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terça-feira, 8 de maio de 2012 Entrevista, Reportagem | 18:07

Com 3ª epidemia de dengue em 11 anos, Rio deve se preparar para conviver com doença

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O tipo 4 da dengue chegou ao Rio de Janeiro com força este ano. Com 62.601 mil casos notificados até 5 de maio, a cidade enfrenta sua terceira epidemia em 11 anos (as de 2002 e 2008 foram de outros tipos). E, infelizmente, não há nenhuma perspectiva de solução para evitar a repetição do problema nos próximos anos.

Mosquito da dengue

Mosquito da dengue, agora na versão tipo 4 (foto: reprodução)

“Não vai dar para erradicar a doença a curto, médio ou longo prazo”, avisa Giovanini Coelho, coordenador do Programa Nacional de Controle da Dengue, do Ministério da Saúde. “Só poderíamos evitar que as pessoas adoecessem com uma vacina, mas ela não existe ainda”.

Giovanini explica por que, quando se trata da dengue, o Rio de Janeiro está no topo das preocupações do ministério. “O Rio de Janeiro é a maior cidade tropical do País. Tem as condições climáticas e ambientais que favorecem a proliferação do mosquito. É quente, úmida e é um aglomerado urbano com alta densidade populacional”, afirma. Não foi à toa que as grandes epidemias com os tipos anteriores começaram pela cidade. Foram três epidemias em 11 anos na cidade. E cinco nos últimos 26 anos. Em 1986 e 1992 os cariocas também enfrentaram o problema.

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O coordenador do Programa Nacional de Controle da Dengue explica que muito da dinâmica da doença tem a ver com a infraestrutura urbana da cidade. E a fatores culturais e sócio-econômicos que favorecem a proliferação do mosquito. “É um mosquito que se prolifera preferencialmente em criadouros artificiais, como caixas d’água. Se não tivéssemos caixas d’água, como em países da Europa, onde elas são proibidas, esse fator deixaria de existir”, exemplifica.  E a falta de destino adequado para os dejetos, bem como para o lixo produzido pela cidade, também contribui para formação de criadouros potenciais.

Auge foi em março

Mas existem duas boas notícias. A primeira é que a incidência da doença está em queda. Embora a secretaria de Saúde tenha decretado a epidemia no final de abril, tecnicamente a situação foi pior em março, quando passou dos 300 casos por 100 mil habitantes por mês (foram 397,6/100 mil em março e 310,5/100 mil em abril). O auge foi registrado nas duas últimas semanas de março, com mais de 6 mil contaminações em cada uma. A segunda é que, comparativamente, a letalidade está baixa. Foram 15 mortos até agora (contra 62 e 147 óbitos nas epidemias anteriores).

Giovanini salienta que a magnitude dessa epidemia é diferente das anteriores. “Houve um aumento de casos em comparação a 2011, mas a situação epidêmica é mais tranquila”, afirma. Com base na análise de mais de 800 epidemias nos últimos 10 anos, ele acredita que o auge da doença já passou e que o número de casos tende a baixar muito. “Em geral leva 14 a 14 semanas e meia para atingir o pico. E nós passamos da 18ª”, explica. “Ainda mais com a temperatura caindo. O mosquito gosta de calor”.

A doença também é um fenômeno que não se manifesta de forma uniforme. Há regiões da cidade em que o problema é mais grave do que em outras. Notadamente Bangu e Realengo, na zona oeste, onde a incidência chegou a 1 em cada 100 moradores. A situação também é ruim em Madureira.

Redução da mortalidade

A baixa letalidade da doença é algo a ser comemorado. No caso do Rio ela se deve a alguns fatores. Primeiro é que o tipo 4 se mostrou menos agressivo do que outros, como o 2 – que está associado a número maior de casos graves e óbitos.

E segundo é que foi criada uma rede de atendimento especializado para tratar das vítimas e não congestionar a rede hospitalar. Afinal, a doença é de tratamento simples. “O Rio se preparou para isso. Foram montados 28 pólos de hidratação”, explica Giovanini.

A questão da redução da mortalidade é o principal foco das autoridades no momento. Do início do ano até agora foram 15 mortes por causa da dengue, no Rio. No mesmo período do ano passado o número de óbitos atingiu 39.

