Publicidade

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012 Nota | 16:01

Livro traça roteiro histórico, geográfico e afetivo da bossa nova

Compartilhe: Twitter

Diz a lenda que é mais fácil ouvir bossa nova em Tóquio do que no Rio de Janeiro, onde o gênero nasceu nos anos 50. Pois seu biógrafo principal, o jornalista Ruy Castro, resolveu mostrar que é um exagero achar que a cidade virou as costas para a música feita por Tom Jobim, Vinícius de Moraes, João Gilberto e tantos outros em “Rio Bossa Nova – Um Roteiro Lítero-Musical” (Editora Casa da Palavra).

Capa do livro "Rio Bossa Nova", de Ruy Castro (divulgação)

Capa do livro "Rio Bossa Nova", de Ruy Castro (divulgação)

Em edição bilíngue português-inglês, “Rio Bossa Nova” cobre dois aspectos. Um é histórico, recapitulando em uma arqueologia afetiva os lugares marcantes do gênero; o outro é apresentar os locais onde ainda hoje é possível ouvir algo banquinho e violão.

Apesar do esforço louvável, esta relação deixa a desejar. A listagem inclui vários pontos em que o gênero é (ou foi) visitante bissexto – embora, em geral, isso seja dito de uma forma ou outra no livro. E quase todo lugar onde isso ainda ocorre não tem estatura suficiente para virar ponto de peregrinação de aficionados.

Em vez de comprar o livro, para quem estiver interessado em saber onde escutar bossa nova é bem mais eficiente checar a programação atualizada de shows em jornais e revistas, como o próprio autor recomenda.

Gênese da bossa nova

O primeiro aspecto, de roteiro histórico, é alcançado com brilho. De forma didática e seguindo uma orientação geográfica, separando por bairros, Ruy conta a lenda dos lugares relacionados à bossa nova. Para facilitar a vida de quem não conhece muito o Rio o livro poderia contar com pequenos mapas.

Algumas histórias são mais conhecidas, como a da Casa Villarino (av. Calógeras, 6 loja b), no Centro, onde em maio de 1956 Tom Jobim e Vinícius foram apresentados e começaram a frutuosa parceria. Das mesas da antiga uisqueria – atualmente um restaurante – partiram para as primeira músicas de “Orfeu da Conceição”.

Ou o antigo endereço da Odeon, onde foram gravados entre outros o seminal LP “Canção do Amor Demais”, de Elizeth Cardoso, com João Gilberto em duas faixas apresentando ao mundo a batida bossa nova em seu violão.

Leia mais matérias sobre cultura

Há lugares menos conhecidos, como o extinto Grupo Universitário Hebraico, no Flamengo. Foi lá que o termo bossa nova foi usado pela primeira vez para definir o gênero musical nascente.

As casas de Vinícius e Tom merecem um verbete separado. São várias. E Ruy indica as principais, sempre associadas a acontecimentos ou às obras produzidas no período.

O célebre apartamento de Nara, na avenida Atlântica, onde os jovens músicos se reuniam, também consta do livro, com algumas histórias. “Ao contrário do que até hoje se repete, não foi nele que se ‘inventou a bossa nova’, e nem a bossa nova foi inventada num endereço único”, explica Ruy. “Quando a bossa nova se estabeleceu no mercado, o apartamento tornou-se uma espécie de QG da nova música, embora os mais velhos, como Jobim, Newton Mendonça e João Gilberto, não costumassem frequentá-lo”.

Cemitério e luzes piscando ao entardecer

Até o Cemitério São João Batista, em Botafogo, virou verbete. E com razão. “Eu sei, cemitérios costumam ser frios, meio mórbidos e não representam exatamente o espíritos da bossa nova, mais chegada ao sol. Mas o Père Lachaise, em Paris, também não é o Folies Bergères e, todo verão, transborda de visitantes ao túmulo do roqueiro Jim Morrison à espera de que ele ressuscite e faça seu primeiro milagre”, justifica Ruy.

Pois a comparação com o Père Lachaise também não é descabida, já que o São João Batista tem a maior concentração de famosos entre suas lápides. Da bossa foram enterrados lá Tom, Vinícius, Newton Mendonça, Sylvinha Telles, Nara Leão, Maysa, Dolores Duran, Antonio Maria, Ronaldo Bôscoli, para citar alguns.

Mas o guia apresenta endereços importantes e pouco conhecidos. Como o Instituto Cravo Albin (av. São Sebastião, 2 conj. 302), na Urca, mansão que virou um centro cultural após ser doada à cidade pelo pesquisador e produtor Ricardo Cravo Albin, um dos fundadores do Museu da Imagem e do Som. O acervo conta com pertences importantes de músicos (entre os quais chapéus de Tom Jobim, de Pixinguinha e de Moreira da Silva, violões de Cartola e Luiz Bonfá) e 30 mil discos de MPB.

