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Arquivo de julho, 2012

quinta-feira, 26 de julho de 2012 Nota | 12:05

Fotógrafo da Magnum lança ‘novela visual’ ambientada no Rio

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David Alan Harvey é um fotógrafo norte-americano renomado mundialmente. Pertence aos quadros da agência Magnum – a famosa cooperativa fundada por Henri Cartier Bresson e Robert Capa – é colaborador frequente da National Geographic, do New York Times, já expôs no Moma e ganhou o prêmio de fotógrafo do ano pela National Press Photographers Association em 1978. Também é o criador e editor da Burn Magazine, uma publicação online que mostra o seu trabalho e o de fotógrafos emergentes. Mas em sua página no Facebook ele se define como “fotógrafo, mentor, editor e agente secreto”.

Pois o último trabalho de DAH é dedicado ao Rio de Janeiro, uma de suas paixões. “(based on a true story)” (editado pela BurnBooks) é um ensaio diferente sobre a cidade. É uma novela visual que se passa no Rio, mas não é sobre o Rio. Virou livro de arte. Mas antes foi um projeto online de crowfunding (com o nome de “The Rio Book”). Bryan Harvey, seu filho, fez um belo e curto vídeo (em inglês) mostrando DAH trabalhando no projeto e em que ele fala da importância da conexão de um fotógrafo com o tema de seu trabalho.

E conta que há dois tipos de fotógrafos, aqueles que olham pela janela para o mundo e aqueles que olham para o espelho. “E para mim. Estar no Rio, com certeza, é olhar para o espelho”, diz DAH.

Aqueles que contribuíram com projeto enquanto ele estava sendo feito podiam acompanhar a feitura do trabalho e poderiam comprar o livro a um preço mais em conta, pois a obra não pode ser considerara barata. São 600 cópias numeradas, impressas na Itália em papel Fedrigoni Splendorgel Extra White 160gr. Os preços variam. Os primeiros exemplares foram vendidos a US$ 95. Os últimos saem a US$ 192.

Imagens do livro "(based on a true story)", do fotógrafo norte-americano David Alan Harvey (reprodução)

No livro, DAH mostra vários Rios. Vai dos bailes de gala do Copa até o subúrbio de Coelho Neto. De um treino do Bope na favela Tavares Bastos a prosaicos salsichões na chapa de algum ambulante. E há imagens de rapazes jogando altinho, de crianças antes do desfile de Carnaval, dos arredores do Sambódromo, de comércio popular e de jovens armados e com drogas em vielas de uma favela.

A primeira capa traz a imagem do desenho das pedras portuguesas no calçamento da praia de Ipanema. No interior do livro, as imagens, mesmo quando abordam clichês (como as garotas de biquini na praia, cerimônias religiosas de origem africana, a beleza natural da cidade), vão além deles.

Um outro vídeo dá uma mostra de como é “(based on a true story)” e como sua “leitura” não é necessariamente linear. “Há mais de uma maneira de ler esta novela”, avisa DAH em um cartão-postal em anexo. Há um jogo entre as imagens, como se ela interagissem umas com as outras.

Não há quase texto. As imagens estão ali para interpretação de cada um. Um livro que pode ser descontruído e construído novamente (como não tem costura, aliás, as páginas são destacáveis). É um quebra-cabeça que pode ser montado de diversas formas.

Harvey passou dois anos e meio fotografando a cidade para criar “uma narrativa de inspiração jornalistica”. Que ele mesmo chama de “novela”. Ele diz que se inspirou no jornalista gonzo Hunter S. Thompson, e nos cineastas David Lynch e Joel e Ethan Coen para a atmosfera do trabalho. Certamente em suas fotos do Rio há um quê de féerico e de hiper-realista.

Ele é autor de outros livros: “Tell It Like It Is”, Living Proof”, “Cuba: Island at a Crossroad” e “Divided Soul”. E parte desse seu trabalho sobre o Rio deve ser editado e publicado na edição de outubro da National Geographic nos EUA (onde já publicou mais de 40 ensaios).

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quinta-feira, 12 de julho de 2012 Entrevista | 09:22

Dicionário da Hinterlândia Carioca – o subúrbio pelo olhar de um sambista e historiador

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“Não conheço um único produto ou manifestação cultural que tenha se originado na zona sul do Rio. Nem a bossa nova, que é apenas um estilo de samba que floresceu na zona sul”, afirma o sambista e historiador Nei Lopes, 70 anos.

