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Arquivo de junho, 2012

segunda-feira, 25 de junho de 2012 Reportagem | 16:37

Confusões e gafes nos bastidores da recepção aos poderosos da Rio+20

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A Conferência da ONU sobre desenvolvimento sustentável no Rio de Janeiro já terminou, mas a poeira ainda não assentou. Longe dos olhares da imprensa e da população mundial, na recepção aos chefes de estado e de governo nos bastidores da Rio+20, sobrou confusão, trapalhadas e improviso.

Houve até entre os altos dignatários estrangeiros quem provasse um gostinho do caos aéreo tupiniquim na base Aérea do Galeão, o aeroporto militar usado para os voos fretados das delegações que vieram participar do evento.

A experiência antropológica da Cúpula dos Povos
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Na manhã de quarta, dia 21, ao chegar, o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, teve que esperar durante quase duas horas dentro do avião pelo desembarque por falta de carros da Infraero. É que todos os disponíveis estavam sendo usados por outros chefes de estado que haviam aterrissado pouco antes. O adido militar indiano ficou irritado e disse que as autoridades brasileiras não passavam por isso quando visitam o seu país.

Nem sempre as autoridades tinham um controle eficiente de quem entrava e quem saia da base. Em uma ocasião, a Aeronáutica cobrava a chegada de uma tripulação africana, para levar o avião para a posição de decolagem. Mas a tripulação já estava na Base Aérea há duas horas e meia.

Segundo um funcionário do governo que participou da operação: “Nada sai como o planejado e surgem as informações mais desencontradas possíveis. Os órgãos não sabem trabalhar em conjunto e não há método para o fluxo de informações, nem para tomada de providências”.

Horas antes de a secretária de Estado Hillary Clinton chegar, a aproximação de um avião que ninguém sabia qual era, nem de onde vinha, suscitou um boato na sala de controle de que ela estaria no voo e pousaria em cinco minutos. O mesmo ocorreu com o líder cubano Raul Castro, alguns dias antes.

Troféu de confusão vai para a Gâmbia

A delegação de Gâmbia, foi um caso à parte. Se houvesse um prêmio para mau comportamento, segundo os diplomatas que serviram na Rio+20, ele iria para o país centro-africano. Eles não contrataram handling (os serviços em terra para uma aeronave, que vão de abastecimento de combustível, limpeza interna e externa, carregamento e descarregamento de bagagem, fornecimento de comida etc) para a aeronave que trouxe a delegação ao Brasil.

Isso teve que ser resolvido emergencialmente pela FAB, que contratou o serviço. Nem hospedagem a tripulação de Gâmbia tinha. O pessoal ficou na Base Aérea do Galeão sem passaporte, que havia sido levado pelo comando da delegação do País, governado por Yahya Jammeh desde 1994, quando subiu ao poder em um golpe de estado. Como nota de pé de página, não custa lembrar que o presidente da Gâmbia ganhou notoriedade em 2007, ao afirmar que curava Aids.

Ao deixar o Brasil, a delegação da Gâmbia também se recusou a pagar o catering. A conta pendurada ficou para a FAB. Além disso, um segurança da comitiva de Jammeh fez gestos ameaçadores e agrediu verbalmente um coronel do Exército no Riocentro. Faltou pouco para ser algemado e preso. O coronel brasileiro chegou a dar ordem para que os soldados imobilizassem e detivessem o gambiano caso ele esboçasse alguma reação armada.

A boca-livre dos diplomatas

Questões desse tipo acabavam sendo tratados pelos diplomatas de ligação brasileiros que serviram às delegações estrangeiras. Cada País tinha um diplig”, que era responsável por resolver a vida de cada participante. O que incluia acompanhamento em visitas ao Cristo Redentor, ao shopping e a churrascarias.

Eles tinham tarefas mais administrativas também. Deviam informar às autoridades competentes o horário dos voos de partida, quantas armas entravam no País com cada comitiva (era preciso um formulário específico de admissão temporária para checar que elas também saíam do País) etc.

Esse foi outro ponto de discórdia entre autoridades brasileiras e estrangeiras. Pelo menos uma delegação se recusou a mostrar as armas, o que causou descontentamento entre os funcionários da Receita Federal.

