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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011 Reportagem | 12:48

Angu Duro, Pata Choca, Shangrilá e outros nomes curiosos das favelas cariocas

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Shangrilá, quem diria, existe de verdade e não fica nas cordilheiras do Himalaia, mas na Taquara, em Jacarepaguá, na zona oeste carioca, e tem 835 habitantes. Também não é um paraíso idílico escondido, mas sim uma das 763 favelas da cidade do Rio, a cidade com maior número de pessoas vivendo nesse tipo de moradia em todo o País.

O Censo 2010 do IBGE divulgou as primeiras informações sobre favelas e similares – definidos pelo instituto como “aglomerados subnormais”. O interessante é observar o nome com que muitas delas foram batizadas. E o cruzamento com outros bancos de dados revelam curiosidades. Há homenagens a políticos, novelas, banqueiro do bicho, animais, áreas da cidade e até a um maestro de ópera. Muitos nomes têm origens inusitadas.

Comunidades com animais são muitas: Águia Dourada, Araras, Beco da Coruja, Beco do Carcará, Beco do Rato, Formiga, Jacaré, Jacarezinho, Caracol, Bacalhau, Cabritos, Macacos, Urubu, Pavão-Pavãozinho. Até o piolho foi lembrado, dando nome a uma favela em Jacarepaguá.

E sem se desviar do tema zoológico, existem duas favelas batizadas de Castor de Andrade, falecido banqueiro do bicho fluminense. Ambas em Bangu, área de atuação maior do contraventor, que foi presidente do time do bairro.

Monarquia, República e política

Existem três com nomes derivados da monarquia. Temos um Barão, uma Baronesa e um Visconde de Sabóia. Há denominações mais republicanas. Dois ex-governadores foram eternizados. Há o Beco do Brizola (em Paciência), e uma comunidade Negrão de Lima, perto do viaduto em Madureira que leva seu nome. E dois presidentes foram lembrados. Tancredo Neves foi duas vezes (em Bangu e no Jacarezinho). E há um Parque João Goulart, em Manguinhos, onde também existe uma comunidade com o nome do sanitarista Carlos Chagas. Chico Mendes deu nome a dois “aglomerados subnormais”. Sobra até para músicos. Existe o Conjunto Ataulfo Alves.

E mesmo longe de Washington o Rio também tem uma Casa Branca, que fica na Tijuca e foi recentemente pacificada.

Certos batismos evidenciam uma orientação ideológica. Força do Povo, em Anchieta, foi fruto de uma ocupação feita por cem integrantes do MTT (Movimento dos Sem Teto e Sem Terra) na década de 90. Ou a Ocupação Olga Benário Prestes, em Campo Grande, mais recente.

Mas nomes politizados são minoria. Novelas são uma constante no batismo de ocupações irregulares. E de todas as épocas. Cambalacho, surgiu em 1987. Na década anterior foi criada a Te Contei. E nos anos 90 foi a vez de Torre de Babel e Uga Uga. Há também um Parque Criança Esperança e uma favela Pica Pau Amarelo.

Dom da ubiquidade

Nomes religiosos são bem mais frequentes: Espírito Santo, Deus é Vida, Cosme e Damião, Fé em Deus, da Fé, Nova Canaã… Há também um Parque João Paulo II e uma Vila dos Crentes.

E Santos e Santas para quase todas as devoções. Às vezes replicados. Nossa Senhora da Conceição são três. Aliás, o que não falta é Nossa Senhora… da Penha, de Fátima, da Apresentação, da Guia, da Glória, das Graças, da Paz. E temos Jardim São Bento; Loteamento São Sebastião; Morro São João, São José e Santa Marta.

Santas temos Alexandrina (duas vezes), Anastácia, Mônica, Clara (duas), Efigênia, Luzia, Maria, Maura, Rosa e Terezinha. E com santos há espaço para os mais obscuros. Usaram São Carlos, Diogo, Gomário (aparentemente seria o santo dos casamentos em crise, para quem se interessar), Gonçalo do Amarante (que é beato, não é santo), Francisco de Assis, Jerônimo, Jorge (duas), Miguel, Miguel Arcanjo, Pedro; Santo Amaro, Antônio (duas), André, Jorge (outras duas).

Um caso à parte é São Sebastião que, mais do que outros, tem o dom da ubiquidade no Rio. Além de padroeiro da cidade – que leva seu nome na certidão de batismo – , ele comparece em um loteamento, um morro e uma vila.

Angu Duro e Pata Choca

Com origem em time de futebol existe a Barreira do Vasco, colada ao campo de São Januário, em São Cristóvão. Ela foi formada por soldados que retornaram da Segunda Guerra Mundial sem ter onde morar. O terreno acabou desapropriado pelo então presidente Getúlio Vargas na década de 50.

Sentimentos e conceitos são sempre lembrados. Há morro da Liberdade, da Esperança, do Sossego, do Amor e do Adeus; e vilas Progresso, Harmonia, Paz e União, por exemplo.

