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Arquivo de dezembro, 2011

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011 Reportagem | 12:48

Angu Duro, Pata Choca, Shangrilá e outros nomes curiosos das favelas cariocas

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Shangrilá, quem diria, existe de verdade e não fica nas cordilheiras do Himalaia, mas na Taquara, em Jacarepaguá, na zona oeste carioca, e tem 835 habitantes. Também não é um paraíso idílico escondido, mas sim uma das 763 favelas da cidade do Rio, a cidade com maior número de pessoas vivendo nesse tipo de moradia em todo o País.

O Censo 2010 do IBGE divulgou as primeiras informações sobre favelas e similares – definidos pelo instituto como “aglomerados subnormais”. O interessante é observar o nome com que muitas delas foram batizadas. E o cruzamento com outros bancos de dados revelam curiosidades. Há homenagens a políticos, novelas, banqueiro do bicho, animais, áreas da cidade e até a um maestro de ópera. Muitos nomes têm origens inusitadas.

Comunidades com animais são muitas: Águia Dourada, Araras, Beco da Coruja, Beco do Carcará, Beco do Rato, Formiga, Jacaré, Jacarezinho, Caracol, Bacalhau, Cabritos, Macacos, Urubu, Pavão-Pavãozinho. Até o piolho foi lembrado, dando nome a uma favela em Jacarepaguá.

E sem se desviar do tema zoológico, existem duas favelas batizadas de Castor de Andrade, falecido banqueiro do bicho fluminense. Ambas em Bangu, área de atuação maior do contraventor, que foi presidente do time do bairro.

Monarquia, República e política

Existem três com nomes derivados da monarquia. Temos um Barão, uma Baronesa e um Visconde de Sabóia. Há denominações mais republicanas. Dois ex-governadores foram eternizados. Há o Beco do Brizola (em Paciência), e uma comunidade Negrão de Lima, perto do viaduto em Madureira que leva seu nome. E dois presidentes foram lembrados. Tancredo Neves foi duas vezes (em Bangu e no Jacarezinho). E há um Parque João Goulart, em Manguinhos, onde também existe uma comunidade com o nome do sanitarista Carlos Chagas. Chico Mendes deu nome a dois “aglomerados subnormais”. Sobra até para músicos. Existe o Conjunto Ataulfo Alves.

E mesmo longe de Washington o Rio também tem uma Casa Branca, que fica na Tijuca e foi recentemente pacificada.

Certos batismos evidenciam uma orientação ideológica. Força do Povo, em Anchieta, foi fruto de uma ocupação feita por cem integrantes do MTT (Movimento dos Sem Teto e Sem Terra) na década de 90. Ou a Ocupação Olga Benário Prestes, em Campo Grande, mais recente.

Mas nomes politizados são minoria. Novelas são uma constante no batismo de ocupações irregulares. E de todas as épocas. Cambalacho, surgiu em 1987. Na década anterior foi criada a Te Contei. E nos anos 90 foi a vez de Torre de Babel e Uga Uga. Há também um Parque Criança Esperança e uma favela Pica Pau Amarelo.

Dom da ubiquidade

Nomes religiosos são bem mais frequentes: Espírito Santo, Deus é Vida, Cosme e Damião, Fé em Deus, da Fé, Nova Canaã… Há também um Parque João Paulo II e uma Vila dos Crentes.

E Santos e Santas para quase todas as devoções. Às vezes replicados. Nossa Senhora da Conceição são três. Aliás, o que não falta é Nossa Senhora… da Penha, de Fátima, da Apresentação, da Guia, da Glória, das Graças, da Paz. E temos Jardim São Bento; Loteamento São Sebastião; Morro São João, São José e Santa Marta.

Santas temos Alexandrina (duas vezes), Anastácia, Mônica, Clara (duas), Efigênia, Luzia, Maria, Maura, Rosa e Terezinha. E com santos há espaço para os mais obscuros. Usaram São Carlos, Diogo, Gomário (aparentemente seria o santo dos casamentos em crise, para quem se interessar), Gonçalo do Amarante (que é beato, não é santo), Francisco de Assis, Jerônimo, Jorge (duas), Miguel, Miguel Arcanjo, Pedro; Santo Amaro, Antônio (duas), André, Jorge (outras duas).

Um caso à parte é São Sebastião que, mais do que outros, tem o dom da ubiquidade no Rio. Além de padroeiro da cidade – que leva seu nome na certidão de batismo – , ele comparece em um loteamento, um morro e uma vila.

Angu Duro e Pata Choca

Com origem em time de futebol existe a Barreira do Vasco, colada ao campo de São Januário, em São Cristóvão. Ela foi formada por soldados que retornaram da Segunda Guerra Mundial sem ter onde morar. O terreno acabou desapropriado pelo então presidente Getúlio Vargas na década de 50.

Sentimentos e conceitos são sempre lembrados. Há morro da Liberdade, da Esperança, do Sossego, do Amor e do Adeus; e vilas Progresso, Harmonia, Paz e União, por exemplo.

Alguns nomes são otimistas. Além de Shangrilá, temos uma Vila Paraíso, uma Porta do Céu, uma Vila do Céu, uma favela Pedacinho do Céu e uma Céu Azul. Outras não douram a pílula, como exemplificam uma Vila Vintém, uma Vila Miséria,

Nomes esquisitos são muitos. Tem Angu Duro, instalada no Itanhangá desde a década de 30; Cachorro Sentado, que surgiu de um sítio no Recreio dos Bandeirantes. Duas levam o nome de Final Feliz. Também há Fubá, Querosene, Gari, Mata Quatro, Pata Choca, Pretos Forros, Sanatório, Buraco Quente; Faz Quem Quer.