Para ele, a verdadeira alma carioca, conhecida para além das fronteiras da cidade e do País, nasceu no subúrbio. E com um livro ambicioso ele tenta não somente defender essa tese polêmica, mas dar evidências da riqueza cultural do que ele define como a hinterlândia carioca. “Quero dar uma derrubada nesse preconceito contra o subúrbio”, diz Nei.

Ele lança “Dicionário da Hinterlândia Carioca – Antigos Subúrbios e ‘Zona Rural’” pela Editora Pallas (R$ 69). Os verbetes abordam diversos temas ligados à essa hinterlândia, como culinária; atividades econômicas; bairros e localidades; brincadeiras e brinquedos; costumes; escolas de samba; história; linguagem; mitos; música e personalidades.

A própria opção pelo uso do termo hinterlândia em detrimento do mais usado subúrbio não foi por acaso. Ele diz que há um componente pejorativo que ele quis evitar e por isso optou por um termo mais técnico. Segundo o Houaiss, Hinterlândia é “o conjunto das terras situadas no interior (por oposição ao litoral)”. E também é a região afastada de áreas urbanas, ou, simplesmente, dos centros metropolitanos ou culturais mais importantes; interior”. “Foi uma opção científica para evitar essa flutuação de conceituação”, explica.

Trem e bonde

Mas mesmo essa hinterlândia segue uma lógica específica adotada pelo autor. Dela fazem parte 101 dos 160 bairros da cidade e 4.580.148 dos 6.320.446 habitantes do Rio de Janeiro. Obviamente ficam de fora a zona sul, Barra da Tijuca e o centro, mas também a Tijuca, a zona norte e outras áreas próximas do centro, como a Mangueira. A hinterlândia de Nei abarca o subúrbio tradicional, aquele que cresceu e se desenvolveu a partir das linhas de trem, dos ramais em direção à Baixada Fluminense. “Se a zona sul se desenvolveu a partir das linhas de bonde, o subúrbio cresceu na cola das linhas de trem”, observa Nei.

E o que essa hinterlândia carioca tem para mostrar? Muito, como evidencia Nei. A começar por tradições cultivadas lá que não migraram para a elitizada zona sul (ou estão presentes de forma menos ostensiva). Como a distribuição de doces para as crianças no dia de Cosme e Damião, as antigas brincadeiras de rua como soltar pipa, jogar bola de gude, rodar o pião. Ou a matança de porco, que Nei lembra de sua infância sem economia de detalhes sanguinolentos.

Nei não esconde as mazelas, com verbetes sobre as milícias, sobre a Fera da Penha (a comerciária que assassinou a filha pequena do amante, abalando a cidade) ou sobre a Roubauto (a popular feira livre clandestina em Acari).

A religiosidade é forte e há vários verbetes dedicados a ela. Nei fala da umbanda, do candomblé e de diversas igrejas. Foi na hinterlândia, aliás, que surgiu a Igreja Universal do Reino de Deus, criada em Del Castilho há 35 anos.

Poesia e música

Nas artes, o poeta Cruz e Souza, o escritor Lima Barreto, a atriz Fernanda Montenegro e o jornalista Millôr Fernandes são expoentes do subúrbio. Sem esquecer de Mussum, ídolo da criançada nos Trapalhões e que se tornou ícone pop da juventude da zona sul após a morte com uma infinidade de memes na internet.

Nei também cita personagens, livros e novelas ambientados na hinterlândia. Bentinho, o marido traído de Dom Casmurro, foi morar no Engenho Novo na velhice. E novelas como Bandeira Dois, Pecado Capital e Avenida Brasil (embora não citada), se passam no subúrbio. Ele aproveita para sentar a lenha na forma como seus tipos são retratados. “Essa dramaturgia televisiva é sempre pelo lado da caricatura e do estereótipo. Como se fosse tudo a mesma coisa”, diz ele. “Como se ninguém ouvisse jazz ou música clássica, como estou ouvindo agora”.

E por falar nisso, entre os músicos, obviamente, os notáveis vão de A de Aracy de Almeida a Z de Zeca Pagodinho. Passando por uma seleção da MPB com Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Guinga, Monarco, Dona Ivone Lara, Monarco, Clementina de Jesus, Elza Soares e indo a nomes mais recentes, como Marcelo D2.

Há perfis de escolas de samba, de agremiações e tradições ligadas ao Carnaval. Do bloco Cacique de Ramos à brincadeira de bate-bolas e à tradição do Clóvis (grupo de mascarados vestindo macacão colorido e capa bordada). O livro também trata de outras manifestações musicais fortes no subúrbio, como os bailes de charme.

