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segunda-feira, 15 de outubro de 2012 Entrevista, Nota | 08:13

Zona sul fez Rio de Janeiro ser a capital nacional da abstenção

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Entre todas as capitais do País, a do Rio de Janeiro teve o maior índice de abstenção no primeiro turno eleitoral. Foram 965.214 eleitores que deixaram de ir às urnas: 20,45%. Nenhum outro dos 25 estados onde houve eleição teve um índice tão alto. No Brasil, a média foi de 16,41%.

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No caso do Rio, a abstenção foi maior até do que a votação do segundo colocado, Marcelo Freixo (PSOL), que teve 914.082 votos. O prefeito Eduardo Paes (PMDB) foi reeleito por 2.097.733 eleitores, ou 64,60% dos votos válidos – a maior votação para um candidato a prefeito em um primeiro turno na cidade. Os votos nulos (8,48%) e brancos (5,03%) chegaram a 507.323, também acima da média nacional.

Entre as capitais, o Rio ficou a frente de Salvador, na Bahia (19,93%), São Luís, no Maranhão (19,36%) e Vitória, no Espírito Santo (19,34%). Maceió, em Alagoas, registrou o maior comparecimento. Apenas 8,50% do eleitorado faltou. Nas três cidades, ao contrário do Rio, a eleição não foi decidida e será realizado um  segundo turno. A abstenção na capital carioca foi maior do que a média no Maranhão, o estado com mais alto índice no geral (19,62%). No geral, o eleitor compareceu menos nas capitais do que no interior (faltou 17,46% contra 16,11%). Foi mais assíduo nas cidades pequenas. Nos municípios com menos de 20 mil eleitores foi registrado o menor índice de abstenção: 12,74%.

No Estado do Rio, a capital também se destacou. Percentualmente, somente as pequenas Porciúncula e Miracema (ambas com 20,47%) tiveram mais ausências.

Copacabana, a campeã da abstenção

De acordo com um levantamento feito pelo iG com base nos dados oficiais do TRE-RJ, das dez zonas eleitorais da cidade que registraram menor comparecimento, nove ficam na zona sul carioca e uma no centro. A campeã é a 18ª, em Copacabana, com 31,92% de faltantes. A segunda também fica lá. É a 205ª, com 31,51%. Das que tiveram maior abstenção, outras três são no bairro, duas ficam no Jardim Botânico, uma em Laranjeiras e uma no Catete. A da região central fica na Saúde.

Para o cientista político da PUC-Rio Cesar Romero, autor do livro “A Geografia do Voto nas Eleições para Prefeito e Presidente nas Cidades do Rio de Janeiro e São Paulo: 1996-2010”, o menor comparecimento de eleitores na zona sul não chega a ser uma surpresa. Mesmo antes de saber a distribuição geográfica dessa abstenção, ele apostava na zona sul.

“Na zona oeste popular, na Leopoldina e na Central a abstenção é mais baixa. mas o voto válido é menor, com mais nulos e brancos”, diz ele, que analisou as últimas oito eleições na cidade. Segundo ele, os bairros da metade sul, próximos da orla, como Barra, Copacabana, Leblon e Ipanema, têm um perfil mais conservador. É onde o voto válido é maior, e a abstenção também.

Romero explica que esse eleitor de classe média, com mais escolaridade, tem mais dinheiro e maior possibilidade de viajar. “Já o da zona oeste popular, por exemplo (como Bangu, Campo Grande, Santa Cruz e Jacarepaguá), tem menos dinheiro, não tem casa fora e migra menos também”.

No primeiro turno da eleição carioca, todas as dez zonas com menor índice de abstenção ficam na zona oeste. Nessa lista, a primeira é a 120ª em Campo Grande, com 14,54% de faltantes. Das outras nove, mais duas ficam em Campo Grande, quatro ficam em Santa Cruz, duas em Bangu e uma na Taquara.

Ausência de candidato conservador forte

É interessante notar que no segundo turno da eleição municipal de 2008 – a apertada disputa entre Eduardo Paes (PMDB) e Fernando Gabeira (PV) –  também ficou marcado pelo baixo comparecimento dos eleitores. Paes venceu por 55.225 votos e a abstenção chegou a 20,25%. Na época, aliados de Gabeira chegaram a atribuir a derrota à antecipação do dia do funcionário público pelos governos estadual e municipal. O “feriadão prolongado” teria estimulado viagens.

Agora, em 2012, Romero destaca dois outros fatores que podem ter contribuido para o baixo comparecimento às urnas no primeiro turno. O primeiro é que, desde o ínicio da campanha, nenhum adversário chegou a ameaçar a hegemonia de Paes. Ele liderou com ampla folga todas as pesquisas de intenção de voto. “Todo mundo sabia que o Eduardo Paes iria ganhar e isso pode ter desestimulado os eleitores”.

O segundo fator foi a ausência de um candidato de perfil mais conservador que realmente atraísse esse eleitorado. O próprio Eduardo Paes, na avaliação de Romero, também tira votos na esquerda, até pela chapa com o PT. “A direita no Rio ficou órfã e não se sentiu representada por nenhum candidato”, afirma o cientista político da PUC-Rio. “Para esse eleitorado mais conservador o Freixo não era uma opção. O Otávio Leite e a Aspásia não tem nenhum carisma. E muitos rejeitaram a chapa Rodrigo Maia e Clarice Garotinho por causa dos pais, o Cesar Maia e o Anthony Garotinho. A união deles foi uma soma que subtraiu”.

Onde a abstenção foi maior na cidade do Rio

1. Zona Eleitoral nº 18 (Copacabana) – 31,92%
2. Zona Eleitoral nº 205 (Copacabana) – 31,51%
3. Zona Eleitoral nº 1 (Saúde) – 30,83%
4. Zona Eleitoral nº 5 (Copacabana) – 30,49%
5. Zona Eleitoral nº 206 (Copacabana) – 29,58%
6. Zona Eleitoral nº 165 (Jardim Botânico) – 29,54%
7. Zona Eleitoral nº 252 (Copacabana) – 28,70%
8. Zona Eleitoral nº 17 (Jardim Botânico) – 28,31%
9. Zona Eleitoral nº 3 (Laranjeiras) – 27,96%
10. Zona Eleitoral nº 163 (Catete) – 27,54%

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sábado, 6 de outubro de 2012 Entrevista | 09:06

Sem verbas, Instituto Cultural Cravo Albin quer ser municipalizado

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Um dos mais importantes centros culturais ligados à música brasileira no País está em risco. Concebido há 11 anos para promover e incentivar atividades ligadas à música, o Instituto Cultural Cravo Albin, na Urca, está sem verbas. Criado com o objetivo de divulgar, defender e conservar o patrimônio histórico e artístico, o ICCA necessita com urgência de alguém que o divulgue, o defenda e o conserve, pelo que conta seu fundador, Ricardo Cravo Albin.

O Largo da Mãe do Bispo, na cobertura do ICCA (foto: Luiz Antonio Ryff)

O Largo da Mãe do Bispo, na cobertura do ICCA (foto: Luiz Antonio Ryff)

“Não tem sido fácil. As perspectivas para o fim de ano são apreensivas. Precisamos de sustentabilidade. E ter uma tranquilidade de rumo”, afirma Ricardo ao iG. E adianta: “Minha meta é passar para uma instituição pública. Eu vou procurar o prefeito Eduardo Paes. Meu desejo é municipalizar e entregar a gestão para a Prefeitura”. Ele diz que o ICCA necessita de R$ 30 mil por mês para funcionar e atualmente só tem um apoiador, a Faperj, que concede bolsas de auxílio à pesquisa para estudantes trabalharem no instituto.

Fundador do instituto que leva seu nome, Ricardo é um dos maiores conhecedores da MPB. Produtor cultural, ele fundou e presidiu o Museu da Imagem e do Som do Rio, dirigiu a Embrafilme e comandou o Instituto Nacional do Cinema.

Criado em 2001, o ICCA é uma sociedade civil sem fins lucrativos. Sua sede de 3 mil metros quadrados em um cartão postal da zona sul carioca, aos pés do antigo Cassino da Urca e do Pão de Açúcar, foi doada pelo próprio Ricardo. Sua fundação contou inicialmente com seu acervo pessoal. Mas outras doações de pesquisadores, colecionadores e artistas, como a do cantor Ivon Curi, foram incorporadas.