Os diplomatas de ligação também criaram problemas. Alguns tomaram o partido das delegações a que estavam servindo. Outros chamaram atenção usando estratagemas para comer de graça no setor VIP reservado para almoço de chefes de delegação no Pavilhão 5 do Riocentro. O local era restrito e não autorizado para os 200 diplomatas convocados para a função.

Isso gerou pelo menos uma situação embaraçosa, descrita no email em que a coordenadora de cerimonial apelava para que os diplomatas brasileiros evitassem esse tipo de comportamento.

“Alguns tentaram burlar o cerminonial e chegaram até mesmo a forçar a entrada de mais gente do que o permitido na sala de almoço. O caso mais grave foi de diplig que entrou correndo com quatro membros da delegação impedindo o controle do cerimonial e como se não bastasse retornou com mais quatro, que foram devidamente barrados. Infelizmente, no segundo grupo se encontrava o Primeiro-Ministro daquele país”.

“Enfim, os estratagemas foram vários e foram muitos os argumentos que as funcionárias do cerimonial tiveram que ouvir. Muitos deles nada agradáveis. Mesmo com toda a contenção, cerca de 14 dipligs furaram a barreira e almoçaram na tenda.
Se tal comportamento se repetir amanhã, quando teremos simultaneamente o almoço da Senhora PR (a presidente Dilma) e o almoço dos Ministros, teremos uma situação de caos total”, alertava a coordenadora do cerimonial.

Também por email, os dipligs tomaram um puxão de orelha do coordenador, Paulo Uchôa, que mandou que eles deveriam se virar para comer no Pavilhão 2 com as diárias (dobradas durante 20 dias) dadas pelo governo.

Placa coberta e caminho errado

Muitos problemas ocorreram com o transporte dos dignatários e representantes estrangeiros. Vans alugadas pelas delegações tiveram as placas cobertas com jornal, para evitar multas.

Alguns motoristas que serviram às delegações não conheciam os itinerários. O caso que ficou famoso foi uma van servindo ao Japão que acabou se perdendo e deu de frente com traficantes ao entrar em uma favela no Caju, zona portuária da cidade.

Outros erros de percurso, menos importantes, ocorreram. Na hora de deixar o Rio, por exemplo, o presidente do Chile, Sebastián Piñera, mofou durante duas horas dentro da aeronave porque duas vans da imprensa oficial se perderam a caminho da Base Aérea.

O presidente francês também enfrentou contratempo parecido na sua primeira ida ao Riocentro. O batedor se perdeu na chegada e foi parar em um pavilhão errado. François Hollande ficou preso por quase vinte minutos no carro. Mas não perdeu o bom humor e reagiu com simpatia, dizendo que não havia problema e que aproveitaria para rever os textos.

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sexta-feira, 22 de junho de 2012 Nota | 22:32

Ban Ki-Moon perde voo e Dilma tem que usar avião reserva

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A Rio+20 não terminou muito bem para Dilma Rousseff e para o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon. E isso não tem nada a ver com o criticado texto final da conferência sobre desenvolvimento sustentável. É que, na hora de ir embora da cidade, o avião da presidente deu pane. Em vez de voltar à Brasília em um A319, como previsto, ela teve que ir em uma aeronave reserva, um Embraer 190.

A experiência antropológica da Cúpula dos Povos
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Representantes dos governos estão desconectados do povo, critica senador francês

Comentário, entre os funcionários do governo na Base Aérea do Galeão é que alguém ia tomar esporro hoje à noite.

Mas Dilma, pelo menos, conseguiu viajar. Pior sorte teve Ban Ki-Moon. O secretário-geral da ONU foi do Riocentro à Base Áerea do Galeão acreditando que iria dar tempo de pegar o avião de volta, um voo comercial da Continental. Só que a aeronave já estava taxiando na pista, pronto para decolar. Já tinham desembarcado a bagagem, retirado seguranças e assessores que iriam com ele. Ban Ki-Moon deve ir neste sábado em um outro voo.