É claro que alguns pontos são polêmicos. Caso da inclusão do verbete samba, que também não nasceu na hinterlândia. Foi na Praça 11 e no Estácio, regiões centrais. No dicionário, ele justifica: “Ao longo do século XX, o gênero se desenvolveu em diversos caminhos, subgêneros e estilos, mas conservou traços que o identificam como um típico produto do ambiente focalizado neste Dicionário, do qual foi, durante muitos anos, a grande expressão cultural”.

Campos de pelada

Futebol é parte importante da vida no subúrbio, nos campos de pelada da região surgiram jogadores como o goleiro da Copa de 50 Barbosa, Ademir da Guia e Domingos da Guia, Romário, Ronaldo, Carlos Alberto Torres, Dadá Maravilha, Adriano Imperador e Zico, que também traz no apelido uma certidão de origem: “Galinho de Quintino”. E vários times surgiram lá e tem verbetes no dicionário: Bonsucesso, Madureira, Bangu, Campo Grande.

E como o historiador da hinterlândia carioca vê a recente promoção da cidade a Patrimônio Mundial pela Unesco, baseada em muito no clichê glamorizado da zona sul carioca? “É uma estratégia de mercado com um preconceito. Não acho que a cidade seja isso tudo. Tem uma paisagem belíssima, mas com muita degradação. Mostra os cartões postais e esconde a favela, a poluição. É uma fantasia mercadológica”, opina.

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domingo, 8 de julho de 2012 Nota | 07:54

A mística do Fla-Flu em 11 lances de Nelson Rodrigues

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Hoje, como definiu Lamartine Babo na letra do hino do Flamengo, é dia de “ai, Jesus”. É dia de Fla-Flu. Mas não um qualquer. É o do centenário.

Se o Flamengo nasceu de uma dissidência do Fluminense, quando nove jogadores do time das Laranjeiras deixaram o clube para fundar o futebol no clube de regatas, a rivalidade do clássico foi crescendo aos poucos. Os principais responsáveis foram dois irmãos: o jornalista Mário Filho e o dramaturgo Nelson Rodrigues.

Leia a cobertura especial do iG sobre o Fla-Flu centenário
Relembre os 10 maiores clássicos do Fla-Flu
A rivalidade em números
Famosos tomam partido em rivalidade centenária

Rubro-negro, Mario inventou o termo Fla-Flu em 1933. Tricolor, Nelson escreveu crônicas e cunhou diversas frases e expressões que ajudaram a tornar o embate o mais famoso da história do futebol brasileiro.

Não me atrevo a fazer um prognóstico sobre o jogo do centenário. Afinal, como já disse Nelson, no Fla-Flu acontecem coisas que escapariam a vidência até de um Maomé, até de um Moisés de Cecil B. de Mille.

Leia, abaixo, onze exemplos de frases de Nelson sobre o jogo:

“O Fla-Flu não tem começo. O Fla-Flu não tem fim. O Fla-Flu começou quarenta minutos antes do nada. E aí então as multidões despertaram.”

“Um dia, houve uma dissidência no Fluminense. Eu gostaria de saber que gesto, ou palavra, ou ódio deflagrou a crise. Imagino bate-bocas homicidas. E não sei quantos Tricolores saíram para fundar o Flamengo. Hoje, nos grandes jogos, o Estádio Mário Filho é inundado pela multidão rubro negra. O Flamengo tornou-se uma força da natureza e, repito, o Flamengo venta, chove, troveja, relampeja. Eis o que eu pergunto: – Os gatos pingados que se reuniram, numa salinha imaginavam as potencialidades que estavam liberando?.”

“Vejam como, histórica e psicologicamente, esse primeiro resultado seria decisivo. Se o Flamengo tivesse ganho, a rivalidade morreria, ali, de estalo. Mas a vitória tricolor gravou-se na carne e na alma flamengas. E sempre que os dois se encontram é como se o fizessem pela primeira vez.”

“Há um parentesco óbvio entre o Fluminense e o Flamengo. E como este se gerou no ressentimento, eu diria que os dois são os irmãos Karamazov do futebol brasileiro.”

“Cada brasileiro, vivo ou morto, já foi Flamengo por um instante, por um dia.”

