Publicidade

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011 Reportagem | 16:04

Após três anos, favela com primeira UPP quer mais serviço para ‘bacanas’

Compartilhe: Twitter

José Mário Hilário dos Santos levanta a placa de zinco encostada na base da parede de uma casa. Ela esconde um buraco sem iluminação com um líquido escuro viscoso no fundo e um odor fétido e nauseante que passa embaixo da moradia.  É uma das muitas valas negras que permeiam as vielas da favela Santa Marta, na zona sul carioca.

Presidente da associação de moradores da Santa Marta, José Mário, 51 anos, não titubeia em apontar o saneamento precário como o principal problema da comunidade. “Agora a gente paga a taxa da Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgoto) e ainda temos esgoto a céu aberto”, lamenta ele enquanto coloca a placa de zinco no lugar.

Basta um passeio pela favela para constatar que a coleta de lixo também é um problema longe da solução, com detritos jogados nas escadarias e nos becos.

Vista do alto da favela Santa Marta

Vista do alto da favela Santa Marta

Encravada entre Laranjeiras e Botafogo, com 1.262 famílias segundo o Censo de 2000 (último dado oficial disponível), a Santa Marta recebeu a primeira UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) há exatos três anos, em dezembro de 2008. Palco do clipe “They Don’t Care About Us”, de Michael Jackson, em 1996, a favela  foi “o laboratório” das UPPs, como definiu o governador Sérgio Cabral, que promete ampliar a experiência das 18 comunidades atuais para 40 até 2014, quando haverá a Copa do Mundo.

788 degraus até o topo

Vista da favela Santa Marta

Vista da favela Santa Marta, com a lagoa Rodrigo de Freitas ao fundo

Após a pacificação, turistas começaram a subir o morro, curiosos para conhecer um outro lado da cidade. No alto, a 788 degraus do asfalto,  se descortinam vistas deslumbrantes do Cristo Redentor, da lagoa Rodrigo de Freitas, do Pão de Açúcar e da enseada de Botafogo.  A garotada da zona sul também frequenta a quadra da Escola de Samba Mocidade Unida do Santa Marta, que fica na parte baixa.

Da última vez em que subi o Santa Marta (também conhecido como Dona Marta), José Hilário já era o presidente da associação de moradores e era um pouco reticente sobre a ocupação pela PM após a expulsão dos traficantes que dominavam o local. Não era a primeira vez que isso ocorria. Da outra vez, em 1999, os traficantes voltaram.

“O começo foi tenso. O favelado nunca vai confiar na polícia de uma hora para a outra”, diz ele, que nasceu no morro. Dois anos e meio depois, virou um entusiasta do processo. “Agora só temos os problemas comuns do resto da cidade, como discussões de vizinhos por causa do som alto”, exemplifica com um sorriso largo.

Na esteira da entrada da polícia o poder público entrou com serviços sociais: de médico de família a cursos de empreendedorismo, de iluminação pública a aulas de inglês, espanhol, música e artes marciais.  Um plano inclinado de 450 metros foi construído. E a favela foi a primeira a ganhar uma rede de internet sem fio.

“A gente quer o estado dentro da comunidade. Queremos segurança, educação, cultura, esporte e lazer, saúde, moradia digna… Se tivessem feito há 50 anos o que estão fazendo hoje, não seria preciso UPP. Agora estão nos dando o que é nosso direito. Mas ainda falta… Bacana tem rua asfaltada, arborizada”.

José Mario diz que os moradores são favoráveis a essa inclusão formal, mesmo que isso represente um gasto extra, como na substituição de ligações clandestinas de TV a cabo pelas oficializadas. “Antigamente, as empresas prestavam serviço até o pé do morro. Faziam para os bacanas e não queriam botar para a gente. Hoje a gente é cliente como qualquer um. Tem problema? Ligamos para a empresa. Fez errado? Procon neles”.