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quarta-feira, 20 de junho de 2012 Reportagem | 18:03

Uma experiência antropológica em uma visita à Cúpula dos Povos

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“Só não é um samba do crioulo doido porque os índios não são chegados em um pagode”, diz um jornalista politicamente incorreto ao constatar a quantidade de índios ou de pessoas paramentadas como tais na Cúpula dos Povos. O evento paralelo a Rio+20 é organizado por ONGs e representantes da sociedade civil no Aterro do Flamengo, às margens da Baía de Guanabara, um dos locais mais poluídos da cidade.

Ao lado da Marina da Glória, tendo o Pink Fleet, o iate do bilionário Eike Batista, como testemunha, ocorrem meditações com cristais e incenso para Gaia (o planeta); manifestações contra a usina de Belo Monte (contei cinco); hare krishnas tentando convencer integrantes do MST a dançar balançando um pandeiro (em vão); estudantes tentado convencer da importância do esperanto como a língua universal; índio conclamando para a guerra; marcha da maconha; adeptos fazendo propaganda da Kaballah, da fé Bahá’í, do MST, da homeopatia. Na Cúpula dos Povos tem espaço até para a venda de um condomínio ecológico na Baixada Fluminense.

José Geraldo da Silva, com sua fantasia "Amar a natureza faz bem ao coração", dança com Raimundo Ambrósio Nascimento

José Geraldo da Silva, com sua fantasia "Amar a natureza faz bem ao coração", dança com Raimundo Ambrósio Nascimento (foto: Luiz Antonio Ryff)

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Falta sinalização na Cúpula dos Povos
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Isso sem falar em uma palestra contra o sistema bancário em um evento que é patrocinado por um banco, a Caixa Econômica Federal. Mas a única coisa que parece destoar por completo da atmosfera é o grupo de vendedoras uniformizadas de uma operadora de celular promovendo chips pré-pagos.

Um dia circulando entre as 60 tendas e espaços armados em mais de dois quilômetros do aterro é uma experiência antropológica.

Local da diversidade

Mauro Porto, Assessor de Programa de Mídia e Liberdade de Expressão da Ford Foundation, uma das participantes, acha que essa atmosfera, muitas vezes com ideias conflitantes, faz parte.

“Aqui é o espaço da diversidade, não é lugar de consenso. A fundação apoiou o comitê organizador e a proposta da cúpula é não ter nenhuma posição programática ou política para a Rio+20. Mas criar um espaço dinâmico para a sociedade civil discutir. Principalmente aqueles setores sem muita visibilidade”.

O cacique Raoni, ao centro, lidera uma manifestação contra a usina de Belo Monte (foto: Luiz Antonio Ryff)

O cacique Raoni, ao centro, lidera uma manifestação contra a usina de Belo Monte (foto: Luiz Antonio Ryff)

Os estandes mostram essa diversidade. Vai de organizações reconhecidas internacionalmente, como a Action Aid, o Greenpeace, a Caritas, a Cruz Vermelha, a Anistia Internacional à primeira estação de coleta e triagem de bitucas de cigarro no Brasil. Há quem faça propaganda da Kaballah, do Partido Comunista Marxista e Leninista; e quem propagandeie a fé Bahá’í ou se oponha à energia nuclear. Há um estande que promove um “condomínio ecológico” em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Casas de três quartos na faixa dos R$ 400 mil, a quem interessar.

Também há espaço para discutir a educação em Angola; pregar a liberdade para o povo saharauí (o Sahara Ocidental, ocupado pelo Marrocos); palestrar sobre o trabalho de socorristas no Tsunami no Japão.

Maconha, esperanto, hare, hare e Belo Monte

O estudante de Biologia paranaense Renato Guedes, 19 anos, ajuda a montar um espaço para difundir o Esperanto. Demonstra animação com a possibilidade de conquistar novos adeptos, já que ninguém da família e nenhum amigo se animou a segui-lo no estudo da “língua neutra internacional”. Ele só pratica em conversas no Skype e no Facebook.

Hare krishnas dançando e cantando na Cúpula dos Povos (foto: Luiz Antonio Ryff)

Hare krishnas dançando e cantando na Cúpula dos Povos (foto: Luiz Antonio Ryff)

Entre os estandes e tendas, o parque foi transformado em um imenso camelódromo a céu aberto, onde se vende de frutas a livros sobre política, poesia e religião, de utensílios indígenas a CDs e artesanato de várias partes do mundo.