“Desta coluna, eu já fiz um apelo aos tricolores, vivos ou mortos. Ninguém pode faltar ao Maracanã domingo. Incluí os fantasmas na convocação, e explico: a morte não exime ninguém de seus deveres clubísticos. Em certos clássicos, cada adversário arrisca o passado, o presente e o futuro. Precisamos pensar nos títulos já possuídos. Ai do clube que não cultiva santas nostalgias. Com os torcedores de hoje e os fantasmas de velhíssimos triunfos: ganharemos o mais dramático Fla-Flu de todos os tempos.”

“O tricolor é o melhor, foi o melhor, teve mais time. Mas há, claro, uma campeão oficial, que é o Flamengo. E, aqui, abro um capítulo para falar da alegria rubro-negra, santa alegria que anda solta pela cidade. Nada é mais bonito do que a euforia da massa flamenga. À saída do estádio, eu vi um crioulão arrancar a camisa diante do meu carro. Seminu como um São Sebastião, ele dava arrancos medonhos. Do seu lábio, pendia a baba elástica e bovina do campeão.”

“Amigos, a humildade acaba aqui. Desde ontem o Fluminense é o campeão da cidade. No maior Fla-Flu de todos os tempos, o tricolor conquistou a sua mais bela vitória. E foi também o grande dia do Estádio Mário Filho. A massa “pó-de-arroz” teve o sentimento do triunfo. Aconteceu, então, o seguinte: — vivos e mortos subiram as rampas. Os vivos saíram de suas casas e os mortos de suas tumbas. E, diante da platéia colossal, Fluminense e Flamengo fizeram uma dessas partidas imortais.”

“Eu queria dizer que o Fla-Flu apaixona até os neutros.”

“Cada jogo entre o Fluminense e o Flamengo parece ser o maior do século e será assim eternamente.”

“O Fla-Flu, já me dizia o meu irmão Mário Filho, o Fla-Flu é um jogo para sempre, não é um jogo para um século, um século é muito pouco para a sede e a fome do Fla-Flu.”

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quinta-feira, 5 de julho de 2012 Nota | 17:32

Sexo, religião, pitangas e outras curiosidades nos 120 anos de Copacabana

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Copacabana faz 120 anos nesta sexta-feira. O batismo de sua urbanização é a abertura do Túnel Velho (oficialmente Alaor Prata), em 6 de julho de 1892, quando foi possível ir de Botafogo para Copacabana sem ter que subir os morros que isolavam a região. O túnel foi aberto pela Companhia Jardim Botânico, de bondes, não sem muita discussão entre seus acionistas, contrários a que “se gastasse tanto para levar os trilhos da companhia a um areal onde só havia araçás e pitangas”.

Para convencer os cariocas a percorrerem o trajeto, entre muitos estratagemas, a empresa apelava até para quadrinhas impressas nos versos dos bilhetes de bonde.

“Pedem vossos pulmões ar salitrado
Correi, antes que a tísica os algeme,
Deixai do Rio o centro infeccionado,
Tomai um bonde que vá dar ao Leme…

Graciosas senhoritas, moços chics,
Fugi das ruas, da poeira insana:
Não há lugares para pic-nics
Como em Copacabana…”

Leia mais sobre o Rio de Janeiro

Mais de um século depois, não se vê araçás ou pitangas no bairro. Nem pic-nics. E seria tachado de louco qualquer um que dissesse que foge da poeira insana da cidade e busca o ar salitrado em Copacabana.

Leia abaixo algumas curiosidades sobre o bairro mais famoso do Brasil.

– Quando portugueses e franceses aqui chegaram, no século 16, a praia e suas vizinhanças eram ocupadas por tabas dos tamoios.

– O nome original de Copacabana era Sacopenapan, corruptela de “çoco pê nupã”, termo indígena que significava “caminho batido dos socós”, um tipo de ave pernalta abundante na região.

– Há referências (controversas, diga-se) à pesca de baleias no litoral de Copacabana. Dessa atividade viria o nome arpoador, ao morro que faz divisa com Ipanema.

– No século 17, foi proibida aos pescadores que erguessem residência na praia. Era medo que navios estrangeiros que tentassem invadir a cidade usassem as moradias como base.

– A origem do nome do bairro vem da imagem de Nossa Senhora de Copacabana, santa venerada em Copacabana, às margens do lago Titicaca, na Bolívia. A imagem no Brasil teria sido trazida por mercadores de prata que viajavam entre o Rio, a Bolívia e o Peru. No século 18, a imagem foi adornar uma pequena capela que ficava onde hoje está o forte de Copacabana. A capela foi destruída em 1918.