De cusparadas a abraços

A major Pricilla conversa com crianças que saem da aula de caratê

A major Pricilla conversa com crianças que saem da aula de caratê

Para a polícia houve um aproximação da relação com os moradores, que chegavam a cuspir no chão ao passarem por PMs. No início, a então capitã Pricilla Azevedo, a pioneira no comando de uma UPP, andava com um colete à prova de bala pesando seis quilos e acompanhada de escolta com fuzis. Havia receio de uma tentativa de retomada, o que nunca ocorreu.

Agora, em visita à comunidade, já como major e coordenadora de programa estratégico da Secretaria de Segurança Pública (espécie de assessora de planejamento para UPPs), Pricilla anda sozinha, de vestido preto colado ao corpo, sem arma. As crianças e mulheres fazem festa, abrem sorrisos, dão beijos e abraços.

“A dificuldade maior é conquistar a confiança do morador. Expulsar traficante é fácil. E hoje estão fugindo da gente. Mas confiança é algo íntimo”, compara.

Chamem o síndico

O comandante da UPP, capitão Andrada, em um mirante da favela

O comandante da UPP, capitão Andrada, em um mirante da favela

Do ponto de vista da segurança pública a pacificação é um sucesso inconteste. Não houve nenhum homicídio na favela, que foi palco de confrontos sangrentos nos anos 80 e 90.  E não houve tampouco qualquer registro de apreensão de armas nos últimos anos.

A droga continua a circular na favela, mas para consumo pessoal. Foram 26 apreensões de janeiro de 2010 até junho deste ano. “Mas quem vem de fora para comprar, hoje, é difícil conseguir”, afirma o capitão Rodrigo Andrada, lembrando que, um ano antes da implantação da UPP a polícia apreendeu uma tonelada de maconha no morro.

Ele conta que a maioria das ocorrências atualmente é para resolver brigas de casais ou entre vizinhos. E para levar moradores que passam mal até o posto de saúde nas viaturas.

A PM acabou se tornando a para-raios de todos os problemas e anseios da comunidade. “Viramos a referência do estado nessas comunidades. Não é nosso papel, mas não causa mal nenhum. É um papel de síndico”, avalia Pricilla.

Como a ilustrar a história, um rapaz se aproxima e interrompe a conversa pedindo para falar com o capitão Andrada. O morador reclama do estado do piso do campo de futebol no alto da favela e pede para o policial resolver a questão.

“Os traficantes resolviam tudo e isso criava uma acomodação entre os moradores. Eles esperam que alguém resolva as coisas para eles. Antes era o traficante, agora é o comandante da UPP”, observa Pricilla, sinalizando que há ainda um longo caminho a percorrer na integração entre asfalto e morro.

José Mário Hilário, presidente da associação de moradores da favela Santa Marta

O presidente da associação de moradores, José Mário Hilário, mostra um dos valões de esgoto

Autor: Tags: , , ,

12 comentários | Comentar

  1. 62 wanderley 01/12/2011 23:26

    Tudo bem, tudo bom, mas ainda falta muita coisa, primeiro conscientizazção dos próprios moradores, se querem melhores briguem por ela, lutem, façam sua parte, de que adianta ter serviço de coleta de lixo se assim como na rua jogam o lixo em qq lugar.
    Reclamam da incapacidade do Estado mas não acompanham seus filhos qd estes estão em alguma atividade esportiva e/ou em curso ou atividade.
    A melhoria tem de começar dentro de casa, com valorização da família, do seu lar, reclamam do som alto do vizinho, mas qd estão bebados fazem a maior algazarra.
    Todos tem sua parcela de responsabilidade e fazer por onde as coisas melhorem.
    “Vem vamos embora que espera não é fazer, quem sabe faz a hora não espera acontecer”.

  2. 61 CAVALO 01/12/2011 22:52

    O PRESIDENTE TA RECLAMANDO DE ESGOTO A CEU ABERTO E COLETA DE LIXO , ACHO QUE TEM QUE EXPLICAR QUE ELE MORA EM UMA FAVELA, E FAVELA E ASSIM MESMO, NIMGUEM COMPROU NADA, EU PAGUEI R$ 550.000,00 PELO MEU APARTAMENTO, E ESSES FAVELADOS?