Mas talvez o mais inusitado nome de comunidade no Rio seja Maestro Arturo Toscanini, em homenagem ao regente italiano de fama mundial que iniciou a carreira quase que por acaso no Theatro Municipal. Tem 185 moradores e fica no Tauá, na Ilha do Governador.

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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011 Nota | 13:10

Desembarque demora mais do que voo

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Dia de Natal, voo 1395 da Gol – de Congonhas, em São Paulo, para o Galeão, no Rio de Janeiro. O trajeto entre as duas cidades é feito em 41 minutos.

Entre o pouso e o desembarque são gastos 10 minutos. Já a entrega da bagagem dos 18 passageiros que desceram do avião leva mais meia hora. No total, gasta-se tanto tempo voando quanto no desembarque. A justificativa dos funcionários da companhia aérea: Falta veículo para transportar as malas até o terminal.

Faltam dois anos e meio para a Copa do Mundo.

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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011 Nota | 08:08

Cidades turísticas são as mais favelizadas no Rio

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Angra dos Reis e outras quatro cidades turísticas lideram o ranking de cidades mais favelizadas no estado do Rio. Mangaratiba, Teresópolis, Arraial do Cabo e Cabo Frio fecham a lista dos municípios fluminenses entre os 30 com maior proporção de residências em favelas no País, segundo informações sobre aglomerados subnormais do Censo 2010 do IBGE.

Diferente do que ocorre na maioria do Brasil, entretanto, elas não estão na região metropolitana da capital, evidenciando o fenômeno recente do processo de favelização longe das grandes concentrações urbanas. Em todo caso, o problema é enfrentado por quase metade dos municípios do estado – 42 dos 92.

Com essas cinco cidades, as três principais regiões turísticas do estado estão representadas. Com 60.009 de seus 169.247 habitantes em favelas (35,5%), Angra dos Reis, no litoral sul do estado é a que tem maior concentração per capita. Mangaratiba, na mesma região, vem com 24,1% (8.756 pessoas). Na Serra,Teresópolis surge com 41.809 dos 163.404 moradores (25,6% do total).

Duas cidades do litoral norte do estado, na região dos Lagos, também aparecem na lista nacional das 30 mais favelizadas. Arraial do Cabo tem 6.645 de seus 27.652 moradores vivendo em aglomerados subnormais (24%). E a vizinha Cabo Frio, que tem 22,6% (41.914 de 185.684 habitantes).

O ranking é de número de residências mas, na proporção de população, outra cidade importante surge colada às demais: é a capital, que tem 22,15% de seus habitantes em favelas. São 10 pontos percentuais acima da média do estado, que é de 12,69%. A capital também responde por 82,1% das residências em favela em toda a região metropolitana.

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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011 Nota | 18:30

Favelas cariocas cresceram seis vezes mais que resto da cidade nos últimos 20 anos

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Nos últimos 60 anos, o número de moradores em favelas registrado pelo IBGE no Rio de Janeiro cresceu 723%. Um ritmo três vezes superior ao da cidade como um todo, que aumentou 175% nas seis décadas. Nesse período, a quantidade de habitantes vivendo no resto da capital subiu 123,13%. Ou seja, percentualmente, a população nas favelas cresceu cinco vezes mais do que a do resto da cidade. O Rio é a cidade com o maior número de pessoas vivendo nesses tipos de moradias em todo o País.

Da penúltimo contagem do Censo para a atual a discrepância foi ainda maior. Comparando os dados de 1991 e de 2010, as favelas cresceram 58% no período. Seis vezes mais do que o resto da cidade, que aumentou 7,29%. Mas é preciso fazer algumas observações.

Em 1953, o IBGE lançou “As favelas do Distrito Federal e o Censo Demográfico de 1950”. Na época, quando o Rio era a capital do País, foi apurado que 7,2% dos habitantes moravam em favelas (169.305 pessoas). Hoje, os dados divulgados nesta quarta-feira (21) pelo Censo 2010 revelam que a cidade está com 1.393.314 pessoas vivendo nas favelas. Ou cerca de 22,15% da população.

Há 60 anos, o instituto usava o termo favela, posteriormente abandonado. Em seu lugar, para o Censo de 1991, foi criado o conceito de “aglomerado subnormal”, uma tentativa de englobar as diversas manifestações de assentamentos irregulares existentes no país (favelas, invasões, grotas, baixadas, comunidades, vilas, ressacas, mocambos, palafitas, entre outros).

Essa mudança impossibilita a criação de uma série histórica sobre o assunto. O próprio IBGE vê com ressalvas a comparação entre diferentes censos.

Inovações na pesquisa

A principal argumentação é que para o de 2010 foram adotadas uma série de inovações metodológicas e operacionais que refinaram a identificação e a atualização dos tais aglomerados. Pela primeira vez foram usadas imagens de satélite de alta resolução, por exemplo. Também foi feita uma pesquisa sobre as características morfológicas das áreas (Levantamento de Informações Territoriais – LIT).

Por isso, o IBGE salienta que, no geral, “os resultados não são diretamente comparáveis com os obtidos por censos anteriores.”

Nos últimos censos, no que diz respeito aos aglomerados subnormais, as informações sobre certas localidades foram mais precisas do que sobre outras. Os dados referentes ao Rio, entretanto, tinham uma qualidade melhor, de acordo com especialistas do IBGE.