Manifestações são quase tão corriqueiras na Cúpula quanto engravatados nas discussões oficiais no Riocentro. Há uma a cada dez passos. Contra a construção de Belo Monte eu contei cinco. Uma delas sendo puxada pelo cacique Raoni (aquele mesmo, amigo do Sting). E muitas danças de índios e de outros grupos. Os hare krishnas tentam convencer os passantes a entrarem na dança. Enquanto eu estava lá o pessoal do MST foi refratário a cantar “hare, hare” balançando o pandeiro.

E há a Marcha da Maconha, na qual, além de gritos contra a PM (“Ê, polícia, maconha é uma delícia/ Ê, maconha, polícia é uma vergonha”), são entoados slogans como: “Maconha é natural, coxinha é que faz mal”. Esses o pessoal do Hare Krishna conseguiu colocar para dançar.

Pitoresco e folclórico

Muitos participantes não pertencem a qualquer grupo, mas fazem parte da festa. É o caso de José Geraldo da Silva, montador de máquinas de 52 anos que deixou Pedra Azul, em Minas Gerais, para participar da Cúpula dos Povos e se define como “uma gotinha no oceano.

Marcha da Maconha encontra o grupo hare krishna: "Hare, hare, legalize, legalize, hare, hare" (foto: Luiz Antonio Ryff)

Marcha da Maconha encontra o grupo hare krishna: "Hare, hare, legalize, legalize, hare, hare" (foto: Luiz Antonio Ryff)

“Vim tentar semear minha pequena sementinha por um mundo melhor e declarar meu amor à natureza”, explica ele, que chama atenção com uma roupa verde, com vários bichos de plástico, bandeiras do Brasil e folhas verdes grudadas.

“É minha fantasia. Eu a chamo de ‘Amar a natureza faz bem ao coração’. Eu tenho essa roupa há vários anos e vou adaptando à circunstância. Serve para ecologia, carnaval, corrida rústica, vôlei…”, enumera até ser interrompido por visitantes que querem fotografá-lo. “Já me tornei uma pessoa pitoresca e folclórica”, sorri feliz antes de puxar para dançar Raimundo Ambrósio Nascimento, 64 anos, que se diz um “índio em trânsito”.

A inglesa Victoria Sinclair, 38 anos, veio ao Rio para participar de meditações para “elevar a consciência mundial”. Com cristais e “incensos druidas”, ela se prepara para meditar em prol de Gaia (o planeta Terra), dos grupos indígenas e para trazer inspiração aos líderes mundiais reunidos no Riocentro. Está animada com o solstício de inverno nesta quinta (dia 21). “É bom para aproveitar a energia específica da lua nova. E no calendário Maia esse é um momento propício de equilíbrio entre passado e futuro”.

Disneylândia e azaração

Victoria Sinclair veio meditar pelo planeta com a ajuda de incenso e cristais (foto: Luiz Antonio Ryff)

Victoria Sinclair veio meditar pelo planeta com a ajuda de incenso e cristais (foto: Luiz Antonio Ryff)

Um pouco afastado da movimentação do evento, alguns participantes aproveitam o visual da praia do Flamengo, com o Pão-de-Açúcar ao fundo. A francesa Elise Soulier, 27 anos, veio como participante de uma associação de ensino. São 13 jovens ao todo em seu grupo, que vai produzir vídeos e escrever artigos quando voltar a França. Ela esteve no Riocentro e na Cúpula, onde lamentou que muitas discussões fossem apenas em português.

“O Riocentro é muito policiado e as discussões parecem estéreis. Deu para ver que gastaram muito dinheiro. É muito estranho, em uma conferência sobre desenvolvimento sustentável, ver tantas garrafas de plástico e o ar-condicionado no máximo”, critica. “Aqui é mais caloroso, mais intenso. Mas é meio uma Disneylândia, é um pouco folclórico”.

