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quinta-feira, 12 de julho de 2012 Entrevista | 09:22

Dicionário da Hinterlândia Carioca – o subúrbio pelo olhar de um sambista e historiador

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“Não conheço um único produto ou manifestação cultural que tenha se originado na zona sul do Rio. Nem a bossa nova, que é apenas um estilo de samba que floresceu na zona sul”, afirma o sambista e historiador Nei Lopes, 70 anos.

Para ele, a verdadeira alma carioca, conhecida para além das fronteiras da cidade e do País, nasceu no subúrbio. E com um livro ambicioso ele tenta não somente defender essa tese polêmica, mas dar evidências da riqueza cultural do que ele define como a hinterlândia carioca. “Quero dar uma derrubada nesse preconceito contra o subúrbio”, diz Nei.

Ele lança “Dicionário da Hinterlândia Carioca – Antigos Subúrbios e ‘Zona Rural’” pela Editora Pallas (R$ 69). Os verbetes abordam diversos temas ligados à essa hinterlândia, como culinária; atividades econômicas; bairros e localidades; brincadeiras e brinquedos; costumes; escolas de samba; história; linguagem; mitos; música e personalidades.

A própria opção pelo uso do termo hinterlândia em detrimento do mais usado subúrbio não foi por acaso. Ele diz que há um componente pejorativo que ele quis evitar e por isso optou por um termo mais técnico. Segundo o Houaiss, Hinterlândia é “o conjunto das terras situadas no interior (por oposição ao litoral)”. E também é a região afastada de áreas urbanas, ou, simplesmente, dos centros metropolitanos ou culturais mais importantes; interior”. “Foi uma opção científica para evitar essa flutuação de conceituação”, explica.

Trem e bonde

Mas mesmo essa hinterlândia segue uma lógica específica adotada pelo autor. Dela fazem parte 101 dos 160 bairros da cidade e 4.580.148 dos 6.320.446 habitantes do Rio de Janeiro. Obviamente ficam de fora a zona sul, Barra da Tijuca e o centro, mas também a Tijuca, a zona norte e outras áreas próximas do centro, como a Mangueira. A hinterlândia de Nei abarca o subúrbio tradicional, aquele que cresceu e se desenvolveu a partir das linhas de trem, dos ramais em direção à Baixada Fluminense. “Se a zona sul se desenvolveu a partir das linhas de bonde, o subúrbio cresceu na cola das linhas de trem”, observa Nei.

E o que essa hinterlândia carioca tem para mostrar? Muito, como evidencia Nei. A começar por tradições cultivadas lá que não migraram para a elitizada zona sul (ou estão presentes de forma menos ostensiva). Como a distribuição de doces para as crianças no dia de Cosme e Damião, as antigas brincadeiras de rua como soltar pipa, jogar bola de gude, rodar o pião. Ou a matança de porco, que Nei lembra de sua infância sem economia de detalhes sanguinolentos.

Nei não esconde as mazelas, com verbetes sobre as milícias, sobre a Fera da Penha (a comerciária que assassinou a filha pequena do amante, abalando a cidade) ou sobre a Roubauto (a popular feira livre clandestina em Acari).

A religiosidade é forte e há vários verbetes dedicados a ela. Nei fala da umbanda, do candomblé e de diversas igrejas. Foi na hinterlândia, aliás, que surgiu a Igreja Universal do Reino de Deus, criada em Del Castilho há 35 anos.

Poesia e música

Nas artes, o poeta Cruz e Souza, o escritor Lima Barreto, a atriz Fernanda Montenegro e o jornalista Millôr Fernandes são expoentes do subúrbio. Sem esquecer de Mussum, ídolo da criançada nos Trapalhões e que se tornou ícone pop da juventude da zona sul após a morte com uma infinidade de memes na internet.

Nei também cita personagens, livros e novelas ambientados na hinterlândia. Bentinho, o marido traído de Dom Casmurro, foi morar no Engenho Novo na velhice. E novelas como Bandeira Dois, Pecado Capital e Avenida Brasil (embora não citada), se passam no subúrbio. Ele aproveita para sentar a lenha na forma como seus tipos são retratados. “Essa dramaturgia televisiva é sempre pelo lado da caricatura e do estereótipo. Como se fosse tudo a mesma coisa”, diz ele. “Como se ninguém ouvisse jazz ou música clássica, como estou ouvindo agora”.