Brancos eram maioria e analfabetos também

Em todo caso, ressalvado a melhoria na coleta de dado, não há erro em dizer que, em 1950 o IBGE registrou 169.305 moradores em favela no então Distrito Federal, e contabilizou 1.393.314 vivendo nos aglomerados subnormais em 2010.

Para além da mudança de termo empregado, é bom ressalvar que morar em uma favela carioca em 2010 é diferente de viver em uma há 60 anos. Em sua quase totalidade, hoje, as moradias são construções em alvenaria, a maioria com sistema de esgoto, luz e água.

Na época, a Rocinha já existia, mas estava longe de ser a maior do País e mesmo da cidade. Contava com 4.513 habitantes – tinha um quase imperceptível predomínio feminino (2.267 a 2.246). A maior da capital federal era a do Jacarezinho, com 18.424 pessoas – o quádruplo de habitantes.

Diferente do que ocorre hoje,  a maioria dos moradores não sabia ler ou escrever (61,91%). Da população, 28,96% eram brancos; 35,07% eram pretos e 35,88% eram pardos. Ou seja, proporcionalmente diminuiu o número de pretos e aumentou muito o de brancos, pelo registro do IBGE.

Solteiros eram 47,51%. Casados menos da metade disso: 22,92%. E surpreendentemente, 23,40% das pessoas que moravam em favelas não tinham qualquer registro civil.

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Nota | 10:00

Rio é cidade com maior número de moradores de favela no País

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Se todos os moradores de favela no Rio de Janeiro formassem uma cidade a parte, ela seria a 12ª maior do País em população. Com seus 1.393.314 habitantes, ficaria entre Belém e Goiânia, segundo dados do Censo 2010 divulgados nesta quarta-feira (21).

De cada 100 mil pessoas que vivem na capital fluminense, 22.160 estão nas favelas – ou nos aglomerados subnormais, que é a terminologia específica utilizada pelo IBGE para definir uma série de agrupamentos de habitações precárias. Na definição do IBGE “é um conjunto constituído por no mínimo 51 unidades habitacionais (barracos, casas… ), ocupando ou tendo ocupado até período recente, terreno de propriedade alheia (pública ou particular) dispostas, em geral, de forma desordenada e densa; e carentes, em sua maioria de serviços públicos e essenciais”.

Com suas 763 favelas, o Rio é a cidade com maior número de pessoas morando nos tais aglomerados subnormais em todo o Brasil. Em números absolutos não tem para ninguém – é a campeã. Proporcionalmente, contudo,  há outras à sua frente. Caso de Marituba, no Pará, onde 77,2% da população vive em favelas e similares. Entre as 27 capitais, Belém também se destaca, com quase metade da população nessa situação (54,48%). O Rio também fica atrás de Salvador (33,07%), São Luis (23%) e Recife (22,85%) sob esse ângulo.

Segundo o censo 2010, na cidade carioca existem 426.965 domicílios em favelas (19,89% de todas as residências).

74% dos moradores vivem com até um salário mínimo

E que retrato o IBGE faz desse universo? Da divulgação feita hoje só constam os primeiros dados. Uma visão mais aprofundada vai ficar para uma segunda etapa, em meados do próximo ano.

Por enquanto dá para saber, por exemplo, que de cada 10.000 trabalhadores que moram nas favelas cariocas, 7.400 ganham até um salário mínimo e 35 recebem mais do que cinco salários mínimos. Os números do Rio mostram que 93,84% dos moradores de favelas com mais de 10 anos são alfabetizados. Pardos são quase a metade da população, com 690.366 pessoas. E há praticamente o dobro de brancos (461.284) em relação aos pretos (227.148) vivendo nas comunidades.

Como ocorre nacionalmente, no Rio também há mais mulheres morando em favelas do que homens. São 713.782 e 679.532, respectivamente. E 32,03% dos habitantes são menores de idade. E 45,45% têm menos de 25 anos.

O censo 2010 dirimiu uma questão recorrente: qual a maior favela do Brasil. É a Rocinha, em São Conrado, com 69.161 moradores. Sozinha, a Rocinha tem mais habitantes do que a população que vive em favelas em outros 40 municípios do estado, além da capital. Apenas Niterói, com 79.623 pessoas nos aglomerados subnormais, tem um número maior.

No ranking nacional, Rio das Pedras, na zona oeste carioca, está em terceiro, com 54.793. Contudo, se considerarmos que ela forma um complexo com a comunidade de A.M. e Amigos de Rio das Pedras, com 8.689 moradores, esse número pularia para 63.482 habitantes, ultrapassando a Rocinha.

Outra revelação é que a média de moradores por domicílio nas favelas cariocas é de 3,3 pessoas por habitação. Não é muito distante do percentual do resto da cidade, que é de 3 pessoas por residência.

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sábado, 17 de dezembro de 2011 Reportagem | 09:16

Búzios lidera ranking de homicídios no Rio; Paraty está em quarto

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Se hoje estivesse atrás de sossego e privacidade, como há quase 50 anos, Brigitte Bardot provavelmente não colocaria os pés em Búzios. Não só pela pequena e tranquila vila de pescadores que a atriz francesa praticamente colocou no mapa ter se transformado em um dos destinos turísticos mais movimentados do País, com a infraestrutura sobrecarregada nos meses de férias. É que esse pequeno balneário fluminense se transformou também em uma das cidades onde mais se mata no Brasil. Foi a cidade com maior número de homicídios per capita entre as 92 do estado do Rio de Janeiro entre 2008 e 2010.