Sentado na areia, o londrino Daniel Morrell, 40 anos, tenta puxar papo com um grupo de belas meninas paulistas. Incomodado com a interrupção, elenca o que já fez em prol da sustentabilidade do planeta enquanto olha para as moças, que não prestam atenção no que ele fala. Ele conta ter criado quatro empresas que negociam créditos de carbono. “Eu inventei o termo ‘carbon neutral'”, afirma ele, que ainda não tem uma opinião sobre a Cúpula dos Povos. “Cheguei agora”, explica. Em vez das discussões nas tendas, foi à azaração na praia. Afinal, a Cúpula dos Povos também é social.

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terça-feira, 19 de junho de 2012 Nota | 22:47

Índio defende movimento revolucionário indígena na Cúpula dos Povos

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Uma faixa estendida em uma mesa colocada estrategicamente entre algumas das principais tendas e um auditório na Cúpula dos Povos, evento paralelo a Rio+20, chamava atenção: Pedia guerreiros indigenas para o Movimento Revolucionário Indígena – 500. Um cartaz conclamava: “Ações guerreiras já”.

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Tiuré durante seu 'processo espiritual' (foto: Luiz Antonio Ryff)

Tiuré durante seu 'processo espiritual' (foto: Luiz Antonio Ryff)

No meio da tarde o estande improvisado estava vazio. Apenas os cartazes, algumas flechas e a faixa. Uma hora depois um homem com uma espécie de cocar de palha e com o corpo pintado estava sentado em uma das cadeiras, com olhar longínquo. “Agora não posso falar. Estou num processo espiritual”, desculpou-se falando baixo e lentamente. 
”Volte mais tarde”, balbuciou.

Algumas horas depois, o homem estava disponível. Identificou-se como Tiuré, 63 anos, índio potiguara da aldeia Lagoa do Mato, na Paraíba e explicou por que não podia falar.

“Eu estava em uma outra sintonia, não estava aqui. Um parente me deu uma planta mágica para cheirar”. A tal planta é um pó, rapé indígena, que é colocado em um canudo. Tiuré conta que o parente soprou o pó para dentro de sua narina.

E o que essa planta mágica faz, perguntei? “Eu fico em paz, recebendo energia dos meus antepassados”.

Tiuré já pronto para a guerra (foto: Luiz Antonio Ryff)

Tiuré já pronto para a guerra (foto: Luiz Antonio Ryff)

Mas tirando o efeito do rapé, Tiuré não quer paz. Ao contrário. Ele defende a guerra e se propõe a conclamar os indígenas guerreiros para uma ação na cúpula. “Estamos nos preparando para isso. Ainda não temos gente suficiente”.

“Temos que pressionar o Estado para que ele tome ações concretas”, afirma. No caso de sua aldeia, Tiuré quer retomar 20 mil hectares que ele diz terem sido tomados à força nos últimos 40 anos – e que foram entregues a usinas e grandes proprietários.

Para isso ele defende ações armadas. “Mas não com armas de fogo”, salienta. “Só usamos as nossas armas, bordunas, arco e flecha, foice, facão e machado”, explica sem alterar a voz ou mostrar agressividade.

“Nós estamos prontos para morrer, como nossos antepassados, na luta pela nossa terra”, garante ele, que diz que o movimento é autônomo, não é filiado a partido e não aceita dinheiro de governo.

Exilado político

Ele explica que seu envolvimento com questões políticas e a defesa das questões indígenas data da época da ditadura, quando conta ter sido preso e torturado, o que o levou ao exílio em Montreal, no Canadá.

Após conversar um pouco em francês, lembrando que lá se fala o quebecois, Tiuré diz que foi o primeiro índio brasileiro reconhecido pelo Alto Comissariado da ONU para refugiados e questiona o atual governo brasileiro e a Comissão da Verdade.

“Há um silêncio sobre a questão dos índios durante a ditadura. Não há uma linha nos livros sobre as atrocidades cometidas contra nós durante esse período. A Comissão da Verdade está aí e não se fala nada. E não houve desaparecimento de indivíduos. Houve genocídio. Aldeias foram exterminadas”.