    FALA SERIO ESTOU COBRANDO ATE HOJE DAS AUTORIDADES SEGURANÇA , MESMO PORQUE 99,9% DOS LADROES SAEM DAS FAVELAS OU VAO DIZER AGORA QUE NÃO OS LADROES MORAM NO ASFASTO.

    FALA SERIO

  3. 60 Fabio 01/12/2011 22:03

    Tá bom….conta outra.

  4. 59 marcelo 01/12/2011 21:26

    A favela Dona Marta não chega a ser um bom exemplo, pois é uma comunidade pequena e muito ajudada por entidades e governos.

  5. 58 RONALDO 01/12/2011 21:16

    ACHO QUE NUM TEVE MELHORIA NENHUMA A NÃO SER A MAIOR OBRIGAÇÃO DO ESTADO DE CONTER A VIOLÊNCIA, PRINCIPALMENTE, EM LUGARES DE ALTO RISCO.ACHO QUE DEVE HAVER UMA CONSCIENTIZAÇÃO DA POPULAÇÃO DAS FAVELAS DE QUE É PRECISO COBRAR AQUILO QUE FALTA PARA O PODER EXECUTIVO E LEGISLATIVO LOCAL.ESSE FATO DE DÁ MUITO PODER AO POLICIAL REFLETE UM LADO NEGATIVO JÁ SUPRACITADO PELO COMENTÁRIO PELO ALFREDO…

  6. 57 Nike 01/12/2011 19:47

    CONTA OUTRA!
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  7. 56 jadiel 01/12/2011 19:27

    COMO SER HUMANO E COMO BRASILEIRO, VEJO ESSA NOTICIA MUITO BOA, POREM FICA SÓ UMA PERGUNTA ISSO É VERDADE TEM FATOS, PROVA, ATRAVÉS DE B.O. INSTITUTO MEDICO LEGAL OU DE ALGUMA ENTIDADE DE DIREITOS HUMANOS, SEI QUE QUEREMOS VER PAZ MUDANÇA NÃO SÓ NAS FAVELAS MAS SIM NOS TRANSITOS, NOS CAIXAS ELETRONICOS, NAS NOSSAS RESIDENCIAS, EMFIM PAZ DE MODO GERAL, MAS SE FOR UMA NOTICIA SOMENTE DO LADO COR DE ROSA….AI FICAMOS DE NOVO NA MESMA SITUAÇÃO…

  8. 55 caio 01/12/2011 19:09

    será ?????????????????????????????????????????

  9. 54 lincoln pereira 01/12/2011 18:47

    ESTIVE SEMANA PASSADA NO MORRO DA SANTA MARTA PARA DANÇAR PARA O DIRETOR DO COMITE ORGANIZADOR DOS JOGOS OLIMPICOS E PARAOLIMPICOS DE LONDRES E PARA PHILIP , SECREATRIO DA EMBAIXADA BRITANICA DE BRASILIA EM UMA ESCOLA DE SAMBA NA COMUNIDADE. CONFESSO QUE FIKEI APREENSIVO AO SABER QUE TERIA QUE IR LA. MAS CONFESSO QUE FOI UM DIA SUPER AGRADAVEL E TRANQUILO…. PARABENS COMUNIDADE DO SANTA MARTA!!!

  10. 53 Maria 01/12/2011 18:06

    Incrível a mudança que a UPP jpa trouxe para a comunidade. As reivindicações dos moradores agora são as reivindicações de qualquer morador de uma grande cidade. Ou seja, a o Rio começa, de fato, a ser uma cidade menos partida.

  11. 52 ALFREDO SANTA RITA 01/12/2011 18:04

    O Cmt da UPP tem que ser houvido com atenção dos dois lados, com muita atenção e com resposta rápida. Caso contrário a UPP pode se transformar em uma “dor de cabeça” incontrolável, bancada pelo estado. Autoridade comunitária é “faca de dois gumes”.

  12. 51 fernando 01/12/2011 18:03

    É isso aí!

    Paz e amor…todo mundo da favela agora é gente boa, honesto e trabalhador que paga os impostos, sem fazer gambiarras, e querem saneamento…

  1. ver todos os comentários

Os comentários do texto estão encerrados.