Violão de Cartola e sandália de Carmem Miranda

A coleção inclui instrumentos e objetos pertencentes a artistas. Entre os itens, há uma sanfona de Luiz Gonzaga, um par de sapatos plataforma de Carmem Miranda, violões de Luiz Bonfá, Herivelto Martins e Cartola, uma roupa de show das Frenéticas, um chocalho de prata de Pixinguinha com a partitura de “Carinhoso” gravada no metal.

Microfone que pertenceu ao Cassino da Urca (foto: Luiz Antonio Ryff)

Uma das curiosidades mais interessantes é a reprodução de um estúdio da época de ouro do rádio, com aparelhos dos anos 30 ainda em funcionamento. São transmissores, receptores, amplificadores valvulados, mixers de quatro canais, monitor de áudio, gravador de rolo, caixas de som, microfones variados (entre eles um do Cassino da Urca).

O arquivo fonográfico conta 30 mil discos de 8, 10 e 12 polegadas (vinis de 33, 45 e 78 rotações em goma laca e compactos simples e duplos), mais 2 mil fitas sonoras em rolo, 700 cassetes e cerca de 5 mil CDs de música brasileira – de Mário Reis, Tom Jobim e João Gilberto a É o Tchan, Xuxa e Trem da Alegria, passando por Raul Seixas e Cássia Eller.

Muitos objetos chegam danificados ou mal conservados. O ICCA teve que tratar 15 mil discos. Alguns vinis mais sujos passam pela limpeza em um equipamento importado da Alemanha.

Além de documentos, fotografias, revistas e jornais, programas de rádio e TV e roteiros de espetáculos musicais, o acervo mantém uma coleção de vídeos de programas musicais e depoimentos de artistas.

Dicionário online de MPB

Ricardo Cravo Albin, fundador do Instituto que leva seu nome (Foto: divulgação)

O ICCA também é responsável pelo Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, disponível online, que conta com cerca de 7 mil verbetes e tem mais de 150 mil consultas por mês.

O instituto também publica livros e a revista Carioquice, lança CDs e realiza mostras. A exposição atual é dedicada ao centenário de nascimento do compositor Herivelto Martins, autor de diversas marchinhas, sambas e também protagonista de um dos relacionamentos mais conturbados e famosos da MPB, seu casamento com a cantora Dalva de Oliveira – e mais do que tudo, a polêmica separação com os dois trocando farpas através de canções.

O ICCA funciona de segunda a sexta, das 10h às 17h. A entrada é gratuita, mas é preciso fazer agendamento pelo telefone (21) 2295-2532. Segundo Cristiana Coutinho, coordenadora do acervo, o público é composto basicamente de pesquisadores acadêmicos, estudiosos (inclusive do exterior) e grupos escolares.

Também são realizados saraus nos jardins da cobertura do instituto. Há dois fixos, o Clube de Jazz e Chorando com Joel, capitaneado por Joel do Bandolim. Além desses, eventualmente são organizados outros. O mais recente, em agosto, teve o gaitista Rildo Hora e Zezé Motta. São fechados a convidados, mas alguns convites são sorteados pela rádio MPB FM, no Rio.

No Rio, o Instituto Moreira Salles faz algo parecido, embora suas atribuições sejam mais abrangentes e sua capacidade também. “O trabalho do IMS é muito importante, mas eles têm um banco por trás”, compara ele, referindo-se ao Itaú, que após a fusão com o Unibanco passou a ter entre os sócios a família Moreira Salles.

Às vésperas de completar 73 anos, Ricardo está preocupado com o futuro de seu legado. Em 2010, um grupo de empresas prometeram bancar o ICCA. “Prometeram, mas só deram um ano e não renovaram”, lamenta.

A praia da Urca vista da varanda do Instituto (foto: Luiz Antonio Ryff)

A praia da Urca vista da varanda do Instituto (foto: Luiz Antonio Ryff)

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sexta-feira, 21 de setembro de 2012 Entrevista | 15:12

Transporte e acomodação são as principais preocupações de infraestrutura para os Jogos de 2016

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O ciclo olímpico do Rio já se iniciou e ainda há muito por fazer nos próximos quatro anos. Presidente da Empresa Olímpica Municipal, a economista Maria Silvia Bastos Marques é responsável por coordenar os projetos e as iniciativas da Prefeitura carioca relativas à Copa do Mundo de 2014, às Olimpíadas e às Paralimpíadas de 2016. Também é o contato muncipal de integração com os outros agentes responsáveis por esses eventos (como os governos estadual e federal, a Fifa e o COI). É função dela assegurar, no âmbito da administração municipal, que os objetivos sejam cumpridos dentro do orçamento e prazo estabelecidos (nem todos estão ainda definidos, aliás). E que ainda haja um legado para a sociedade. Ela esteve em Londres e acompanhou de perto a organização dos jogos na capital inglesa. Ela elogia os esforços londrinos, principalmente o cuidado com a informação ao público. E ela avalia que os principais obstáculos a serem superados pelo Rio até lá são melhorar o sistema de transportes e aumentar a capacidade hoteleira.

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Agora que o ciclo olímpico do Rio começou, qual é o principal obstáculo a ser vencido pela cidade nos próximos quatro anos para a realização dos jogos?
Maria Silvia Bastos Marques –
Preparar a cidade para receber os maiores eventos esportivos do planeta inclui desafios em diversas áreas. A área de transporte é realmente um grande desafio, mas a Prefeitura avançou bastante. As obras mais complexas – BRTs Transoeste e Transcarioca, com 56 km e 41km, respectivamente – estão em andamento. O trecho Alvorada-Santa Cruz do BRT Transoeste entrou em funcionamento no dia 6 de junho. E embora o BRT Transcarioca ainda esteja em construção, com conclusão prevista para 2013, já foram inaugurados o Mergulhão Clara Nunes, em Campinho, o Mergulhão Billy Blanco, na Barra da Tijuca, e a duplicação do Viaduto Negrão de Lima, em Madureira.

Outro grande desafio é expandir a rede hoteleira da cidade. Para aumentar a oferta de quartos de hotéis no Rio de Janeiro, a Prefeitura lançou, em novembro de 2010, um conjunto de incentivos. A resposta do setor imobiliário foi extremamente positiva.

Como gestora pública, do ponto de vista administrativo e operacional, o que lhe chamou mais atenção nas Olimpíadas de Londres?
Maria Silvia Bastos Marques –
Nossos técnicos tiveram a oportunidade de conhecer as instalações esportivas de duas maneiras: vivenciando a experiência do espectador e em visitas guiadas, com explicações específicas da equipe do Comitê Organizador Local. Com isso, reuniram informações importantes para o desenvolvimento de projetos como o do Parque Olímpico, por exemplo.

Foram estudados e documentados detalhes como os diversos centros de operações e sua integração, a decoração da cidade e das instalações olímpicas, conectividade, funcionamento dos Live Sites (área para que o público acompanhe as competições), acessibilidade, ação dos voluntários e as próprias instalações esportivas (estrutura, materiais, capacidade, instalações temporárias, linha de visibilidade etc). No total, foram tiradas mais de mil fotos.

No caso dos transportes, por exemplo, os técnicos da Prefeitura observaram o gerenciamento de transporte e fluxo de multidões. Londres, cidade que tem um dos serviços de transporte mais completos do mundo, fez uma bem sucedida campanha para evitar transtornos nos transportes de massa. Incentivaram os residentes a trabalhar em horários alternativos ou em casa, e a tirar férias durante o período dos Jogos. Aconselharam o público dos Jogos a utilizar estações alternativas às das instalações, entre outras iniciativas. Embora tenha afetado a vida da cidade – o que é esperado em um evento destas proporções – funcionou muito bem, pois havia uma oferta de transporte que atendeu à demanda da cidade. No caso do Rio, o objetivo é fazer com que a integração do sistema de BRT (Transoeste, Transcarioca, Transolímpica e Transbrasil) com metrô e trem também atenda à demanda do público dos Jogos e dos cariocas.

A sinalização foi outro ponto alto dos Jogos Olímpicos de 2012. Todas as estações de trem e metrô contavam com informações que incluíam o trajeto para as instalações olímpicas, orientando e dando referências aos espectadores sobre o percurso a ser seguido. Galhardetes nos postes informavam os espectadores sobre o tempo que levariam até as instalações. Dentro do Parque Olímpico também havia placas com o tempo entre uma instalação e outra, o que facilitava a programação e o fluxo dos espectadores.