Para não ficar na gaveta

Apesar de participar da Cúpula dos Povos, ele critica a Rio+20. “Aqui há uma manipulação grande da questão indígena por ONGs e por igrejas, que defendem a elaboração de documentos. É preciso romper com isso. Sou contra esse cenário midiático. Daqui só sai elaboração de papéis que vão para as gaveta e armários. Não podemos esperar um Rio+40, é preciso agir já”.

“Eu quero partir para a ação. Em Belo Monte, temos que invadir os acampamentos, os canteiros de obras e parar tudo. O modelo de desenvolvimento adotado por esse governo não vai parar. Por isso estou conclamando os guerreiros para uma guerra”, diz ele. que, ao fim da conversa, gentilmente pede. “Você me manda o texto por email quando sair?”.

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Nota | 22:45

Rio+20: Delegação russa cria saia justa diplomática

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Os russos estão chegando. E o Itamaraty e o resto do governo que se cuidem. A vinda da delegação que deve ter o ex-presidente e atual primeiro-ministro Dmitri Medvedev à frente causou duas dores de cabeça para as equipes encarregadas de receberem os chefes de estado e de governo que participarão da Rio+20.

O primeiro problema foi a chegada de um contêiner lacrado. Como é de praxe, a Receita Federal foi inspecionar. Mas os russos não deixaram. Criou-se um impasse. O contêiner acabou liberado sem que fosse vistoriado.

Ontem, dia 18, chegaram carros blindados para o deslocamento de Medveded e de sua entourage. A Receita e a Polícia Federal quiseram ver o que tinha nas malas. Mais uma vez os russos negaram permissão. Com o novo impasse, instâncias superiores foram novamente acionadas. E mais uma vez os russos levaram a melhor. Entraram no Brasil sem que as bagagens fossem vistoriadas.

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Nota | 18:51

Senador francês diz que representantes dos governos estão desconectados do povo

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Joël Labbé, 60 anos, é um senador francês pelo Partido Verde e está no Rio de Janeiro para a Rio+20. Ele esteve no Riocentro, onde ocorre a conferência da ONU, mas foi visitar a Cúpula dos Povos, evento paralelo organizado pela sociedade civil no Aterro do Flamengo.

O senador francês Joel Labbé numa banquinha do MST na Cúpula dos Povos

O senador francês Joel Labbé numa banquinha do MST na Cúpula dos Povos (Foto: Luiz Antonio Ryff)

Foi encontrado comendo frutas em pé, em uma banquinha do MST, com o paletó nas costas. Sorridente, criticou os encontros oficiais, onde falou em um painel sobre a grilagem de terras por multinacionais.

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Índios aceitam cartão de crédito no camelódromo da Cúpula dos Povos
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“O mundo do Riocentro é completamente desconectado em relação ao povo. Não tem muitos representantes políticos vindo aqui”, lamenta ele. “Mas o ambiente para a verdadeira mudança está aqui”, diz Labbé, que também é prefeito de Saint-Nolff, na Bretanha.

“Sou otimista por natureza, mas não tenho ilusões em relação ao texto original”, afirma ele, que defende a agricultura biológica orgânica e está em contato com a Via Campesina.

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segunda-feira, 18 de junho de 2012 Reportagem | 16:29

Gol e Azul fazem voos com biocombustíveis de cana, óleo vegetal e resto de gordura

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Querosenes feito de cana-de-açúcar e de óleo vegetal e restos de gorduras animais são os biocombustíveis experimentais que serão usados por duas companhias aéreas nacionais em voos testes pioneiros nesta terça-feira, dia 19. Os voos da Gol e da Azul saem de São Paulo para o Rio, onde ocorre a Rio+20. O anúncio foi feito hoje em palestra no Fórum Humanidades, evento paralelo da Rio+20 sediado no Forte de Copacabana.

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No caso da Azul, o projeto é uma parceria com a Amyris (que desenvolveu o biocombustível para aviação), com a Embraer e a GE. Será o primeiro voo no mundo usando querosene derivado de cana-de-açúcar. Com convidados da empresa, um jato Embraer 195 (com 118 lugares) sai de Viracopos, em Campinas, para o aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro.

É um voo não comercial, já que é um teste e o combustível ainda não foi certificado pelas autoridades locais. Ele também é uma mistura de 50% de bioquerosene e 50% de querosene de aviação normal.