“Hoje é mais fácil prevenir a letalidade. As ferramentas de que dispomos não dão conta de impedir o surgimento da doença”, admite Giovanini, revelando que as autoridades, embora preocupadas com as epidemias, têm se esforçado mais para evitar os óbitos.

É uma questão simples de custo e benefício. Já que não dá para impedir a doença, é possível evitar a morte do doente. Não existem tecnologias ou drogas específicas para o tratamento. No entanto, para tratar a doença são necessários cuidados simples: hidratação (principalmente água e soro caseiro) e descanso (e evitar ingestão de aspirina). Além de uma capacidade de organização do poder público para garantir aos cidadãos o acesso a isso.

Já para diminuir a infestação é mais complicado. É preciso a mobilização das pessoas, combatendo focos de mosquitos nas próprias residências (o principal local de contaminação).

Como não erradicam o mosquito como no século passado?

Muita gente não entende como as autoridades públicas não conseguem resolver esse problema eliminando o mosquito, como fez o sanitarista Oswaldo Cruz no início do século passado. Mas quando ele erradicou a febre amarela da então capital federal a situação era outra. Foram usados até homens armados para forçar os cidadãos a abrir as casas para remover os criadouros dos mosquitos e para tomar a vacina.

Hoje seria impossível usar tal método. Além disso, existem duas outras diferenças significativas. Ainda não há vacina para a doença (há uma em teste e que pode ser homologada em dois anos, mas com cerca de 70% a 80% de eficiência). E no passado foi usado DDT – hoje aposentado por ser cancerígeno.

O que levanta outra polêmica. Mesmo o uso de inseticidas é visto com muita reserva por especialistas, pois os mosquitos acabam adquirindo resistência a eles. “É um problema sério. Principalmente o de uso residencial. Existem quatro opções para combater as larvas, mas para mosquitos adultos só existem dois tipos”, afirma Giovanini.

Sazonal e urbana

As epidemias como a atual são favorecidas por dois fatores: introdução de novos sorotipos em áreas onde eles não existiam; e a mudança de virus predominante. É o que ocorre no Rio. A epidemia atual é do vírus tipo 4 (84,7% dos casos). O curioso é que ele ficou 28 anos sem circular no País. O primeiro caso recente foi registrado em julho de 2010 em Roraima.

As referências sobre casos de dengue datam do século 19. No início do século passado, existem relatos sobre o aparecimento da doença em São Paulo, em 1916, e Niterói, em 1923. Mas a primeira epidemia documentada clinica e laboratorialmente ocorreu em Boa Vista, em 1981/1982.

Em 1986, houve a primeira grande epidemia nacional, atingindo o Rio de Janeiro e algumas capitais do Nordeste.

É importante ressaltar que a dengue é uma doença sazonal e urbana. Cerca de 70% dos casos ocorrem entre janeiro e maio. E grandes concentrações favorecem a epidemia.Em 1995, 1.753 municípios estavam infestados por Aedes aegypti, o mosquito transmissor. Em 2010 já eram 4.007 municípios. Este ano o Ministério da Saúde repassou verbas para 1.159 municípios enfrentarem o problema.

O Rio não é nem o município brasileiro em pior situação em 2012. Rio Branco (Acre), Araguaína e Palmas (Tocantins) vivenciaram uma incidência maior de casos por 100 mil habitantes. Nacionalmente, entretanto, o Ministério da Saúde informa que a situação apresenta uma melhora em relação ao ano passado. Até 18 de abril houve reduções de 51% nos casos notificados; de 90% nos casos graves confirmados; e de 82% no de óbitos.

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16 comentários | Comentar

  1. 66 shirlei horta 09/05/2012 17:56

    Eu até tenho que admitir que não existem mesmo outras obviedades nulas a dizer a não ser estas relacionadas pelo coordenador do Programa Nacional de Controle da Dengue do Ministério da Saúde. Fazer o quê, né? O cara tá encarregado do monstrengo, recebe salário e tal e coisa e coisa e tal. Vai dizer que o Programa Nacional de Controle da Dengue é uma indecência monstuosa? Que não tem recursos de ação, nem financeiros, nem autoridade para dizer o que precisa ser dito, fazer o que tem que ser feito? Do meu lado, sou obrigada a acusar o golpe, é óbvio. A solução para a dengue é multidisciplinar, não é um problema de saúde simplesmente. É uma solução que demanda gente séria no município, no estado, no Ministério. Coisa que já estava muito bem estabelecida por Mário de Andrade no seu antológico e moderníssimo Macunaíma: “muita saúva e pouca saúde os males do Brasil são”.

