação.

“Apesar de sabermos que outros personagens contemporâneos e posteriores ao major Archer também contribuíram para o reflorestamento do parque, foi ele quem capitaneou e organizou o início do projeto. E, ainda que tenha sido a regeneração natural responsável por quase 90% desse reflorestamento, a contribuição do homem tornou-se importante, não somente pelo ato de replantar em si, mas também pelo fundamento de conservação de áreas verdes. Se hoje temos uma cidade que se candidata junto a Unesco na categoria Paisagem Cultural, é porque temos um Parque Nacional exuberante, ainda que em meio à cidade”, afirma ela.

A imagem por satélite dá uma noção da importância da Floresta (em verde) para o resto da cidade do Rio. As quatro áreas do Parque Nacional estão destacadas: a) Floresta da Tijuca; b) Serra da Carioca; c) Pedras Bonita/Gávea; d) Covanca e Pretos Forros

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sexta-feira, 25 de novembro de 2011 Entrevista | 17:33

Para comandante da PM, combater milícias é mais difícil do que enfrentar tráfico

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Coronel Erir Costa Filho

Coronel Erir Costa Filho, de faxineiro a comandante-geral da PM

Comandante-geral da Polícia Militar do Rio, o coronel Erir Ribeiro Costa Filho, 54 anos, tem uma trajetória peculiar. A ascensão ao posto máximo da carreira já seria um feito e tanto. Mas a sua tem componentes especiais. Na primeira vez em que entrou no quartel-general da PM, na rua Evaristo da Veiga, em 1978, ele empunhou uma vassoura. Era servente e sua função era varrer o piso da corporação. Trinta e três anos depois ele chefia 42.422 policiais e promete uma faxina ética na instituição.

Ele também ganhou notoriedade por receber uma punição. Mas bem diferente das que levaram a instituição a expulsar 677 homens de 2008 até setembro deste ano por desvios gravíssimos, como roubo, homicídio e peculato. Em 2003 ele perdeu o comando de um batalhão ao denunciar que um ex-secretário estadual intercedeu em favor de traficantes.

Costa Filho, contudo, não demonstra particular orgulho por nenhuma das duas histórias. Entre risos e cigarros do maço que fuma diariamente, ele fala com tranquilidade das suas atribuições e das primeiras semanas no cargo, que ocupa desde  final de setembro.

Após o seu batismo de fogo no comando da tropa – a ocupação policial da Rocinha e a prisão do traficante Nem, o mais procurado do estado – ele já consegue relaxar. Às vésperas da bem sucedida operação na favela mais famosa do País, Costa Filho teve dificuldade para dormir. E conta rindo que decidiu ficar mais perto da ação e se mudou de sua casa, em Nilópolis, na Baixada Fluminense, para a residência oficial do comandante-geral, no Flamengo. “Não tinha nem sabonete lá. Tomava banho com xampu”.

Em breve a Rocinha abrigará a 19ª Unidade de Polícia Pacificadora. Mas ele avisa
que é preciso não ter expectativas excessivas em relação ao projeto de UPP. “A UPP não vai acabar com o tráfico”, diz ele, que acha viável reduzir o poder militar de bandos armados. Nesse quesito, ele aponta as áreas de Jacarezinho e da Maré como as que requerem atenção especial. A Maré sediara a Unidade de Comandos Especiais.

“Milícia é muito pior”

O comandante-geral também avalia que, na segurança pública, o tráfico não é o oponente mais difícil a ser enfrentado. “A milícia é muito pior”.

Ele acredita que, nos anos 70, o principal problema das polícias no Rio era o envolvimento de alguns integrantes com grupos de extermínio, como o mão branca”, atualmente na área de segurança pública é a milícia.

“Ela tem muito envolvimento de policiais, de ex-policiais e de outros integrantes de órgãos da segurança pública. Na área de Campo Grande, os próprios policiais que servem no 40º BPM têm medo. Eles conhecem todo mundo”, lamenta.

Por contarem com muitos integrantes das forças de segurança, que têm autorização para usar armas, é difícil tipificar o porte ilegal – algo fácil no caso de um traficante. Responsável pela escola de formação de oficiais da PM, o coronel Íbis Silva Pereira explica que a PM não possui os meios necessários para o enfrentamento adequado da milícia.

Mecanismos da legislação, como quebra de sigilo bancário e telefônico, que são atrelados ao inquérito, estão longe do alcance da PM. Não é possível, por causa de uma sindicância interna, por exemplo, pedir a um juiz a monitoração telefônica de um policial que apresente indícios de enriquecimento.

É preciso um inquérito instaurado. E isso não é atribuição da PM. Somente as polícias civil e federal têm, legalmente, competência para tanto.

“É preciso trabalhar em conjunto, além deles, com a Corregedoria Geral Unificada e com a subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública”, afirma Costa Filho, que elogia ações das polícias Civil e Federal que prendem PMs. “Estão nos ajudando a fazer uma limpeza institucional. Só não dá para ficar limpa 100%. Isso seria uma utopia”.

Ovelhas negras

Costa Filho diz que em uma instituição com quase 43 mil membros é normal que haja ovelhas negras. E que as que forem identificadas serão punidas. “É um problema da índole das pessoas, e não da instituição”, diferencia.

E diz que como parte desse esforço tem havido uma mudança de mentalidade na forma de enfrentar a questão da violência. E dá um exemplo. “Os autos de resistência (mortes provocadas por policiais em operações) estão diminuindo”, afirma ele, lembrando que, nos anos 90, foi instituída a “gratificação faroeste”, que acabou sendo um incentivo para quem matasse mais. Hoje é o inverso. No plano de metas da Secretaria de Segurança Pública um dos principais itens é a redução de letalidade violenta. Isso inclui os autos de resistência, homicídio doloso, latrocínio e lesão corporal seguida de morte.

Mas Costa Filho considera que não basta a polícia melhorar. É preciso que a sociedade mude também. “Ela tem que ajudar a diminuir a corrupção. Só dá o dinheiro quem está errado. Se estiver certo não precisa dar o dinheiro, precisa?”, questiona.

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