O preço de produção atual é proibitivo. Custaria cerca de 4 a 5 vezes mais do que o querosene de aviação convencional. É bom lembrar que o combustível responde por até 40% dos custos de uma empresa de aviação. Mas, segundo o diretor de relações institucionais da Azul, Abelardo Febeliano, com uma produção em larga escala o bioquerosene derivado de cana-de-açúcar ficaria competitivo. Ele acredita que em dois anos isso poderia começar a ocorrer. E que o percentual de combustível de origem renovável poderia chegar a 100%.

“É preciso pensar em fontes renováveis, já que o petróleo vai acabar. Além de ser uma fonte renovável, a cana é menos poluente. Ela reduz em 82% as emissões de gases de efeito estufa”, afirma Febeliano.

“Já há biocombustíveis com óleos vegetais que receberam o certificado para voos comerciais. Mas esse projeto é o pioneiro no mundo a transformar açúcar em hidrocarboneto”, afirma Adilson Liebsch, diretor de marketing da Amyris.

Outro voo verde

Biocombustível usando óleo vegetal é o modelo adotado pela Gol. O voo da Gol fará o trajeto da ponte aérea São Paulo-Rio, com um avião saindo de Congonhas às 12h40 e chegando ao Santos Dumont às 13h42. O biocombustível usado pela empresa foi produzido a partir de óleo de milho não comestível e óleos e gorduras residuais, que são convertidos em hidrocarbonetos puros. O resultado é misturado a 50% de combustível fóssil.

Um dos passageiros do voo da Gol será o secretário-geral da Organização Internacional de Aviação Civil, Raymond Benjamin. Na onde verde e ecologicamente responsável promovida pela Rio+20, a conferência de desenvolvimentos sustentável da ONU, ele avisou que virá do Canadá, passando pelo México e por São Paulo viajando apenas em aeronaves que usam biocombustível.

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sábado, 16 de junho de 2012 Nota | 15:59

Floresta da Tijuca inaugura o maior sistema de trilhas sinalizado do País

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Aproveitando a Rio+20, o Parque Nacional da Tijuca inaugura neste domingo (17) o maior sistema de trilhas sinalizado em parques no Brasil. É a primeira ação do Projeto Travessias, que planeja implementar e sinalizar trilhas em outros nove Parques Nacionais. A iniciativa foi idealizada pelo recém-empossado Diretor de Criação e Manejo de Unidades de Conservação do Instituto Chico Mendes, o ambientalista e diplomata Pedro Cunha e Menezes.

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Na Floresta da Tijuca o sistema de trilhas integra dois circuitos, o Castro Maya e o Major Archer (os nomes homenageiam dois personagens importantes para a história da maior floresta urbana do mundo, onde fica o Corcovado e a estátua do Cristo Redentor).

A história pouco conhecida de um herói do ambientalismo nacional

As trilhas circulares têm cerca de 32 km de percurso (a Major Archer, externa, com 20km; a Castro Maya, interna, com 12km) e passam por diversas atrações do parque. Durante o percurso serão visitadas estruturas históricas dos séculos 18 e 19, como a Capela Mayrink e as ruínas do Sítio Midosi, com vistas de pontos turísticos conhecidos, como o Pico da Tijuca e o Bico do Papagaio. O circuito interno leva dois dias para ser completado. O externo prevê quatro dias.

Visitas guiadas

Para aproveitar a vinda de delegações estrangeiras, imprensa internacional, ambientalistas e pessoas interessadas em meio ambiente e questões de biodiversidade, o Parque Nacional da Tijuca também está promovendo visitas guiadas gratuitas até o dia 24 de junho. São dez circuitos de caminhadas que vão do esforço leve ao grau pesado de dificuldade.

Os roteiros incluem pontos tradicionais do parque, como a Trilha do Estudante e o Bico do Papagaio. A lista dos passeios, os pontos de inscrição e de saída dos percussos podem ser lidos aqui.

Nessas visitas guiadas o limite máximo de participantes é de 20 pessoas por roteiro. Como as vagas são limitadas, os interessados devem chegar com antecedência aos locais de inscrição, já que não haverá reserva ou pré-agendamento dos passeios.