Apesar dos imprevistos naturais que acontecem em um evento da dimensão dos Jogos Olímpicos, com o envolvimento de centenas de milhares de pessoas, os organizadores de Londres 2012 tiveram a flexibilidade e a agilidade necessárias para ajustar e corrigir os imprevistos, assegurando o sucesso dos Jogos.

Algo ficou deixando a desejar lá que poderia ser evitado aqui, além da baixa ocupação de assentos no início dos jogos?
Maria Silvia Bastos Marques – Londres é uma cidade muito mais pronta que o Rio de Janeiro em termos de infraestrutura. As necessidades e os desafios são diferentes. Mas ter a oportunidade de conhecer a operação do Parque Olímpico foi fundamental. O controle de fluxo dos espectadores da instalação, por exemplo, exige que o planejamento seja feito ainda nas fases iniciais do projeto. Mas pelo que pudemos ver em Londres, estamos no caminho certo.

A capacidade hoteleira do Rio é baixa para a necessidade de grandes eventos e os preços são altos pelo que é oferecido. Como evitar a repetição do que ocorreu na Rio+20, quando os preços foram nas alturas?
Maria Silvia Bastos Marques – Para aumentar a oferta de quartos de hotéis no Rio de Janeiro, a Prefeitura lançou, em novembro de 2010, um conjunto de incentivos para a rede hoteleira. Estes incentivos incluem a remissão de dívidas de IPTU e isenção de IPTU durante as obras para imóveis adquiridos até 31 de dezembro de 2012 e imóveis com “habite-se” até 31 de dezembro de 2015; isenção de ITBI para operações de compra e venda de imóveis destinados à atividade hoteleira até 31 de dezembro de 2012; e redução de ISS (alíquota a 0,5%) para serviços para a construção ou reconversão em empreendimentos hoteleiros até 31 de dezembro de 2015. A resposta do setor imobiliário está sendo extremamente positiva. Segundo dados de setembro de 2012, estão em construção ou já foram licenciados 8.865 quartos de hotéis na cidade, e outros 8.689 quartos estão em análise ou consulta na Secretaria Municipal de Urbanismo.

Em comparação com Londres, quais serão as principais diferenças dos jogos olímpicos realizados no Rio?
Maria Silvia Bastos Marques – As melhorias urbanas na região do Parque Olímpico de Londres foram desenvolvidas pensando no legado, e não apenas nos Jogos Olímpicos. O resultado é a expectativa de um efeito positivo em toda a região de Stratford e arredores, com investimentos em empreendimentos residenciais, comerciais e de lazer. O projeto olímpico do Rio segue a mesma lógica de priorizar o legado. A principal diferença é que nossas áreas olímpicas estão espalhadas por quatro regiões da cidade – Barra, Deodoro, Copacabana/Flamengo e Maracanã. O objetivo é beneficiar diretamente uma parcela significativa da população, que deve chegar a dois milhões de pessoas. Se conseguirmos deixar um legado em todas as áreas, assim como Londres fez em Stratford, teremos acertado muito.

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sexta-feira, 14 de setembro de 2012 Entrevista | 16:07

George Ermakoff, um ‘arquéologo’ de imagens do Rio de Janeiro

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O economista George Ermakoff sempre foi apaixonado pelo Rio antigo. Era fascinado pelos lotações, tem nostalgia da cidade mais vazia, sem tantos carros e pessoas. “Havia menor adensamento populacional. Dava a impressão de uma cidade mais hospitaleira. O mundo moderno dá a impressão de que somos figurantes no meio da multidão”, lamenta ele, que foi diretor da Varig e presidente de uma subsidiária da companhia aérea, a Rio Sul.

Foto da Rua da Assembléia, no Centro do Rio, feita por Augusto Malta (Coleção Ermakoff)

Foto da Rua da Assembléia, no Centro do Rio, feita por Augusto Malta (Coleção Ermakoff)

Aposentado do trabalho de executivo, ele criou uma editora que leva o seu nome e pode se dar ao luxo de trabalhar com essa paixão, publicando livros com fotos de um Rio que sobrevive na sua memória afetiva e na de outros.

Ele prepara para o próximo ano um livro sobre a história de Copacabana, com muitas imagens. E outro com o material feito pela norte-americana Genevieve Naylor no Brasil no início dos anos 40, dentro da Política de Boa Vizinhança implantada por Washington. George comprou do filho da fotógrafa os direitos para usar o arquivo dela. “Sou apaixonado por ela. Não são só paisagens. Tem uma preocupação artística, com componentes sociais e com os costumes”, explica George.

Infância aventuresca

George é filho de russos, uma parte originária da atual Ucrânia e outra do sul da Sibéria, perto do lago Baikal. Ele nasceu em 1949 em Shangai, na China, onde o pai, engenheiro, foi trabalhar na construção de um ramal da ferrovia Transiberiana. Na época, ano da tomada de poder pelos comunistas após uma guerra civil, a cidade era uma colônia estrangeira encravada no país mais populoso do mundo. As potências ocidentais dividiam a cidade em zonas e os chineses eram proibidos de entrar em alguns locais. George nasceu na parte francesa.

Ele viveu lá até 1954, quando a família foi “convidada” a se retirar, junto com os outros estrangeiros, pelas autoridades comunistas.

Na época os pais já haviam se separado. George vivia com a mãe, que pensou em ir para o Canadá, mas acabou vindo para o Brasil, onde tinha uma amiga. No Rio, ela foi trabalhar em uma fábrica de biscoitos na Avenida Brasil. Depois, como enfermeira, foi trabalhar no Hospital dos Estrangeiros, ajudando nas radiografias. Enquanto isso, George passou sua infância e adolescência em um internato em Petrópolis, antes de entrar no colégio Pedro II.

O acaso no início da coleção

A coleção de George começou quase com um acaso. Em meados dos anos 90, ele foi acompanhar amigos a uma galeria de arte em Santa Teresa, no centro do Rio. Perto da exposição, um punhado de barraquinhas estavam montadas em uma praça, como uma quermesse de interior. Em uma delas, uma moça vendia as duplicatas de uma coleção de cartões postais que pertencera ao avô. George comprou o lote todo, com 100 peças. Eram exemplares do início do século 19, que podiam a chegar, individualmente, a R$ 100, R$ 200.

Ao chegar em casa, ficou admirando o que havia comprado. E decidiu que gostaria de colecionar fotografias do Rio antigo.

O trabalho na Varig, onde era diretor, ajudou na coleção. Ele viajava muito para Paris, onde há um comércio grande de fotografias antigas. “Muitos turistas europeus vinham para o Brasil e compravam fotos de recordação. O cartão postal começou no final do século 19. Tinha muita coisa do Rio em Paris”.

Os preços ainda não eram tão altos. George conta que a fotografia começou se popularizar e os preços estouraram. Pelas suas contas, a valorização ultrapassou 500% em cerca de 15 anos. “Comprei um lote de 30, 35 fotos do Juan Gutierrez que me custou uma pequena fortuna. Uns US$ 600 cada uma. Hoje custam cinco vezes mais”, diz.

Ele salienta que preço de uma foto é bastante variável. Depende da tiragem, do tamanho, do estado de conservação, do autor, da qualidade da foto, do que foi fotografado. No caso do Rio, entre as mais valorizadas estão as de Augusto Stahl, pela raridade.

Preocupação com os fungos

Não basta comprar. É preciso saber conservar. Manter uma coleção de fotos antigas requer alguns cuidados. O Rio é úmido e quente, condições propícias para o surgimento de fungos. As fotografias necessitam de um ambiente refrigerado e seco.

De uma maneira geral, é mais fácil preservar os acervos na Europa ou nos Estados Unidos. “No Brasil, a grande maioria das fotos se perdeu”, lamenta ele, que mais recentemente passou a comprar também em leilões na internet. “Mas é preciso conhecer. Tem muita porcaria”.

Por isso, ele mantém sua coleção de 7 mil imagens dentro de caixas onde as fotos ficam acondicionadas de forma apropriada, em películas próprias em um quarto climatizado. Quase tudo é original. As cópias não chegam a 200. Algumas são reproduções feitas por Augusto Malta de fotos feitas por ele mesmo.