  2. 65 Paulo Maia 09/05/2012 12:08

    Será que ninguém percebe o óbvio? Como podem querer o fim da epidemia de dengue se o Rio é só favela? Falta limpeza e saneamento, ou seja, há muito lixo na rua e esgoto a céu aberto, além disso, a população sofre com a omissão do Estado que só faz jogar a responsabilidade pra população. Será que não conseguem perceber o óbvio? Por que temos que nos prepararmos pra viver com a Dengue? Essa proposição é absurda.

  3. 64 teres 09/05/2012 12:03

    O problema da dengue no Brasil só vai acabar com o aquecimento global. Quando os mosquitos começarem a assolar a américa do norte, aí, então, eles vão começar a combater essa praga. O Brasil já extinguiu o mosquito da dengue várias vezes (desde as décadas de 80 do século 19), mas como os americanos não se ressentem com esse problema, ainda, deixam o inseto se proliferar lá, na Flórida e eles acabam migrando para cá outra vez. A AIDS, também, foi proliferada por eles. O dia que a febre amarela e a malária começar a atacá-los, rapidinho aparecerá um remédio para a cura.

  4. 63 DAVID 09/05/2012 10:58

    CARO JORNALISTA, ONDE ESTÁ A SURPRESA??

    UM PAIS DESCARADO COMO ESSE, QUE CLASSIFICA INVESTIMENTOS COM SAUDE, SEGURANÇA, EDUCAÇAO E OUTROS, COMO GASTOS, NAO DEVE SER LEVADO A SÉRIO.

    ENQUANTO ISTO O GOVERNADOR E SUA TURMA, VAO BEM GRAÇAS A DEUS.

  5. 62 Sidney 09/05/2012 9:54

    Cabral e Paes adoram Paris! Pelo visto esqueceram do Rio. No governo enriquecem para poder gastar em Paris. O povo carioca é tolo, se contenta com a ilusão do samba, enquanto isso os políticos continuam roubando e enriquecendo. Pessoas pobres durante o ano se matam para comprar fantasia de carnaval para desfilar para os ricos, que os assistem de camarote. Tudo pela ilusão de que uma escola de samba seria um deus a quem elas devem reverência. Morrem nas filas dos hospitais sem remédios, pois além de superfaturados, são roubados às vezes pelos próprios funcionários dos hospitais. Enquanto esse povo ignorante continuar permitindo ser ludibriado pelos políticos espertos vão continuar passando por essas misérias.

  6. 61 Claussios Celsios Cardoso 09/05/2012 9:13

    Pela maioria dos comentários a população ainda acredita que um problema ambiental de amplo espector, como é a Dengue, depende apenas o poder Público… É por isso que causa tanta frustração. O resultado da reforma urbana e Sanitária do Rio de Janeiro (no início da República) resultou num estado de coisas que nenhum poder público pode consertar!!!! Apenas resta o controle e minimizar os estragos, mas são as pessoas que devem contextualizar a informação que recebem do governo para colocá-las em prática. Conheço muito classe média esclarecido que enche o peito pra exigir medidas de saneamento do Governo mas nunca conversou com a empregada sobre como ela cuida dos vasos de plantas.

  7. 60 Ana 09/05/2012 6:47

    A parte o fato de que o governo tem sim a sua responsabilidade, nao podemos deixar de citar que os maiores responsaveis sao “o povo”.

    Muita gente “porca” e sem educaçao que joga lixo em qualquer lugar, latinhas, garrafas e muitas outras coisas onde acumulam agua e mosquitos.

    Nao estou dizendo que os cariocas sao porcos, isso é um problema geral do brasil inteiro, pq muuuuitos brasileiros sao porcos e incivilizados (diria a maioria).