É preciso levar protetor solar; repelente; chapéu ou boné para proteger do sol; usar roupas e calçados fechados, confortáveis e apropriados para o clima fresco da floresta, que fica em torno de 13º. Além disso, é necessário levar água para hidratação durante a caminhada e alimentos leves para lanche. Não haverá visita guiada em caso de chuva.

Quem quiser mais informações sobre as trilhas ou sobre o Parque Nacional da Tijuca, pode ligar para (21) 2492-2253/2252 (ramal: 113 e 124). A entrada fica na Estrada da Cascatinha, 850, no Alto da Boa Vista.

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quinta-feira, 14 de junho de 2012 Nota | 13:14

Pegada de carbono da Rio+20 deve chegar a 5 mil toneladas

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Dados preliminares calculados pela Coordenação de Sustentabilidade do Comitê Nacional de Organização (CNO) indicam que a pegada de carbono deixada pela Rio+20 será da ordem de 5.000 toneladas. Após o término do evento será feita uma nova avaliação. Pegada de carbono é a medida da quantidade de dióxido de carbono (C02) e outros gases com efeito estufa (GEE) que uma pessoa ou atividade produzem.

Rio+20 terá aplicativo para calcular pegada de carbono das delegações

Foram calculadas as seguintes fontes de emissão: Uso de combustíveis nos veículos terrestres oficiais da Conferência; Uso de energia elétrica nos principais locais da Conferência; Disposição de resíduos gerados nos principais locais da Conferência; Viagens aéreas dos delegados credenciados e secretariado das Nações Unidas.

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Durante a Rio+20, serão realizadas atividades de redução das emissões de GEE. Segundo a Coordenação de Sustentabilidade, “dados preliminares indicam que as emissões decorrentes da organização do evento -associadas ao consumo de combustíveis em equipamentos fixos, transporte terrestre oficial, consumo de energia elétrica e disposição de resíduos sólidos nos principais locais da reunião – serão da ordem de 5.000 toneladas, total bastante inferior ao benchmark identificado em eventos internacionais similares”.

“As emissões decorrentes da organização da RIO+20 que não puderem ser reduzidas serão compensadas através do uso das ‘reduções certificadas de emissão’ (RCEs) provenientes de projetos brasileiros do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL),estabelecido pelo Protocolo de Quioto. O uso do MDL garante que as reduções são reais, adicionais e mensuráveis.”

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Nota | 12:15

Aplicativo calcula pegada de carbono no deslocamento de delegados para Rio+20

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Um aplicativo que calcula qual a pegada de carbono dos participantes que vieram para a Rio+20 será anunciado hoje à tarde (dia 14) pelo ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, em uma conferência no Riocentro, sede da Conferência da ONU. Pegada de carbono é a medida da quantidade de dióxido de carbono (C02) e outros gases com efeito estufa (GEE) que uma pessoa ou atividade produzem.

Logotipo da Rio+20

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O aplicativo que será apresentado por Patriota foi desenvolvido em parceria pelo Comitê Nacional de Organização da Rio+20, a Caixa Econômica Federal e o Pnud Brasil. Há outros disponíveis, inclusive online, para quem quiser ter uma ideia aproximada de quanto polui.

O CNO calculou qual será a pegada de carbono do evento em solo nacional e estratégias para compensação. Patriota irá anunciar o montante que será gerado e como será feita a compensação. No entanto, o Brasil não irá compensar a emissão provocada pelo deslocamento dos participantes estrangeiros até o Rio. O aplicativo permitirá que cada delegação, ou cada integrante, saiba quanto poluiu para chegar até a conferência e, voluntariamente, busquem compensar as emissões.

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O aplicativo ficará disponível aos participantes para que eles possam medir as emissões da viagem até a conferência e comprar RCEs (reduções certificadas de emissão) oferecidas por projetos brasileiros do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo.

Segundo o CNO, os resultados das estimativas (antes e depois da Rio+20), as atividades de redução de emissão de GEE implementadas durante o encontro e a lista dos projetos que doaram RCEs para a compensação das emissões da organização do evento serão divulgados após o término da conferência.

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