E por falar nisso, entre os músicos, obviamente, os notáveis vão de A de Aracy de Almeida a Z de Zeca Pagodinho. Passando por uma seleção da MPB com Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Guinga, Monarco, Dona Ivone Lara, Monarco, Clementina de Jesus, Elza Soares e indo a nomes mais recentes, como Marcelo D2.

Há perfis de escolas de samba, de agremiações e tradições ligadas ao Carnaval. Do bloco Cacique de Ramos à brincadeira de bate-bolas e à tradição do Clóvis (grupo de mascarados vestindo macacão colorido e capa bordada). O livro também trata de outras manifestações musicais fortes no subúrbio, como os bailes de charme.

É claro que alguns pontos são polêmicos. Caso da inclusão do verbete samba, que também não nasceu na hinterlândia. Foi na Praça 11 e no Estácio, regiões centrais. No dicionário, ele justifica: “Ao longo do século XX, o gênero se desenvolveu em diversos caminhos, subgêneros e estilos, mas conservou traços que o identificam como um típico produto do ambiente focalizado neste Dicionário, do qual foi, durante muitos anos, a grande expressão cultural”.

Campos de pelada

Futebol é parte importante da vida no subúrbio, nos campos de pelada da região surgiram jogadores como o goleiro da Copa de 50 Barbosa, Ademir da Guia e Domingos da Guia, Romário, Ronaldo, Carlos Alberto Torres, Dadá Maravilha, Adriano Imperador e Zico, que também traz no apelido uma certidão de origem: “Galinho de Quintino”. E vários times surgiram lá e tem verbetes no dicionário: Bonsucesso, Madureira, Bangu, Campo Grande.

E como o historiador da hinterlândia carioca vê a recente promoção da cidade a Patrimônio Mundial pela Unesco, baseada em muito no clichê glamorizado da zona sul carioca? “É uma estratégia de mercado com um preconceito. Não acho que a cidade seja isso tudo. Tem uma paisagem belíssima, mas com muita degradação. Mostra os cartões postais e esconde a favela, a poluição. É uma fantasia mercadológica”, opina.

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5 comentários | Comentar

  1. 55 Raul 24/07/2012 17:15

    A matéria é excelente e o Nei Lopes é uma lenda ou sei lá qual outro adjetivo usar… Ele é sensacional!! Não criaram ainda um elogio para alguém como “Ele”!

    Mas, meu caro Luis Antonio Ryff quando você citou “…Passando por uma seleção da MPB com Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Guinga, Monarco, Dona Ivone Lara, Monarco, Clementina de Jesus, Elza Soares e indo a nomes mais recentes, como Marcelo D2.”

    Não está correto dizer que é um seleção da MPB quando cita nomes como Dona Ivone Lara, Pixinguinha, Monarco, Clementina de Jesus e outros. O certo seria “e passando por SAMBISTAS que também arrebentaram na MPB…”

    SAMBISTA é um título honorífico que o “pessoal” ai em cima com certeza faz questão de carregar!

  2. 54 José Tadeu Almeida Pinto 12/07/2012 21:55

    PARABÉNS NEI LOPES, PELA SUA VISÃO BRILHANTE, REALISTA E VERDADEIRA DO RIO DE JANEIRO!!!

  3. 53 Zé Marcos 12/07/2012 20:17

    Como sempre sem “papas” na lingua, brilhante.

  4. 52 FERNANDO JR 12/07/2012 19:29

    Valeu Nei, chega de maquiar a Cidade RJ. Suburbio neles…… fala do festival de ensopado em
    Irajá… saudades..
    DEUS TE ABENÇOE.

  5. 51 shirlei horta 12/07/2012 16:08

    Hinterlândia? Nunca tinha ouvido e não gostei. Subúrbio é muito mais bonito, latino, a cara do Rio. Hinternãoseioquelá é pra inglês ver. Uma pena, porque falta mesmo literatura – de todo tipo – a respeito do Rio não-Leblon.

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