  8. 59 LUIZ CLAUDIO 09/05/2012 3:55

    Trabalhei na secretaria de saúde do Rio e afirmo: a dengue se tornou um grande negócio para os governos que abastecem seus cofres com verbas federais do ministério da saúde. Não raro esse dinheiro é usado para outras atribuições e não para sua função específica de combate a doença. Ela também se tornou sustento principal de várias organizações sociais que se infiltraram nos hospitais e postos de saúde públicos. Geralmente essas organizações (terceirizadas) estão ligadas a políticos e secretários de saúde que, indiretamente são beneficiados com grandes doações em dinheiro para suas campanhas políticas . Isso sem falar que a dengue também se tornou um grande atrativo para os profissionais de saúde, já que os plantonistas dos postos de emergência que tratam a doença recebem até o triplo do que receberiam normalmente em seus plantões regulares.
    Muitos médicos e enfermeiros, atraídos pelos salários maiores, estão migrando – com a conivência das secretarias de saúde – para os plantões da dengue, deixando ainda mais capengas as emergências dos grandes hospitais e postos, fazendo com que pacientes portadores de doenças mais graves padeçam ou morram nas filas dos pronto-socorros.
    Vale lembrar que aqui no Rio a presença dos mata-mosquitos, que no passado era bastante ativa, hoje é praticamente nula nas ruas cariocas e fluminenses. Quando a gente os encontra agora é nos postos de saúde atuando como auxiliares de enfermagem, de olho também na diária mais alta paga nos pólos da doença montados pelos governos.Ou seja, as secretaria abandonaram o combate ao mosquito e aos focos e dirigiram suas ações para o tratamento da doença que é muito mais lucrativo e menos trabalhoso.

  9. 58 brasileiospocoto 09/05/2012 3:53

    vcs falam do Rio, mas não é só o Rio que estar em calamidade, é o brasil inteiro, vejo que o brasileiro é tão desunido que se seu estado estiver bom, o resto que se dane, felizmente que esta tudo fudido, então mesmo com a desunião todos estão no mesmo buraco unidos.

  10. 57 igor 09/05/2012 2:08

    Nao sou carioca, mas uma coisa e certa, o povo colabora muito para que a doenca se espalhe, nao tampa caixas d’agua, joga lixo nas ruas e lotes vagos proporcionando novos criadouros para os mosquitos. Isso nao e so no rio, em outras cidades tambem, portanto POVO, seja educado e tenha um minimo de higiene, que provavelmente o numero de vitimas da dengue diminuira.

  11. 56 CRIS 09/05/2012 0:58

    CLARO, SÓ PENSA EM CARNAVAL, FUNK, OLIMPIADA, COPA DO MUNDO E LEVAR VANTAGEM, CERTO???

  12. 55 Adaly Fortunato 09/05/2012 0:23

    O problema da dengue é maior do que se pensa, não podemos acreditar que o ‘fumacê’ é a solução, pois este equipamento além de prejudicar a saúde da população, é prejudicial ao ambiente pois não é seletivo, ou seja, mata insetos predadores que atuam naturalmente com o Aedes aegypti. O mais importante contra a dengue é a popuação saber que ela faz parte do trabalho e que não podemos nos ver dependentes do governo. Façamos nossa parte removendo coisas inservíveis de nossos lares e vedando nossos reservatórios de água.

  13. 54 Leandro Varela 08/05/2012 22:59

    O prefeito Eduardo Paes acabou com o carros fumacês que estão todos apodrecendo que se não resolvia de vez o problema pelo menos mantinha sobre controle a doença.RIO EM ESTADO DE ABANDONO.

  14. 53 cezar araujo 08/05/2012 22:39

    É a dobradinha Cabral/Paes, um desastre para todos os cariocas que tem que conviver com o descaso público. O Estado e o Municipio só querem mostrar obras que emporcalham a cidade e cria transtorno para todos. O resultado é isso aí.

  15. 52 Candida Matheus Fidalgo 08/05/2012 22:31

    As pessoas vão só morrendo..só morrendo.Sobram justificativas sociais e cientificas e solução que é bom nada!!!!

  16. 51 Vander Ferreira Salles 08/05/2012 22:13

    Se eles parassem de PILHAR o dinheiro da saúde, já teriam encontrado a solução para as epidemias de dengues. O Rio NUNCA esteve tão mal em saúde e educação. O governo do Cabral é uma TRAGÉDIA!

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