De fotos da cidade a retratos de personalidades

George começou colecionando apenas imagens do Rio antigo, do século 19 até os anos 30. Acabou ampliando para os anos 60 e, posteriormente, diversificou para fotos de personalidades que ele admira, como músicos e escritores. Sua afeição é abrangente. Inclui originais de José de Alencar, Castro Alves, D. Pedro II, José do Patrocínio, Villa-Lobos, Vitor Hugo e Picasso. Mas esses itens têm um nicho diferente de mercado. Acabam se valorizando se estão autografados pelas personalidades.

Com tanta paixão pela fotografia, George começou a tirar fotos também. Planeja fazer reportagens fotográficas nos próximos anos.

“O que eu gosto, o que me dá prazer, é me sentir uma pessoa útil guardando a memória do que foi, do que existiu, para as gerações futuras. No Brasil, a maior parte dos acervos vai para o lixo. As pessoas não dão atenção aos velhos álbuns de família. Por isso o papel do colecionador é importante. Se eu não comprasse, seriam destruídos”.

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sexta-feira, 24 de agosto de 2012 Entrevista, Reportagem | 10:05

A transformação do Viva Rio de pedra em vidraça

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O Viva Rio nasceu como uma reação de um grupo da sociedade civil carioca a um momento particularmente violento na cidade, após as chacinas da Candelária e de Vigário Geral, em 1993. Está chegando aos 19 anos em transição. Surgiu como uma Organização Não-Governamental e está cada vez mais funcionando como uma Organização Social. Antes, promovia debates, coletava sugestões, fazia críticas. Era um criador de agendas. Agora, com essa mudança de perfil, o Viva Rio teve que aprender a meter a mão na massa e passou a atuar em parcerias com os governos. Virou um executor de políticas públicas. Isso quer dizer que ele deixa de ser pedra e passa a ser vidraça.

Clínica da família na Rocinha

Clínica da família na Rocinha operada pelo Viva Rio como Organização Social (foto divulgação)

Se surgiu preocupado em reduzir a violência urbana, hoje pensa em promover o desenvolvimento local com inclusão social. “A gente propunha agendas e horizontes para o Rio. Essa agenda se cumpriu. O grande desafio agora é fazer”, afirma o antropólogo Rubem César Fernandes, diretor-executivo do Viva Rio. “E é preciso atuar no micro. O micro mudou muito pouco”, lamenta. E justifica a mudança. “Os mecanismos institucionais são emperrados”.

Do ponto de vista jurídico, uma Organização Social pode receber isenções fiscais e verbas do governo para a realização de atividades de interesse público e social. Do ponto de vista prático, o mais importante é que uma OS tem mais muito mais flexibilidade para comprar e para contratar e demitir pessoas – os funcionários não se tornam funcionários públicos. Se por um lado é bem menos engessado, para seus críticos o modelo está submetido a menos controles.

Campanha fracassada

Nascida em dezembro de 1993, o Viva Rio hoje conta com 4 mil funcionários, que atuam nas áreas de saúde, meio-ambiente, educação, artes, esportes e segurança humana – um nome pomposo que inclui a elaboração de políticas públicas para diminuir a violência, campanhas de controle de armas, e programas de qualificação da Guarda Municipal e da PM, entre outras coisas. Seus programas atendem direta e indiretamente 1,2 milhão de pessoas. E o Viva Rio já recebeu dezenas de prêmios, no Brasil e no exterior.

Nos últimos anos, a ONG foi definitivamente se transmutando. As operações no Haiti são um exemplo. O Viva Rio levou para o país do Caribe a experiência desenvolvida nas favelas cariocas. Chegaram aos poucos em 2005, como consultores. Os representantes da ONU gostaram e pediram uma ampliação do trabalho. Hoje são 800 pessoas, sendo 450 haitianos.

No Rio, como OS, passou a operar clínicas da família dentro das comunidades carentes. E firmou um convênio para gerir seis UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) na cidade – cinco do Estado e uma do município.

Na parte de “segurança humana” o trabalho inclui ajudar a formar guardas municipais e PMs que trabalham nas UPPs em como lidar com moradores das favelas.

Não quer dizer que a origem de formulação de propostas tenha sido arquivada. Mas mesmo essa faceta também está envolta em polêmica. O Viva Rio já liderou a campanha pelo desarmamento. O plebiscito foi derrotado. Agora o objetivo é ainda mais delicado: mudar a legislação de drogas, liberando o plantio de maconha para consumo próprio e transferindo a questão da área criminal para a área médica.

“O Viva Rio se transformou em um instrumento de execução das agendas que a gente mesmo ajudou a discutir no passado. A gente não é uma empresa de RH ou de logística de saúde”, explica Rubem César.

Baixo astral e esvaziamento

Essa mudança de orientação do Viva Rio é reflexo da mudança da cidade, segundo Rubem César. Ele diz que no início dos anos 90, o carioca ficava discutindo o mundo e demorou a perceber a crise, o baixo astral, o esvaziamento da cidade, a criminalidade.

“A violência era o sintoma mais evidente de uma patologia maior, que era o esvaziamento econômico Os bancos estavam indo embora, as estatais tinham ido para Brasília. Todo mundo queria sair.  O Viva Rio foi uma resposta da elite da cidade”, diz ele, lembrando que os primeiros passos foram dados por empresários de comunicação. Walter de Mattos (do Lance) chamou Herbert de Souza, o Betinho, João Roberto Marinho (Organizações Globo), e Manoel Francisco Brito (então Jornal do Brasil). “Eles chamaram o resto”.

Rubem César reconhece que a iniciativa passou por muitas idas e vindas até se consolidar. E que se o Viva Rio ajudou a cidade a se reinventar, também se beneficia do momento favorável movido por descoberta do pré-sal, investimentos na cidade, grandes eventos (Rio+20, Jornada Mundial da Juventude, Copa das Confederações, Olimpíadas, Copa do Mundo).

Ele ainda vê com simpatia os movimentos recentes, como o Rio Como Vamos e o Eu Amo, Eu Cuido. “São iniciativas jovens e importantes”.

“O Brasil vive uma boa fase e o Rio simboliza essa recuperação do País. De exemplo de problema, está virando exemplo de solução. O Rio é um case de soluções para questões que pareciam insolúveis. E passou a ser novamente um sinalizador positivo para o Brasil”. Ele cita o Bope e as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora). “É curioso que a polícia do Rio tenha se tornado uma referência até internacional”. E ele cita experiências como o Favela-bairro e o trabalho da Comlurb, a empresa de limpeza urbana, nas favelas como exemplos de possibilidade de exportação de “know-how social”.

“O que o Rio viveu é um cenário frequente em várias partes do mundo, com países saindo de guerras civis, golpes de estado, e entrando em cenário de violência urbana potencializado por fragilidades institucionais. É comum na África, na América Central, em cidades muito grandes”.

Mas ele alerta que o momento positivo tem que ser aproveitado e que não dá para baixar a guarda. “Este início é promissor, mas há um risco de se perder no meio do caminho”. E que há muita coisa a se fazer. Ele diz que a política de integração social é aquém do necessário e que falta alinhamento de políticas públicas entre a capital e a região metropolitana. “E deveria haver mais descentralização da governança”.

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quinta-feira, 12 de julho de 2012 Entrevista | 09:22

Dicionário da Hinterlândia Carioca – o subúrbio pelo olhar de um sambista e historiador

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“Não conheço um único produto ou manifestação cultural que tenha se originado na zona sul do Rio. Nem a bossa nova, que é apenas um estilo de samba que floresceu na zona sul”, afirma o sambista e historiador Nei Lopes, 70 anos.

Para ele, a verdadeira alma carioca, conhecida para além das fronteiras da cidade e do País, nasceu no subúrbio. E com um livro ambicioso ele tenta não somente defender essa tese polêmica, mas dar evidências da riqueza cultural do que ele define como a hinterlândia carioca. “Quero dar uma derrubada nesse preconceito contra o subúrbio”, diz Nei.

Ele lança “Dicionário da Hinterlândia Carioca – Antigos Subúrbios e ‘Zona Rural’” pela Editora Pallas (R$ 69). Os verbetes abordam diversos temas ligados à essa hinterlândia, como culinária; atividades econômicas; bairros e localidades; brincadeiras e brinquedos; costumes; escolas de samba; história; linguagem; mitos; música e personalidades.