Alguns nomes são otimistas. Além de Shangrilá, temos uma Vila Paraíso, uma Porta do Céu, uma Vila do Céu, uma favela Pedacinho do Céu e uma Céu Azul. Outras não douram a pílula, como exemplificam uma Vila Vintém, uma Vila Miséria,

Nomes esquisitos são muitos. Tem Angu Duro, instalada no Itanhangá desde a década de 30; Cachorro Sentado, que surgiu de um sítio no Recreio dos Bandeirantes. Duas levam o nome de Final Feliz. Também há Fubá, Querosene, Gari, Mata Quatro, Pata Choca, Pretos Forros, Sanatório, Buraco Quente; Faz Quem Quer.

Mas talvez o mais inusitado nome de comunidade no Rio seja Maestro Arturo Toscanini, em homenagem ao regente italiano de fama mundial que iniciou a carreira quase que por acaso no Theatro Municipal. Tem 185 moradores e fica no Tauá, na Ilha do Governador.

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10 comentários | Comentar

  1. 60 Renato S. Christo 30/12/2011 11:43

    MORRO DO JURAMENTO

  2. Luiz Antonio Ryff 30/12/2011 12:35

    São 763 favelas. É muita coisa e muito nome curioso. Fiz uma seleção. Caberiam outras, como a do Escondidinho, como lembrou o Osmair. Ou uma seleção com nomes indígenas, como sugeriu o José Roberto.
    Mas não consta favela do Rato Molhado na listagem do Censo. Deve estar com outro nome. Também não tem Zinco, nem Mineira, por exemplo.
    Abraços
    LAR

  3. 59 Jose Luiz 30/12/2011 11:37

    Esqueceram da favela do RATO MOLHADO.

  4. 58 José Roberto 30/12/2011 11:17

    Excelente texto, Luiz,
    Cabe entretanto, alguns comentários. Moro na Ilha do Governador desde que nasci e conheço bem seus cantinhos. Maestro Artutro Toscanini é, na verdade, o nome de uma rua. Difícil para os cidadãos humildes imaginar tal nome! A favela próxima chama-se Querosene. Aliás, uma rua cruza duas vezes a Rua maestro Arturo Toscanini: a Noemia da Silveira que é o endereço da escola Municipal Capitão de Fragata. Bem próxima a esses lugares fica a gigante favela Morro do Dendê, que em tamanho somente perde para a Rocinha e o Jacarezinho. Poderia constar no seu texto algumas favelas cujos nomes têm origem indígena. Só na Ilha há umas três ou quatro: Dendê, Guarabu, Pixuna, Tubiacanga. A verdade é que não deveria existir tantas favelas em nossa cidade. Somente aqui na Ilha há uma vinte e com nomes bem criativos. E não se trata de comunidade pequena, não! Pelo contrário, são enormes. O Morro do Barbante, por exemplo, é um colosso colado ao muro do Aeroporto Tom Jobim (Galeão). E esta favela é um morro de grande altura. Você não vai acreditar, mas, além do Aeroporto, em torno do Barbante, há a antiga Funabem, que é um presidio para menores infratores, há um presídio feminino, um outro presídio de nome Padre Severino e, pasme, vários quatéis militares, além da Base Aérea do Galeão. Se não acredita, veja um mapa qualquer do bairro. Outras grandes favelas da Ilha: Morro do INPS, Serra Morena, Zaquia Jorge, João Teles de Menezes, Morro do Boogie Oogie (acredita?), Praia da Rosa, Morro da Prefeitura, Morro do Barão, Colônia Z10 e aquela que foi a primeira a ser contemplada por Cesar Maia com o RioCidade nos idos dos anos 90: A favela do Maruim, também chamada de Parque Royal. Não é “show de bola”?
    Abração.

  5. 57 hugo albino 30/12/2011 9:36

    Beco do rato não é uma favela. É um bar de samba que existe no bairro da Lapa,no centro da cidade.

  6. 56 Osmair Camargo 30/12/2011 8:49

    FAVELA DO ESCONDIDINHO

  7. 55 tuil 30/12/2011 8:09

    Tem gente que não tem o que fazer…

  8. 54 Ivan 30/12/2011 6:50

    Brincadeira a criatividade do povo,mas o comentarista esqueceu boa parte destes,tipo:rato molhado entre outros.

  9. 53 Marcelo 29/12/2011 23:10

    Tem também a Cesar Maia aqui em Jacarepaguá!

  10. 52 José Maria Alves de Souza 29/12/2011 17:38

    Faltou citar a favela do Rato Molhado no Engenho de Dentro.

  11. 51 Iguanodonte 29/12/2011 16:34

    Devia ter uma favela do Trabalho, comunidade de Segunda Feira, Favela da CLT, Morro do Honesto.

    Só tem nom esquisito.

    Não sei como não apareceu a comunidade do (MFNT) Morro de Fome Mas não Trabalho.

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