E tem o Arpoador, outro verbete. Ruy lembra que a praia era frequentada pelos jovens artistas no primórdio da bossa nova. Suas pedras serviram de cenário para João Gilberto na foto da capa de seu primeiro disco.

O Arpoador também foi cenário um show emblemático. Há exatos 20 anos, Tom fez uma apresentação gratuita, ao ar livre, no fim de tarde. As pessoas assistiam deitadas na areia ou mesmo dentro do mar calmo no espírito “o barquinho vai, a tardinha cai”. Quando o sol começou a se pôr, Tom passou a tocar “Samba do Avião”. No alto, um avião da Ponte Aérea, indo para São Paulo, se aproximou e, voando mais baixo do que de costume, começou a piscar suas luzes, para delírio do público, criando um daqueles momentos míticos da relação da bossa nova com a cidade. A história não consta do livro. Com razão. É impossível reproduzir aquele instante em texto.

Autor: Tags: , , , , ,

4 comentários | Comentar

  1. 54 Samuel 07/02/2012 17:10

    Espero que o livro não seja tão saudosista quanto esse artigo. Aqui você mostra a BOSSA NOVA como algo do passado. Não é. Tenho visto jovens que, quando apresentados a BOSSA NOVA, perguntam extasiados: – Que que é isso? E eu respondo:- Isso é Música. E eles querem mais.
    Existe gente gravando e regravando BOSSA NOVA no mundo inteiro, mesmo depois que as gravadoras deram tiro no próprio pé inventando o tal do DJ, que eu considero o anti-Cristo da música. Nada como ouvir os Trios da BOSSA NOVA, piano , baixo e bateria. Pura música.
    É a BOSSA NOVA sempre maiúscula.

  2. 53 Shirlei Horta 06/02/2012 22:34

    O texto é tão perfeito, tão motivador, que eu não sei direito o que eu gostaria mais de fazer agora: ler o livro, ouvir bossa nova ou sair correndo para pegar a primeira ponte aérea para o Rio dos artistas!

  3. 52 humphrey fernandes 06/02/2012 21:57

    Cara. Nem me fala Cara. Dizem que sentir saudade é se sentir velho. Mas não é não Cara. Sentir saudade é ter amor no coração. E a bossa nova tinha e tem. Quer lembrar? Vê se lembra desses versos: Moça flor, tem a cor do amor. Seu olhar à brilhar, e uma lágrima triste querendo
    chegar. E vai por aí, tantas coisas bonitas, simples e sublimes. Falemos de Chico Feitosa, Luiz Eça, Carlos Lyra e um montão deles. A gente dedicava a cançao mais bonita pra nossa namorada. Cantei muito em barzinhos e guardo com carinho todo o meu acervo cifrado da bos-
    sa, além de CDs. Agora pergunto: O que é que os nossos filhos e netos contaram para os seus no futuro? Acabou. A cultura acabou. Não só na bossa não. Mas na linguagem musical de hoje.

  4. 51 José Tadeu Almeida Pinto 06/02/2012 20:27

    A BOSSA NOVA FOI, SEM DÚVIDAS O MAIOR ESTILO MUSICAL QUE O BRASIL JÁ CRIOU, AS MAIS BELAS LETRAS E MÚSICAS, COMPOSTAS POR VERDADEIROS POETAS E PELOS MELHORES MÚSICOS, DE UMA SENSIBILIDADE ÍMPAR! E COMO O SAMBA DE NOEL ROSA, CARTOLA, CANDEIA, NÉLSON CAVAQUINHO, PAULINHO DA VIOLA E TANTOS OUTROS, SEM SE ESQUECER DO NOSSO MAIOR COMPOSITOR, CHICO BUARQUE DE HOLANDA, SE ESPALHOU PELO MUNDO A FORA LEVANDO O QUE DE MELHOR TIVEMOS E TEMOS NA NOSSA MPB. ESTES GRANDES NOMES DA MPB, (SEM CONTAR OS QUE JÁ PARTIRAM), MAS OS QUE AINDA CONOSCO ESTÃO, DEVEM SE ENVERGONHAREM DA ATUAL PRODUÇÃO MUSICAL QUE SE FAZ ATUALMENTE NO BRASIL. TEM AINDA MUITA GENTE BOA, PRODUZINDO MÚSICA DE 1ª QUALIDADE, MAS, INFELIZMENTE A MÍDIA NÃO DÁ O DEVIDO VALOR. DÃO VALOR O QUE NÃO PRESTA, MAS INFELIZMENTE VENDE, VIROU PURO COMÉRCIO, MUITAS VEZES SEM NENHUMA QUALIFICAÇÃO. Tadeu, 06/02/2012.

  1. ver todos os comentários

Os comentários do texto estão encerrados.