– Durante o Primeiro Império, ainda quase despovoada Copacabana era pródiga, além de pitangueiras à beira-mar, em espinheiros, cardos e ananases.

– Até meados do século 19, para ir de Botafogo até Copacabana era preciso subir e descer os morros que isolavam a área, em trilhas como Caminho dos Pretos Quebra-Bolos. E só a cavalo.

– A principal rua do bairro, a Nossa Senhora de Copacabana começou a ser aberta em 1892. A Avenida Atlântica é posterior. Sua urbanização foi iniciada em 1905, ainda muito precária, só sendo melhorada em 1919. Uma ressaca destruiu as obras e elas tiveram que ser refeitas no ano seguinte.

– O bairro Peixoto, reduto de casas e edifícios pequenos em meio à selva de arranha-céus de Copacabana, tem origem na chácara de Paulo Felisberto da Fonseca, o Comendador Peixoto. Nos banhados da área ainda se caçavam patos no início do século passado.

– Mais famoso hotel do País, o Copacabana Palace foi fundado em 1923, tendo como inspiração os hotéis da Riviera Francesa Negresco (Nice) e Carlton (Cannes). Nenhum hotel no Brasil abrigou tantas celebridades. De Santos Dumont a Stravinsky, da Princesa Diana aos Rolling Stones, de Bill Clinton a Madonna, de Rita Hayworth a Walt Disney, de Orson Welles a Gene Kelly, de John Wayne a Will Smith, de Nelson Mandela ao U2.

– Muitos políticos importantes moraram em Copacabana, como os ex-presidentes Tancredo Neves, Juscelino Kubitschek, João Goulart, os ex-governadores Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, Carlos Lacerda e Magalhães Pinto. E o bairro foi testemunha de vários acontecimentos políticos marcantes. Para ficar em dois: a Revolta dos 18 do Forte, marco originário do movimento tenentista que acabaria com a República Velha, em 1922; e o atentado a Carlos Lacerda, na Rua Tonelero, em 1954, que culminaria no suicídio de Getúlio Vargas.

– Além de servir de inspiração para músicas, filmes, livros e peças teatrais, Copacabana também sempre abrigou muitos artistas. O poeta Carlos Drummond de Andrade e o cantor Dorival Caymmi ganharam até estátuas em homenagem. E embora associada a Ipanema, boa parte da Bossa Nova está ligada a Copacabana. Seja pelas boates no Beco das Garrafas, onde o estilo evoluiu, ou pelas reuniões no célebre apartamento de Nara Leão, onde se reuniam alguns dos expoentes do gênero embrionário. E João Gilberto morava em um apartamento atrás da Praça Cardeal Arcoverde quando fez seus dois primeiros e mitológicos LPs. Era lá que ele ensaiava “Chega de Saudade”.

– Na década de 20, o bairro contava com cerca de 20 mil habitantes. Atualmente, de acordo com o Censo 2010, tem 146.392 moradores. E tem uma alta proporção de idosos. São 43.411 pessoas com mais de 65 anos.

– Ao contrário da cidade, do Estado e do País, em Copacabana os homens são maioria: 83.986 para 62.406 mulheres.

– São 92 mil edificações, entre casas, apartamentos, escritórios e lojas.

– Muito por abrigar grande número de hotéis e pousadas, Copacabana era, em meados da década passada, foco de crimes contra visitantes da cidade. Metade dos furtos e roubos cometidos contra turistas em todo o Estado ocorria em Copacabana. Nos últimos cinco anos o número de roubos caiu em 2/3.

– Copacabana é rica em histórias associadas a sexo. À noite, a orla ainda fica coalhada de mulheres e travestis se oferecendo aos motoristas. Durante os anos 90 e o início do novo século, boa parte das moças do métier se encontrava com os clientes na discoteca Help, que foi demolida para dar lugar ao novo Museu da Imagem e do Som, que está sendo construído. Mas a associação de Copacabana com o sexo é antiga. Durante as décadas de 10 a 30 funcionou no posto 6, quase na divisa com Ipanema, o estabelecimento Mère Louise, um rendez vous, como se chamava antigamente, famoso por suas noitadas. Hoje, no local, ergue-se o Sofitel.

– Mère Louise é a precursora. Mas os exemplos de um bairro associado ao tema são muitos. Da discoteca Help, às boates de strip tease da Prado Júnior, da Galeria Alaska com o show de travestis que ficou famoso nos anos 80 (transformado mais tarde em reduto evangélico), às aventuras de Kátia Flávia contadas pelo poeta Fausto Fawcett.

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