Com cerca de 27 mil habitantes, o município de Armação dos Búzios (seu nome completo) figura em 46º na listagem nacional de número de homicídios. São 71,2 mortos por 100 mil habitantes. Pouco menos da metade da campeã desse ranking macabro, Simões Filho, na Bahia, com 146,4 por 100 mil habitantes.

Essa informação faz parte do “Mapa da Violência 2012″, levantamento feito pelo Instituto Sangari com dados do Ministério da Saúde, que compila os registros de óbitos em todo o território nacional.

Para efeito de comparação, a chance de ser morto em Búzios é praticamente a mesma de em Honduras, país da América Central que sofre com a atividade de cartéis de drogas e onde, segundo o governo dos EUA, o “crime é endêmico”. Por lá a média de assassinatos em 2010 foi de 82 por 100 mil habitantes, segundo dados de um estudo da ONU divulgado recentemente. A média global no ano passado, aliás, foi de 6,9 por 100 mil (embora nem todos os países façam parte do levantamento ou tenham estatísticas confiáveis).

Paraty e Cabo Frio entre as mais violentas

Segundo especialistas, a região dos Lagos, onde Búzios fica, é área de atuação de traficantes, inclusive com disputa de território. O consolo para Búzios é que o número de homicídios decaiu sensivelmente nesses três anos. Passaram de 26 em 2008, para 21 em 2009 e 12 no ano passado.

Localizada a 165 km ao norte da capital, Búzios está à frente de cidades da Baixada Fluminense, tradicionalmente violentas. É o caso da segunda do ranking no estado, Duque de Caxias, na região metropolitana, com 67,1 mortos por 100 mil.

Para mostrar que o problema não se restringe a Búzios, mas afeta toda a região dos Lagos, também ficam lá os municípios em terceiro e o quinto lugar entre aqueles com o maior número de homicídios entre 2008 e 2010.

O terceiro é Cabo Frio – outra cidade turística. É o 66º da listagem nacional, com 65,1 assassinatos por 100 mil. É bom lembrar que, até 1995, Búzios era um distrito de Cabo Frio.

A quinta mais violenta do estado surge na 150ª posição nacional. É Macaé, a 75 km de Búzios, que tem experimentado um crescimento populacional grande em função do boom da exploração do petróleo (50,9 por 100 mil).

Entre as duas está uma outra importante cidade turística. Paraty, sede da Flip, é a 89ª, e registrou 60,5 homicídios por 100 mil habitantes no período.

Cadáveres a menos

Se olharmos o estado como um todo, o levantamento do “Mapa da Violência 2012” revela alguns pontos positivos. Entre 2000 e 2010 a taxa de homicídio juvenil caiu 49,4%. Foi de 107,7 por 100 mil habitantes para 54,5. Ainda é alta. Hoje isso significa que um jovem entre 15 a 24 anos tem o dobro de chances de morrer assassinado no Rio – já que a taxa geral de homicídios no estado é de 26,2 por 100 mil. Essa é, por coincidência, a mesma do Brasil. E pela primeira vez desde 1980 a taxa do Rio não é superior a nacional.

A capital, que chegou a liderar as estatísticas como a com maior número de homicídios per capita do Brasil, passou a ser a quinta menos violenta em 2010. São Paulo é a menos violenta entre as 27 – o que o responsável pela pesquisa, Julio Jacobo Waiselfisz, considera uma reversão digna de nota. Campo Grande, Palmas e Florianópolis são as seguintes (as duas últimas com números ascendentes entre 2000 e 2008).

É importante notar que, no caso do Rio, os números apresentam discrepância em relação aos usados pelas autoridades estaduais, que são baseados no ISP (Instituto de Segurança Pública). Segundo esses dados ocorreram 4.768 homicídios (além de 50 lesões corporais seguidas de morte, 156 latrocínios, 545 encontro de cadáveres e 28 encontro de ossadas). Essas informações têm, como origem, os boletins de ocorrência policial.

O número apresentado no “Mapa da Violência” é significativamente inferior.  São 575 cadáveres a menos. Foram contabilizados 4.193 homicídios. São dados preliminares oriundos dos registros de óbito passados pelas secretarias de Saúde municipais para as estaduais – que encaminham para o ministério da Saúde.

“Esse é o instrumento legal brasileiro que testemunha a causa da letalidade”, afirma Waiselfisz, justificando ao iG a escolha da fonte da pesquisa. “Nas certidões de óbito as mortes são anotadas como agressão intencional. Não há distinção entre homicídio e latrocínio, por exemplo, porque, para esse registro, o motivo não importa, só a causa mortis”, explica ele.

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terça-feira, 13 de dezembro de 2011 Reportagem | 12:31

‘Álbuns de família’ expõe a privacidade de políticos poderosos do acervo do CPDOC

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Se de perto ninguém é normal, como disse Caetano Veloso, isso serve para o oposto, de perto ninguém é tão anormal ou diferente assim. Mesmo políticos poderosos, polêmicos, ou até ditadores, têm lá seus momentos prosaicos de ternura, doçura ou singeleza na intimidade, como revela a exposição “Álbuns de Família – A vida privada no acervo CPDOC”, no Espaço Cultural FGV (Rua da Candelária, 6, no Centro do Rio).

Tancredo Neves (no centro, à direita) fantasiado no carnaval

Tancredo Neves (no centro, à direita) fantasiado no carnaval

A exposição é um mergulho na iconografia guardada pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, o maior do País, que abriga mais de 1,8 milhão de documentos e cerca de 200 arquivos pessoais de homens públicos.