A própria opção pelo uso do termo hinterlândia em detrimento do mais usado subúrbio não foi por acaso. Ele diz que há um componente pejorativo que ele quis evitar e por isso optou por um termo mais técnico. Segundo o Houaiss, Hinterlândia é “o conjunto das terras situadas no interior (por oposição ao litoral)”. E também é a região afastada de áreas urbanas, ou, simplesmente, dos centros metropolitanos ou culturais mais importantes; interior”. “Foi uma opção científica para evitar essa flutuação de conceituação”, explica.

Trem e bonde

Mas mesmo essa hinterlândia segue uma lógica específica adotada pelo autor. Dela fazem parte 101 dos 160 bairros da cidade e 4.580.148 dos 6.320.446 habitantes do Rio de Janeiro. Obviamente ficam de fora a zona sul, Barra da Tijuca e o centro, mas também a Tijuca, a zona norte e outras áreas próximas do centro, como a Mangueira. A hinterlândia de Nei abarca o subúrbio tradicional, aquele que cresceu e se desenvolveu a partir das linhas de trem, dos ramais em direção à Baixada Fluminense. “Se a zona sul se desenvolveu a partir das linhas de bonde, o subúrbio cresceu na cola das linhas de trem”, observa Nei.

E o que essa hinterlândia carioca tem para mostrar? Muito, como evidencia Nei. A começar por tradições cultivadas lá que não migraram para a elitizada zona sul (ou estão presentes de forma menos ostensiva). Como a distribuição de doces para as crianças no dia de Cosme e Damião, as antigas brincadeiras de rua como soltar pipa, jogar bola de gude, rodar o pião. Ou a matança de porco, que Nei lembra de sua infância sem economia de detalhes sanguinolentos.

Nei não esconde as mazelas, com verbetes sobre as milícias, sobre a Fera da Penha (a comerciária que assassinou a filha pequena do amante, abalando a cidade) ou sobre a Roubauto (a popular feira livre clandestina em Acari).

A religiosidade é forte e há vários verbetes dedicados a ela. Nei fala da umbanda, do candomblé e de diversas igrejas. Foi na hinterlândia, aliás, que surgiu a Igreja Universal do Reino de Deus, criada em Del Castilho há 35 anos.

Poesia e música

Nas artes, o poeta Cruz e Souza, o escritor Lima Barreto, a atriz Fernanda Montenegro e o jornalista Millôr Fernandes são expoentes do subúrbio. Sem esquecer de Mussum, ídolo da criançada nos Trapalhões e que se tornou ícone pop da juventude da zona sul após a morte com uma infinidade de memes na internet.

Nei também cita personagens, livros e novelas ambientados na hinterlândia. Bentinho, o marido traído de Dom Casmurro, foi morar no Engenho Novo na velhice. E novelas como Bandeira Dois, Pecado Capital e Avenida Brasil (embora não citada), se passam no subúrbio. Ele aproveita para sentar a lenha na forma como seus tipos são retratados. “Essa dramaturgia televisiva é sempre pelo lado da caricatura e do estereótipo. Como se fosse tudo a mesma coisa”, diz ele. “Como se ninguém ouvisse jazz ou música clássica, como estou ouvindo agora”.

E por falar nisso, entre os músicos, obviamente, os notáveis vão de A de Aracy de Almeida a Z de Zeca Pagodinho. Passando por uma seleção da MPB com Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Guinga, Monarco, Dona Ivone Lara, Monarco, Clementina de Jesus, Elza Soares e indo a nomes mais recentes, como Marcelo D2.

Há perfis de escolas de samba, de agremiações e tradições ligadas ao Carnaval. Do bloco Cacique de Ramos à brincadeira de bate-bolas e à tradição do Clóvis (grupo de mascarados vestindo macacão colorido e capa bordada). O livro também trata de outras manifestações musicais fortes no subúrbio, como os bailes de charme.

É claro que alguns pontos são polêmicos. Caso da inclusão do verbete samba, que também não nasceu na hinterlândia. Foi na Praça 11 e no Estácio, regiões centrais. No dicionário, ele justifica: “Ao longo do século XX, o gênero se desenvolveu em diversos caminhos, subgêneros e estilos, mas conservou traços que o identificam como um típico produto do ambiente focalizado neste Dicionário, do qual foi, durante muitos anos, a grande expressão cultural”.

Campos de pelada

Futebol é parte importante da vida no subúrbio, nos campos de pelada da região surgiram jogadores como o goleiro da Copa de 50 Barbosa, Ademir da Guia e Domingos da Guia, Romário, Ronaldo, Carlos Alberto Torres, Dadá Maravilha, Adriano Imperador e Zico, que também traz no apelido uma certidão de origem: “Galinho de Quintino”. E vários times surgiram lá e tem verbetes no dicionário: Bonsucesso, Madureira, Bangu, Campo Grande.

E como o historiador da hinterlândia carioca vê a recente promoção da cidade a Patrimônio Mundial pela Unesco, baseada em muito no clichê glamorizado da zona sul carioca? “É uma estratégia de mercado com um preconceito. Não acho que a cidade seja isso tudo. Tem uma paisagem belíssima, mas com muita degradação. Mostra os cartões postais e esconde a favela, a poluição. É uma fantasia mercadológica”, opina.

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terça-feira, 8 de maio de 2012 Entrevista, Reportagem | 18:07

Com 3ª epidemia de dengue em 11 anos, Rio deve se preparar para conviver com doença

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O tipo 4 da dengue chegou ao Rio de Janeiro com força este ano. Com 62.601 mil casos notificados até 5 de maio, a cidade enfrenta sua terceira epidemia em 11 anos (as de 2002 e 2008 foram de outros tipos). E, infelizmente, não há nenhuma perspectiva de solução para evitar a repetição do problema nos próximos anos.

Mosquito da dengue

Mosquito da dengue, agora na versão tipo 4 (foto: reprodução)

“Não vai dar para erradicar a doença a curto, médio ou longo prazo”, avisa Giovanini Coelho, coordenador do Programa Nacional de Controle da Dengue, do Ministério da Saúde. “Só poderíamos evitar que as pessoas adoecessem com uma vacina, mas ela não existe ainda”.

Giovanini explica por que, quando se trata da dengue, o Rio de Janeiro está no topo das preocupações do ministério. “O Rio de Janeiro é a maior cidade tropical do País. Tem as condições climáticas e ambientais que favorecem a proliferação do mosquito. É quente, úmida e é um aglomerado urbano com alta densidade populacional”, afirma. Não foi à toa que as grandes epidemias com os tipos anteriores começaram pela cidade. Foram três epidemias em 11 anos na cidade. E cinco nos últimos 26 anos. Em 1986 e 1992 os cariocas também enfrentaram o problema.

Tire suas dúvidas sobre a dengue
Tire suas dúvidas sobre outras doenças

O coordenador do Programa Nacional de Controle da Dengue explica que muito da dinâmica da doença tem a ver com a infraestrutura urbana da cidade. E a fatores culturais e sócio-econômicos que favorecem a proliferação do mosquito. “É um mosquito que se prolifera preferencialmente em criadouros artificiais, como caixas d’água. Se não tivéssemos caixas d’água, como em países da Europa, onde elas são proibidas, esse fator deixaria de existir”, exemplifica.  E a falta de destino adequado para os dejetos, bem como para o lixo produzido pela cidade, também contribui para formação de criadouros potenciais.

Auge foi em março

Mas existem duas boas notícias. A primeira é que a incidência da doença está em queda. Embora a secretaria de Saúde tenha decretado a epidemia no final de abril, tecnicamente a situação foi pior em março, quando passou dos 300 casos por 100 mil habitantes por mês (foram 397,6/100 mil em março e 310,5/100 mil em abril). O auge foi registrado nas duas últimas semanas de março, com mais de 6 mil contaminações em cada uma. A segunda é que, comparativamente, a letalidade está baixa. Foram 15 mortos até agora (contra 62 e 147 óbitos nas epidemias anteriores).

Giovanini salienta que a magnitude dessa epidemia é diferente das anteriores. “Houve um aumento de casos em comparação a 2011, mas a situação epidêmica é mais tranquila”, afirma. Com base na análise de mais de 800 epidemias nos últimos 10 anos, ele acredita que o auge da doença já passou e que o número de casos tende a baixar muito. “Em geral leva 14 a 14 semanas e meia para atingir o pico. E nós passamos da 18ª”, explica. “Ainda mais com a temperatura caindo. O mosquito gosta de calor”.