Organizada por Mônica Almeida Kornis, responsável pelo setor audiovisual do CPDOC, e por Regina da Luz Moreira, a exposição conta com material de acervos de alguns presidentes, como Getúlio Vargas, João Goulart, Costa e Silva, Ernesto Geisel e Tancredo Neves. Mas também usa fotos de políticos não tão expressivos, como embaixadores, governadores e ministros.

A mostra está dividida em três partes: “Retratos de família”, com fotos mais convencionais, muitas posadas em estúdio; “Lazer”, com imagens de viagens e férias; e “Comemorações”, com registros de cerimônias marcantes, como casamentos, batizados ou aniversários”.

O presidente Ernesto Geisel nadando no mar do Havaí

O presidente Ernesto Geisel nadando no mar do Havaí

Alguns flagrantes inusitados chamam a atenção. Principalmente dos personagens mais conhecidos. É o caso do ex-presidente Ernesto Geisel no mar do Havaí, ou de Tancredo Neves, ainda criança, fantasiado em um baile de carnaval. Ou do sisudo general Costa e Silva recebendo um beijo carinhoso da neta.

Entre ex-presidentes, Getúlio Vargas e sua família têm um destaque maior. É dele um dos principais acervos da instituição, juntos com os de Tancredo, do ex-ministro Gustavo Capanema e do ex-chanceler Azeredo da Silveira.

Ulisses Guimarães com Ruth Marinho (então mulher de Roberto Marinho) em Angra dos Reis

Ulisses Guimarães com Ruth Marinho (então mulher de Roberto Marinho) em Angra dos Reis

Alimentando as emas e de sunga azul

A exposição revela um olhar pouco usual para a intimidade do poder. Dos principais governantes brasileiros, o único que fez questão de mostrar sua vida privada de forma constante e oficial foi Luiz Inácio Lula da Silva. O fotógrafo da Presidência, Ricardo Stuckert, teve acesso franqueado à intimidade de Lula e de sua família.

Em oito anos de poder não faltaram registros de atividades prosaicas de Lula, como dar comida aos peixes e emas do Palácio da Alvorada com uma camiseta do Vasco; deitado na grama abraçado à cadela de estimação, Michele; trocando afagos com a primeira-dama, Maria Letícia; e fantasiado de caipira na famosa festa junina que costumava promover na Granja do Torto.

Algumas fotos devem ter enlouquecido os diplomatas encarregados do cerimonial e preocupados com o protocolo do cargo. Afinal, não há liturgia que resista a um presidente submerso vestindo apenas uma sunga azul como o flagrante captado na Praia de Atalaia em Fernando de Noronha.

Mas Lula é um político diferente dos demais. Não só por isso, claro. Outros governantes brasileiros se deixaram mostrar em momentos privados, mas nenhum com tamanho grau de evasão de privacidade. A divulgação de registros tão íntimos, entretanto, acabam por ajudar a compor a imagem pública desses personagens.

Muitas vezes tais flagrantes tinham um objetivo político. Um caso famoso, certamente, é o de Fernando Collor, que costumava fazer suas corridas dominicais vestindo camisetas com slogans.

Cartão de natal e sombrinhas no cemitério

Na exposição do CPDOC, contudo, ambos estão de fora. Seus acervos não fazem parte da instituição. “Álbuns de Família”, foca nos diversos aspectos da vida privada de homens públicos que atuaram no cenário político brasileiro pós-1930”. Entretanto, a despeito do texto de apresentação, personagens pré-revolução de 30 não foram esquecidos.

Familiares de Quintino Bocaiúva visitam seu túmulo em 1913, no primeiro aniversário de sua morte

Familiares de Quintino Bocaiúva visitam seu túmulo em 1913, no primeiro aniversário de sua morte

É o caso de Quintino Bocaiúva, que foi o primeiro ministro das Relações Exteriores após a proclamação da República, em 1889, e foi presidente do Estado do Rio de Janeiro no início do século passado. Um bairro do Rio, aliás, foi batizado em sua homenagem. Em exibição está uma foto de 11 de junho de 1913. Sua família visita seu túmulo no primeiro aniversário de sua morte – com todos os membros vestidos de preto e as mulheres com sombrinhas para proteger do sol posando circunspectos para um fotógrafo.

Nesse registro, como em vários outros, não há homens públicos nas fotos, mas familiares. Como no caso dos netos do marechal Odílio Denys, ex-ministro da Guerra e expoente do golpe de 1964, sentados em uma escada em um cartão de boas festas de 1980. Ou nas fotos de Alzira e Getúlio Vargas Filho curtindo o carnaval em Poços de Caldas em 1935, quando o pai era presidente.

É interessante perceber também – e isso é ressaltado pelas organizadoras – a maneira como evoluiu com o passar do tempo a relação dos fotografados com a câmera. Das poses duras em estúdio até flagrantes descontraídos.

Sem contexto

Eis aí, entretanto, a nota fora de tom da exposição. Há maior preocupação em discorrer sobre a evolução técnica da fotografia do que em explicar o momento captado, sua importância, ou mesmo quem é o retratado. Como se o público comum soubesse quem foram Agamenon Magalhães (interventor e governador de Pernambuco e ministro da do trabalho e da Justiça entre as décadas de 30 e 50), Cordeiro de Farias (participante do movimento tenentista na década de 20, da revolução de 30, interventor no Rio Grande do Sul e governador de Pernambuco), ou Temístocles Cavalcanti (ex-ministro do STF), para citar alguns. Afinal, personagens mais conhecidos como presidentes da República estão em minoria.

Para uma instituição que tem como fundamento a preservação da memória e trabalha com a divulgação de informações sobre a história contemporânea do País soa como uma falha.

Mônica Kornis discorda e explica que essa nunca foi uma preocupação na feitura da exposição. “Não pensamos nisso. Isso privilegiaria menos a questão privada e mais a dimensão política dessas figuras. Não importa tanto saber se o personagem era um ministro, presidente ou um governador, mas sim fazer um recorte da vida privada, independente de quem eram”.

E diz que a ideia da mostra foi justamente preencher uma lacuna. “Temos um conjunto grande de imagens nos nossos arquivos e seu uso é centrado na trajetória política dos homens públicos. O aspecto relativo à vida privada é secundário nas pesquisas da casa e de fora”.

O presidente Getúlio Vargas abraça o pai, Manuel do Nascimento Vargas (com o irmão, Viriato, à direita),

O presidente Getúlio Vargas abraça o pai, Manuel do Nascimento Vargas (com o irmão, Viriato, à direita)

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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011 Reportagem | 09:04

De Sepetiba a Praia Grossa, as 71 praias cariocas

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Do Leme ao Pontal não há nada igual… no mundo. Sem contar com Calabouço, Flamengo, Botafogo, Urca, Praia Vermelha, já cantava Tim Maia com seu vozeirão.

Praia do Diabo, com Ipanema e Leblon ao fundo

Praia do Diabo, com Ipanema e Leblon ao fundo

Só que Tim deixou de lado muitas praias famosas da cidade do Rio de Janeiro. Ele nomeou 7 das 71 que formam os 90 km da orla carioca – em mar aberto, em restinga e na Baía de Guanabara.

Símbolos do Rio, elas foram inventariadas e ganharam um roteiro em “Praias Cariocas”, do designer Claudio Novaes, 50 anos, gerente de Disseminação de Informação do IPP (Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos), que lançou esta semana o livro (R$ 25) com fotos dele e do fotógrafo Cesar Duarte.

Algumas são famosas internacionalmente, como Copacabana e Ipanema, que renderam músicas e se transformaram em dois dos mais vistosos cartões postais do País.

Tirando a roupa

Abricó, em Grumari, é a praia naturista do Rio

Com 270 metros de extensão, Abricó é a praia naturista do Rio

Há outras que já tiveram algum destaque ou que, ocasionalmente, ganham atenção da mídia. No primeiro caso é possível citar a Praia de Ramos, com seu piscinão na Zona Norte. No segundo caso está Abricó. Com seus 270 metros de extensão, e cercada por pedras e vegetação, é a única reserva naturista da cidade. Para entrar lá só seguindo os preceitos da associação que administra o lugar. Em outras palavras, tirando a roupa e ficando ao natural.

Praia de Ramos, na Baía de Guanabara, com o piscinão de Ramos

Praia de Ramos, na Baía de Guanabara, com o piscinão de Ramos

“Pensei em estruturar o livro  como um roteiro, como se o leitor caminhasse pela orla da cidade, de Sepetiba até Paquetá, a ilha no meio da Baía de Guanabara”, explica Cláudio, que levou 11 meses de pesquisa e trabalho de campo, indo a todas as praias citadas. Ou quase. “Em Abricó só fui até a entrada”, ri.

Como ponto de partida ele usou uma listagem e informações do IPP, que à maneira de um IBGE carioca reúne informações estatísticas sobre a cidade. As praias foram ordenadas em cinco áreas: Zona Oeste, Barra da Tijuca, Zona Sul, Zona Norte e Ilha de Paquetá.

Local de fundação da cidade

E cada uma apresenta mapa de localização, informações sobre acessos, serviços e equipamentos disponíveis, além de curiosidades. Por exemplo, a Praia de Fora, dentro da fortaleza de São João, na Urca, não é somente a última praia da Zona Sul antes da baía. Foi láque Estácio de Sá fundou a cidade, em 1565.

A José Bonifácio, ou da Guarda, na Ilha de Paquetá, ganhou esse nome  por conta da guarda montada para vigiar a prisão domiciliar de José Bonifácio de Andrada e Silva, o patriarca da independência.

“A de São Bento, na Ilha do Governador, tem uma história interessante. A área foi doada por um fazendeiro aos padres beneditinos em troca da salvação da alma dele e da família”, conta Cláudio.

Praias selvagens

Mapa do livro mostra a localização das praias selvagens

Mapa do livro mostra a localização das praias selvagens

Na Zona Oeste ficam as cinco praias “selvagens” da cidade, sem acesso formal ou qualquer infraestrutura no local. Para chegar a esses pontos, protegidos por paredões de pedra e vegetação intocada, só por barcos ou caminhando por trilhas.

Praia do Perigoso é uma das cinco ainda selvagens na cidade

A praia do perigoso é uma das cinco ainda selvagens na cidade

As praias dos Búzios, do Perigoso, do Meio, Funda e do Inferno ficam próximas, entre Grumari e Barra de Guaratiba. Desconhecidas dos cariocas, elas ficam praticamente desertas durante a semana e são pouco visitadas nos finais de semana.

“As selvagens são mais bonitas, mas não têm qualquer infraestrutura. Gosto de Grumari, que tem alguma estrutura, quiosques para comer ou beber algo, e são um pouco selvagens ainda”, afirma Cláudio, que também frequenta a Barra.