A doença também é um fenômeno que não se manifesta de forma uniforme. Há regiões da cidade em que o problema é mais grave do que em outras. Notadamente Bangu e Realengo, na zona oeste, onde a incidência chegou a 1 em cada 100 moradores. A situação também é ruim em Madureira.

Redução da mortalidade

A baixa letalidade da doença é algo a ser comemorado. No caso do Rio ela se deve a alguns fatores. Primeiro é que o tipo 4 se mostrou menos agressivo do que outros, como o 2 – que está associado a número maior de casos graves e óbitos.

E segundo é que foi criada uma rede de atendimento especializado para tratar das vítimas e não congestionar a rede hospitalar. Afinal, a doença é de tratamento simples. “O Rio se preparou para isso. Foram montados 28 pólos de hidratação”, explica Giovanini.

A questão da redução da mortalidade é o principal foco das autoridades no momento. Do início do ano até agora foram 15 mortes por causa da dengue, no Rio. No mesmo período do ano passado o número de óbitos atingiu 39.

“Hoje é mais fácil prevenir a letalidade. As ferramentas de que dispomos não dão conta de impedir o surgimento da doença”, admite Giovanini, revelando que as autoridades, embora preocupadas com as epidemias, têm se esforçado mais para evitar os óbitos.

É uma questão simples de custo e benefício. Já que não dá para impedir a doença, é possível evitar a morte do doente. Não existem tecnologias ou drogas específicas para o tratamento. No entanto, para tratar a doença são necessários cuidados simples: hidratação (principalmente água e soro caseiro) e descanso (e evitar ingestão de aspirina). Além de uma capacidade de organização do poder público para garantir aos cidadãos o acesso a isso.

Já para diminuir a infestação é mais complicado. É preciso a mobilização das pessoas, combatendo focos de mosquitos nas próprias residências (o principal local de contaminação).

Como não erradicam o mosquito como no século passado?

Muita gente não entende como as autoridades públicas não conseguem resolver esse problema eliminando o mosquito, como fez o sanitarista Oswaldo Cruz no início do século passado. Mas quando ele erradicou a febre amarela da então capital federal a situação era outra. Foram usados até homens armados para forçar os cidadãos a abrir as casas para remover os criadouros dos mosquitos e para tomar a vacina.

Hoje seria impossível usar tal método. Além disso, existem duas outras diferenças significativas. Ainda não há vacina para a doença (há uma em teste e que pode ser homologada em dois anos, mas com cerca de 70% a 80% de eficiência). E no passado foi usado DDT – hoje aposentado por ser cancerígeno.

O que levanta outra polêmica. Mesmo o uso de inseticidas é visto com muita reserva por especialistas, pois os mosquitos acabam adquirindo resistência a eles. “É um problema sério. Principalmente o de uso residencial. Existem quatro opções para combater as larvas, mas para mosquitos adultos só existem dois tipos”, afirma Giovanini.

Sazonal e urbana

As epidemias como a atual são favorecidas por dois fatores: introdução de novos sorotipos em áreas onde eles não existiam; e a mudança de virus predominante. É o que ocorre no Rio. A epidemia atual é do vírus tipo 4 (84,7% dos casos). O curioso é que ele ficou 28 anos sem circular no País. O primeiro caso recente foi registrado em julho de 2010 em Roraima.

As referências sobre casos de dengue datam do século 19. No início do século passado, existem relatos sobre o aparecimento da doença em São Paulo, em 1916, e Niterói, em 1923. Mas a primeira epidemia documentada clinica e laboratorialmente ocorreu em Boa Vista, em 1981/1982.

Em 1986, houve a primeira grande epidemia nacional, atingindo o Rio de Janeiro e algumas capitais do Nordeste.

É importante ressaltar que a dengue é uma doença sazonal e urbana. Cerca de 70% dos casos ocorrem entre janeiro e maio. E grandes concentrações favorecem a epidemia.Em 1995, 1.753 municípios estavam infestados por Aedes aegypti, o mosquito transmissor. Em 2010 já eram 4.007 municípios. Este ano o Ministério da Saúde repassou verbas para 1.159 municípios enfrentarem o problema.

O Rio não é nem o município brasileiro em pior situação em 2012. Rio Branco (Acre), Araguaína e Palmas (Tocantins) vivenciaram uma incidência maior de casos por 100 mil habitantes. Nacionalmente, entretanto, o Ministério da Saúde informa que a situação apresenta uma melhora em relação ao ano passado. Até 18 de abril houve reduções de 51% nos casos notificados; de 90% nos casos graves confirmados; e de 82% no de óbitos.

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sexta-feira, 27 de abril de 2012 Entrevista, Reportagem | 16:14

Maior museu de arte naïf no mundo reabre após cinco anos fechado

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Nascido na França de uma família de origem judia polonesa, Lucien Finkelstein (1931-2008) chegou ao Rio de Janeiro sozinho, aos 16 anos, pouco após a Segunda Guerra acabar, sem falar uma palavra de português. Tinha passado o conflito escondido em uma casa no interior da França.

Exemplo de molas panamenhas exposta no Mian (foto: divulgação)

Exemplo de molas panamenhas exposta no Mian (foto: divulgação)

No Brasil, construiu uma família, um nome como joalheiro de reputação internacional e a maior coleção de arte naïf, que ele legou à cidade. O Museu Internacional de Arte Naïf fica no Cosme Velho, a poucos passos do bondinho do Corcovado, que leva ao Cristo Redentor.

“Ele achava que a arte naïf era a mais genuína de um povo. E o museu era o jeito dele para pagar uma dívida com a cidade que o tinha acolhido. Meu avô chegou aqui com uma mão na frente e a outra atrás, passando fome”, conta a educadora Tatiana Levy, que atua como gerente executiva do Mian.

Infelizmente, o museu ficou fechado durante cinco anos. Reabriu nesta sexta-feira (27), mostrando 250 obras em oito exposições. Uma delas é a panamenha “Molas”, que apresenta 15 telas com técnicas de sobreposição de tecidos feitas pelas índias da tribo Kuna.

A história do criador do museu

Lucien veio morar com os tios e começou a trabalhar na loja que vendia pedras e gemas brasileiras de propriedade do marido de sua tia, um imigrante judeu russo. Aprendeu português, virou atleta e chegou a competir pelo Fluminense em modalidades olímpicas como o arremesso de dardo.

Gostava de desenhar e pintar. Se encantou ao ver uma aquarela de Di Cavalcanti e um quadro de Heitor dos Prazeres na Livraria Francesa, em Copacabana. Daí nasceu o interesse pela arte naïf (também conhecida como arte primitiva moderna, ela se caracteriza por certa ingenuidade dos traços, por ter um caráter autodidata, não vinculado à qualquer corrente acadêmica formal).

Os Arcos da Lapa retratados pelo pintor Agostinho (foto: divulgação)

Os Arcos da Lapa retratados pelo pintor Agostinho (foto: divulgação)

Ao casar, Lucien resolveu criar uma joalheria e desenhar as próprias peças, valorizando um design próprio, em vez de apenas vender as gemas. Acabou descoberto por socialites como Teresa Souza Campos e foi catapultado para a capa da Manchete, importante revista de então.

Viveu seu auge profissional nos anos 50 e 60, quando uma pulseira fez parte do acervo da rainha Elizabeth II e criou uma coleção com Di Cavalcanti – de quem ficou amigo e passou a trocar quadros por joias. Pelo design de suas obras, acabou agraciado com o De Beers, o mais importante prêmio do mercado joalheiro mundial,.

Com o dinheiro das joias ele começou sua coleção. Colecionou durante 40 anos. E reuniu cerca de 6 mil obras de mais de 100 países. Teve que arranjar um apartamento para colocar o acervo. Em 1988, exibiu parte dele em uma exposição no Paço Imperial.

O sucesso levou ao desejo de montar um local para a exibição permanente. Ele comprou um casarão do século 19 no Cosme Velho para abrigar as obras. O Mian foi aberto em 1995, pelo esforço dele. O museu acabou recebendo uma verba municipal para o funcionamento, que foi cortada. Em 2007 ele foi fechado por falta de dinheiro para operar.

“O museu fechou em 2007 e meu avô morreu no ano seguinte de ataque cardíaco. Ele ficou deprimido e triste. Não conseguia entender como o governo não se interessava em manter na cidade um acervo tão significativo”, diz Tatiana. Ela conta que o avô tinha recebido convites para levar o acervo para outras instituições, mas queria que ficasse no Rio.