Nem todas as 71 são próprias para banho. “As praias de Paquetá são muito bonitas, mas não são balneáveis. Elas sofrem com a degradação da baía, infelizmente”, diz Cláudio sobre a parte final de seu roteiro, que termina com as 14 praias da ilha.

Aliás, se seguisse a geografia carioca, Tim Maia teria feito outra letra para “Do Leme ao Pontal”. De Sepetiba a Praia Grossa não há nada igual… no mundo. Hum, pensando bem, melhor não.

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sábado, 3 de dezembro de 2011 Reportagem | 08:01

Desconhecido dos cariocas, o Morro da Conceição abre suas portas

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É como uma pequena e tranquila cidade do interior no meio do burburinho caótico do centro do Rio de Janeiro. A poucos passos do antigo cais do porto da praça Mauá, com suas decadentes boates de strip-tease; do início da avenida Rio Branco, e atrás da avenida Presidente Vargas, com seus engravatados apressados, está escondido o Morro da Conceição.

Palácio episcopal, hoje ocupado pelo exército

Palácio Episcopal, hoje ocupado pelo Exército

Escondido não é modo de dizer. Um paredão de prédios impede a visão do local, desconhecido da maioria dos cariocas apesar de ser um dos marcos fundadores da cidade e de extrema importância para o desenvolvimento do que se tornou o Rio de Janeiro. Poucos sabem que há uma fortaleza no morro, com guarnição do exército e tudo – e aberta a visitação.

Vista de uma rua do Morro da Conceição

Vista de uma rua do Morro da Conceição

Com os morros do Castelo, de Santo Antônio e de São Bento, o da Conceição formava os quatro pontos onde o Rio de Janeiro nasceu e cresceu por quase três séculos a partir de sua fundação em 1565.

Essa áreas foram privilegiadas no início por conta das características topográficas da região, dominada por manguezais e áreas inundáveis. Os dois primeiros morros foram destruídos. O terceiro abriga o mosteiro que leva seu nome. O único que permanece como local de moradia é o da Conceição, com casario antigo de sobrados centenários em meio a becos, ladeiras, escadarias e ruelas com nomes estranhos, como rua do Escorrega.

A baía de Guanabara chegava aos pés do Morro da Conceição cujas muradas que serviram de ancoradouro durante séculos. Em seu topo, em 1634, foi construída a ermida de Nossa Senhora da Conceição, que se tornou o convento dos Capuchinhos. É lá que ficaria o Palácio Episcopal, com a chegada em 1702 do bispo d. Francisco de São Jerônimo, que escolheu o lugar para morar.

Pilhagem corsária

Fachada de uma casa no Morro da Conceição

Fachada de uma casa no Morro da Conceição

Oito anos depois o local foi alvo das baterias francesas na tentativa fracassada de invasão capitaneada por Duclerc.  No ano seguinte – a exatos 300 anos -, em nova investida comandada pelo corsário René Duguay-Trouin, os franceses foram bem sucedidos, após bombardeio e saque da cidade. Ele escolheu o palácio como sua residência. Só foi embora após receber um resgate.

Para evitar experiências do tipo, os cariocas resolveram reforçar a defesa da cidade construindo uma fortaleza nos fundos do terreno do palácio. Mais tarde ela receberia como prisioneiros, três participantes da Inconfidência Mineira, incluindo Thomaz Antonio Gonzaga (o Dirceu do poema arcadiano “Marília de Dirceu”).

Hoje, a fortaleza da Conceição abriga a 5ª Divisão de Levantamento do Exército, responsável pela área de cartografia da corporação. Além da fortaleza do Exército, o local também abriga um observatório, o do Valongo, onde antes havia uma chácara em que escravos eram vendidos, nos períodos colonial e imperial.

Samba, escravos e a Pedra do Sal

A Pedra do Sal, onde escravos desembarcavam na cidade

Em uma das entradas do morro, aliás, está a Pedra do Sal, que ganhou esse nome porque o tal produto era descarregado das embarcações ancoradas nas proximidades. Com o tempo, escravos também passaram a descer ali dos navios negreiros. No início do século passado, a área, frequentada por Pixinguinha, Donga e João da Baiana foi um dos berços do samba.

O restaurador Oyama Achcar é um dos artistas com ateliê no local

O restaurador Oyama Achcar é um dos artistas com ateliê no local

Apesar da localização central e da importância histórica, o Morro da Conceição foi se deteriorando com os anos. Cerca de 500 famílias ainda moram no local, que está passando por obras. Algumas moradores foram personagens do documentário feito pela cineasta Cristiana Grumbach com o nome do lugar.

Ultimamente passou a acolher artistas plásticos, que ajudaram a revigorar o bairro e criaram o projeto Mauá. Eles organizam, anualmente, o “Arte por toda parte”, que abre as portas dos ateliês e realiza eventos culturais. Um deles é o Ventos do Norte, de Oyama Achcar (especializado em restauração) e Tania Gollnick. O deste ano é neste final de semana.

Com feira de artesanato e antiguidades, palestras e inclui com shows da Orquestra Voadora (no sábado) e do bloco de carnaval Escravos da Mauá (no domingo).

Também têm passeios feitos por guias do programa Palácios do Rio, desenvolvido pelo Laboratório de Tecnologia e Desenvolvimento Social da Coppe/UFRJ.

De forma didática e interessante, eles contam a história do morro e ainda visitam a fortaleza da Conceição. O projeto se encerra na próxima semana, no dia 8 (o telefone para agendar é 21/2263-0685).