Entre 2007 e 2011, embora de portas fechadas, o museu ainda podia ser visitado por grupos que o contatassem. Em 2010, contudo, uma chuva destruiu o telhado e inundou a reserva técnica. Trezentos quadros foram danificados.

O painel "Rio de Janeiro, gosto de você, gosto dessa gente feliz...", de Lia Mittarakis, tem 4 x 7 metros (foto: divulgação)

O painel "Rio de Janeiro, gosto de você, gosto dessa gente feliz...", de Lia Mittarakis, tem 4 x 7 metros (foto: divulgação)

Em abril do ano passado o museu fechou completamente. A ajuda chegou com a Secretaria Municipal de Cultura, que liberou uma verba, e o Prince Claus Fund, instituição holandesa que preserva acervos pelo mundo e custeou a reforma do telhado e da reserva técnica.

O museu reabre reformado. Houve uma reforma museológica que privilegiou uma nova identidade visual e elementos de tecnologia com audioguias. No subsolo há uma videoinstalação em homenagem a Henri Rousseau, le douanier, francês precursor e nome mais conhecido da arte naïf no mundo.

Mas ainda tem muita coisa a fazer. A lojinha deve começar a funcionar este mês. O café ainda não tem prazo. A perspectiva do site é ficar pronto em maio. E Tatiana diz que é preciso restaurar a fachada do museu e que não há verba de manutenção básica para serviços de limpeza, conservação, jardim, gastos com luz, água… – a família ainda arca com isso.

“Queremos transformar o museu em uma instituição auto-sustentável. Mas ainda falta um caminho a percorrer”, diz Tatiana.

MUSEU INTERNACIONAL DE ARTE NAÏF (MIAN)
Rua Cosme Velho, 561 – Cosme Velho.
Funcionamento: de terça a sexta, das 10h às 18h; sábado, das 12h às 18h com agendamento prévio (até um dia antes).
Ingresso: R$ 16; crianças até 5 anos não pagam; R$ 8 (meia entrada), estudantes, menores de idade e maiores de 60 anos.
Telefone: (21) 2205-8612

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sexta-feira, 20 de abril de 2012 Entrevista, Reportagem | 16:44

Um ex-presidente de banco que investe reformando casarões em ruínas

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Como ex-presidente do BNDES, o economista Carlos Lessa foi responsável por gerenciar bilhões de reais de estímulo para empreendimentos que pudessem desenvolver o futuro do País. Como economista, preocupado com a gestão do próprio patrimônio, ele usa seus dinheiro preservando o passado carioca.

Ele é responsável por resgatar 11 imóveis antigos na região central da cidade. Preservando suas características arquitetônicas, viraram brasserie, livraria, pizzaria, botequim, casa de shows. São sobrados do século 19 em sua maioria. Um dos primeiros a ser resgatado, na rua do Rosário, Lessa acredita ter sido um dos primeiros bancos do Brasil sob d. João VI.

Carlos Lessa na rua do Mercado, onde restaurou sobrados antigos (foto: divulgação)

Carlos Lessa na rua do Mercado, onde restaurou sobrados antigos (foto: divulgação)

Sete casas estão alugadas e viraram empreendimentos comerciais. Duas estão ocupadas por familiares – e uma delas abriga sua biblioteca de 20 mil livros.

Sua última empreitada é o Ameno Resedá, um casarão arruinado que ele transformou em casa de shows e restaurante no Catete, bairro carregado de história a poucos metros do palacete que abrigou a Presidência até a transferência da capital para Brasília.

“O Catete tem uma simbologia muito grande. E ainda fica no pé da favela, na beira do asfalto”, afirma ele ao iG. Ao contrário dos outros empreeendimentos, este ele decidiu tocar pessoalmente.

É um caso de amor antigo com final feliz. Lessa havia comprado o casarão década atrás quando era diretor do Conselho Regional de Economia. O objetivo era fazer lá a Casa do Economista, um espaço de convívio da classe, com restaurante e livraria. A administração seguinte se opôs à ideia e vendeu o imóvel, que acabou nas mãos de uma igreja evangélica.

Como nasceu o interesse

Autor de 15 livros sobre economia e sobre o Brasil, Lessa tem um currículo extenso, que enche com folga uma página. Doutor em Economia pela Unicamp, é considerado um dos mais influentes economistas do País, foi reitor da UFRJ, a maior do País, e professor de diversas faculdades antes de se tornar presidente do BNDES no governo Lula.

Embora sempre tivesse tido curiosidade intelectual pela história do Rio, seu interesse pelo resgaste histórico tem origem em uma das atividades que exerceu. No início dos anos 90 ele foi coordenador do Plano Estratégico da cidade. Foi quando aproveitou para fazer um mergulho mais aprofundado na história.

“O Rio é uma metrópole linear. Você só pode ir de A para C passando por B. Os bairros são sequenciais. Em outras cidades você por ir de A para C por B, mas há outros caminhos. E em uma cidade octagonal, como São Paulo, há vários centros. E o centro do Rio estava morrendo. Seria acabar com o ponto de união dos cariocas da zona sul com os da zona norte. Esse encontro é importante para manter as características de cordialidade e convivialidade do carioca”.

Seu relatório do Plano Estratégico apontava isso. Mas havia um problema, que ele confessa. “Eu tinha vergonha de assinar aquilo. Minha família tinha dois imóveis inteiramente podres no centro do Rio, na rua do Rosário, que fediam, com esgoto a céu aberto. Se eu não recuperasse daria um atestado de hipocrisia”, admite.

Poder público é obstáculo

Os sobrados da família foram os primeiros. E ele ganhou gosto. Começaram a lhe oferecer todos os imóveis podres da rua. “Tinha até casa de tolerância que pertenceu a uma tal madame Lili”, confidencia ele.

E lamenta que o Rio não seja uma cidade que preserve mais sua própria memória. Sonha em fazer da Cinelândia (que ganhou esse nome pela quantidade de cinemas grandiosos que chegou a abrigar) uma Broadway brasileira.

Não que a recuperação de imóveis antigos em condição lastimável seja uma tarefa fácil. Antes de tudo é preciso fazer um levantamento de dívidas de IPTU, de contas não pagas de luz e água. Se há questões jurídicas e questionamentos de titularidade.

Ele lamenta que as autoridades municipais não ajudem como poderiam. Ele lista os três principais obstáculos que poderiam ser facilitados: identificação da titularidade (muitas vezes é difícil identificar os donos, às vezes há problemas legais com os espólios); acelerar o processo de licença; e ajudar a construção facilitando carga e descarga em ruas centrais e estreitas.

Na última obra, no Ameno Resedá, um deteriorado poste de luz na calçada ameaçava a fachada do casarão e impedia o início da reforma. Demorou um ano para que ele fosse removido. “Só quando a Justiça condenou à prisão o presidente da empresa e estipulou uma multa, que não foi paga até hoje”, conta Lessa.

E quando há incentivos, eles são difíceis de tirar do papel. A isenção de imposto para recuperar um imóvel antigo é um exemplo. “É a maior dificuldade conseguir essa isenção da Prefeitura. É muito obstáculo”, lamenta ele que diz que não há apoio nem para coisas elementares como remoção de entulho.

E esses obstáculos não estão apenas na esfera pública. A modernidade acabou condenando diversas especializações profissionais. É dificílimo encontrar um mestre gesseiro ou outros artesãos para fazer uma restauração adequada.

Investimento fabuloso

Fachada do Ameno Resedá, o casarão reformado e transformado em casa de shows (foto: divulgação/Kita Pedroza)

Fachada do Ameno Resedá, o casarão reformado e transformado em casa de shows (foto: divulgação/Kita Pedroza)

Apesar de tudo isso, o ex-presidente do BNDES afirma que esses empreendimentos são também um ótimo investimento financeiro e se surpreende que não existam mais investidores fazendo o mesmo. Ele avalia que há diversas áreas do Rio que estão subvalorizadas e mal utilizadas. Ele cita a quantidade de imóveis abandonados na avenida Brasil, estrategicamente ligando o centro à rodovias importantes como a Dutra.

“Comprar um imóvel destruído no centro e recuperar é uma aplicação patrimonial muito boa. É um investimento fabuloso comprar muito barato e gastar uma pequena fortuna restaurando. Mas dá um trabalho infernal, se amola uma barbaridade. É importante bolar um uso para o imóvel antes da reforma, imaginar para o que será usado. E é preciso paciência e não confiar no poder público. Ele não vai ajudar”, resume ele, que não revela cifras pagas pelos imóveis, quanto gasta nas reformas, nem o rendimento obtido com os aluguéis.

O Ameno Resedá é o ponto culminante desse processo. E tem uma história curiosa. Foi um rancho, uma espécie de precursor dos blocos carnavalescos, criado em 1907. E com vários detalhes típicos do ecumenismo carioca, como aponta Lessa. “Era uma atividade profana que começou com patrocínio da Igreja da Glória. E uma vez foram parar dentro do Palácio do Catete, se apresentando para o presidente, com um enredo sobre belzebu”, diverte-se.

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sexta-feira, 13 de abril de 2012 Entrevista, Reportagem | 15:57

Entulho, poeira, lama e mítica na visita às obras do Maracanã

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Após 1 ano e 7 meses fechado para a reforma que o deixará pronto para a Copa do Mundo de 2014, o Maracanã será reaberto ao público neste sábado (14). Mas nada das grandes multidões que acorriam para ver os clássicos naquele que já foi o maior estádio de futebol do mundo. Serão visitas guiadas com cinco grupos pequenos, de 50 pessoas, uma vez por mês.

Vista aérea da obra de reforma do Maracanã (Foto: divulgação/Angular Fotografias Aéreas)

Vista aérea da obra de reforma do Maracanã (Foto: divulgação/Angular Fotografias Aéreas)

E quem entrar em campo não verá vestígio do gramado em que Pelé estreou pela seleção brasileira; onde ele marcou seu milésimo gol; onde o Brasil foi derrotado pelo Uruguai em 1950, palco de alguns dos maiores momentos do futebol.

No centro do empoeirado campo de terra, entre poças de lama, jaz uma considerável montanha de entulho; nas laterais, quatro gruas e um guindaste capaz de carregar 800 toneladas, rodeados por tratores, caminhões e alguns dos 5.200 operários que tentam – em dois turnos de 10 horas, sete dias na semana – finalizar a obra em fevereiro do próximo ano, a tempo para a Copa das Confederações, em junho, e para os sete jogos que sediará em 2014, incluindo a final.

VEJA TAMBÉM: Cinco estádios da Copa 2014 têm mais de 50% das obras concluídas

É uma corrida contra o relógio. Palco de jogos de futebol, de shows de Frank Sinatra, Paul McCartney, KISS, Madonna, Rolling Stones e de duas missas do papa João Paulo II, o Maracanã foi reduzido a seu esqueleto e começa agora a ganhar corpo. Em 31 de março, com a demolição e a recuperação estrutural praticamente encerradas,  tinha 45% do projeto concluído.

O maior do mundo reduzido à metade

Quando o Maracanã ficar pronto, os engenheiros garantem que, do lado de fora, quase não se perceberá a diferença. A fachada é tombada pelo patrimônio histórico. Já dentro… As mudanças começam pela capacidade. Ela será reduzida à metade da original, de 166.639 espectadores passará a pouco menos de 80 mil. Mais de 100 mil a menos do que o famoso recorde obtido em 1969 durante um jogo da seleção brasileira contra o Paraguai durante as eliminatórias da Copa de 70: 183.341 pessoas. Mas a diferença não é tanta se comparada aos 87 mil lugares que ele tinha ao ser fechado.

“Hoje é impossível assistir um jogo como se fazia antigamente. As pessoas assistiam de pé (no setor da geral), sem qualquer conforto. A legislação mudou, a preocupação com a segurança aumentou”, explica Ícaro Moreno, presidente da Emop (Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio), que coordena o consórcio responsável pela reforma do Maracanã (formado por Andrade Gutierrez, Delta e Odebrecht).

As arquibancadas vistas do meio do campo

As arquibancadas vistas do meio do campo (Foto: LAR)

Quem olha para a quantidade de escombros, nas mudanças necessárias para modernizar o Maracanã e pensa no valor gasto na obra (foi inicialmente estimada em R$ 705 milhões e está em R$ 860 milhões) imagina se não seria mais fácil, mais rápido e mais barato construir um estádio do zero.

Só de entulho removido até março – não contando, portanto, o que jaz no centro do campo – foram 42.744,17 metros cúbicos. Se cada metro cúbico fosse empilhado um em cima do outro poderiam ser erguidas cinco pilhas do tamanho do Everest, a maior montanha do mundo.

“Seria mais fácil e mais barato demolir tudo e construir um novo, como foi feito em Wembley, em Londres”, reconhece ícaro, que disse que a reforma foi a maneira de preservar a história e um bem tombado.

Estádio tinha 3.200 tipos de degrau

As dificuldades foram variadas, segundo ele. A situação estrutural estava pior do que a imaginada. Os pilares estavam desgastados, as marquises tiveram que ser destruídas. Havia muita corrosão e o material usado era muito poroso.

Até o formato elípitico do estádio – em vez de retangular, quadrado ou redondo, como os mais modernos – foi um fator de complicação. “Por conta disso, encontramos 3.200 tipos de degrau, exemplifica.

Partes do velho estádio permanecerão. A arquibancada superior nos setores norte e sul (atrás de cada gol) serão preservadas, por exemplo. “Conseguimos manter um estádio que é um ícone, sem descaracterizá-lo e modernizando ele. Continua sendo um estádio de futebol, mas também vai ser uma arena multiuso”, diz. “A empada é a mesma, mas mudamos o recheio”, brinca ele.

VEJA FOTOS DA REFORMA DO MARACANÃ

Ícaro fez um passeio guiado pela obra com o iG para mostrar como está o estádio e o que os visitantes poderão ver. O campo será encolhido. Serão menos cinco metros de comprimento e sete a menos na largura. As quatro linhas do gramado ficarão contidas em 105m x 68m.

Em compensação, o público ficará bem mais próximo do espetáculo. A distância da primeira fileira para a linha lateral cai pela metade. Ficará a 12 metros. A visibilidade será de 100% e os camarotes ficarão mais próximos do gramado e mais integrados com o resto da torcida.

O sistema de som e de iluminação será computadorizado, lounges serão climatizados. Haverá mais banheiros (231) e bares (60), além de quatro videowalls de 100 metros quadrados.

Cobertura inédita

Imagem de como será a nova cobertura de lona tensionada (Foto: Divulgação)

Imagem de como será a nova cobertura de lona tensionada (Foto: Divulgação)

A nova cobertura, de lona tensionada, uma tecnologia alemã nunca usada no País, protegerá mais o público, que também sofrerá bem menos com as vibrações na arquibancada. “O Maracanã vibrava muito. Na época em que foi feito não tinha cálculo estrututal para isso”, explica o presidente da Emop.

O levantamento da cobertura, aliás, é a principal preocupação. Está marcado para setembro. E não pode haver erro no tensionamento dela, que será coordenado por técnicos alemães. “Nem temos calculistas no Brasil que façam isso”, diz ícaro.

Na reforma há também uma preocupação ecológica – exigência da Fifa. O Maracanã terá um sistema de captação de energia solar no topo do anel superior e irá reaproveitar a água da chuva. O objetivo é receber uma certificação de estádio verde.

Parte dessas mudanças poderão ser entendidas pelos visitantes com o vídeo que será exibido no início do passeio, que terá uma hora de duração. Ele mostra de forma concisa algumas das alterações e melhorias usando uma maquete eletrônica.

Depois, paramentados com capacetes de proteção, as pessoas serão levadas ao centro do campo, no meio do canteiro de obras, para ver a reforma, ouvir explicações sobre o projeto, tirar fotos e dúvidas. Mas é bom correr. Mesmo antes do início da visitação já há mais de mil inscritos.

Serviço das visitas ao Maracanã:

– As visitas serão agendadas.
– Interessados devem enviar email para: visitaguiada@maracanario2014.com.br
– Elas serão realizadas no primeiro sábado de cada mês. A próxima será no dia 5 de maio.
– As visitas acontecerão de hora em hora, das 8h às 13h, em grupos de no máximo 50 pessoas.
– A idade mínima para a visita é 10 anos.
– Por segurança, não será permitida a entrada com bermuda, saia, sandália, sapatilha, tênis e salto alto.

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