Baía de Guanabara vista da fortaleza da Conceição

Baía de Guanabara com a ponte Rio-Niterói ao fundo vista da fortaleza da Conceição

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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011 Reportagem | 16:04

Após três anos, favela com primeira UPP quer mais serviço para ‘bacanas’

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José Mário Hilário dos Santos levanta a placa de zinco encostada na base da parede de uma casa. Ela esconde um buraco sem iluminação com um líquido escuro viscoso no fundo e um odor fétido e nauseante que passa embaixo da moradia.  É uma das muitas valas negras que permeiam as vielas da favela Santa Marta, na zona sul carioca.

Presidente da associação de moradores da Santa Marta, José Mário, 51 anos, não titubeia em apontar o saneamento precário como o principal problema da comunidade. “Agora a gente paga a taxa da Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgoto) e ainda temos esgoto a céu aberto”, lamenta ele enquanto coloca a placa de zinco no lugar.

Basta um passeio pela favela para constatar que a coleta de lixo também é um problema longe da solução, com detritos jogados nas escadarias e nos becos.

Vista do alto da favela Santa Marta

Vista do alto da favela Santa Marta

Encravada entre Laranjeiras e Botafogo, com 1.262 famílias segundo o Censo de 2000 (último dado oficial disponível), a Santa Marta recebeu a primeira UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) há exatos três anos, em dezembro de 2008. Palco do clipe “They Don’t Care About Us”, de Michael Jackson, em 1996, a favela  foi “o laboratório” das UPPs, como definiu o governador Sérgio Cabral, que promete ampliar a experiência das 18 comunidades atuais para 40 até 2014, quando haverá a Copa do Mundo.

788 degraus até o topo

Vista da favela Santa Marta

Vista da favela Santa Marta, com a lagoa Rodrigo de Freitas ao fundo

Após a pacificação, turistas começaram a subir o morro, curiosos para conhecer um outro lado da cidade. No alto, a 788 degraus do asfalto,  se descortinam vistas deslumbrantes do Cristo Redentor, da lagoa Rodrigo de Freitas, do Pão de Açúcar e da enseada de Botafogo.  A garotada da zona sul também frequenta a quadra da Escola de Samba Mocidade Unida do Santa Marta, que fica na parte baixa.

Da última vez em que subi o Santa Marta (também conhecido como Dona Marta), José Hilário já era o presidente da associação de moradores e era um pouco reticente sobre a ocupação pela PM após a expulsão dos traficantes que dominavam o local. Não era a primeira vez que isso ocorria. Da outra vez, em 1999, os traficantes voltaram.

“O começo foi tenso. O favelado nunca vai confiar na polícia de uma hora para a outra”, diz ele, que nasceu no morro. Dois anos e meio depois, virou um entusiasta do processo. “Agora só temos os problemas comuns do resto da cidade, como discussões de vizinhos por causa do som alto”, exemplifica com um sorriso largo.

Na esteira da entrada da polícia o poder público entrou com serviços sociais: de médico de família a cursos de empreendedorismo, de iluminação pública a aulas de inglês, espanhol, música e artes marciais.  Um plano inclinado de 450 metros foi construído. E a favela foi a primeira a ganhar uma rede de internet sem fio.

“A gente quer o estado dentro da comunidade. Queremos segurança, educação, cultura, esporte e lazer, saúde, moradia digna… Se tivessem feito há 50 anos o que estão fazendo hoje, não seria preciso UPP. Agora estão nos dando o que é nosso direito. Mas ainda falta… Bacana tem rua asfaltada, arborizada”.

José Mario diz que os moradores são favoráveis a essa inclusão formal, mesmo que isso represente um gasto extra, como na substituição de ligações clandestinas de TV a cabo pelas oficializadas. “Antigamente, as empresas prestavam serviço até o pé do morro. Faziam para os bacanas e não queriam botar para a gente. Hoje a gente é cliente como qualquer um. Tem problema? Ligamos para a empresa. Fez errado? Procon neles”.

De cusparadas a abraços

A major Pricilla conversa com crianças que saem da aula de caratê

A major Pricilla conversa com crianças que saem da aula de caratê

Para a polícia houve um aproximação da relação com os moradores, que chegavam a cuspir no chão ao passarem por PMs. No início, a então capitã Pricilla Azevedo, a pioneira no comando de uma UPP, andava com um colete à prova de bala pesando seis quilos e acompanhada de escolta com fuzis. Havia receio de uma tentativa de retomada, o que nunca ocorreu.

Agora, em visita à comunidade, já como major e coordenadora de programa estratégico da Secretaria de Segurança Pública (espécie de assessora de planejamento para UPPs), Pricilla anda sozinha, de vestido preto colado ao corpo, sem arma. As crianças e mulheres fazem festa, abrem sorrisos, dão beijos e abraços.

“A dificuldade maior é conquistar a confiança do morador. Expulsar traficante é fácil. E hoje estão fugindo da gente. Mas confiança é algo íntimo”, compara.

Chamem o síndico

O comandante da UPP, capitão Andrada, em um mirante da favela

O comandante da UPP, capitão Andrada, em um mirante da favela

Do ponto de vista da segurança pública a pacificação é um sucesso inconteste. Não houve nenhum homicídio na favela, que foi palco de confrontos sangrentos nos anos 80 e 90.  E não houve tampouco qualquer registro de apreensão de armas nos últimos anos.

A droga continua a circular na favela, mas para consumo pessoal. Foram 26 apreensões de janeiro de 2010 até junho deste ano. “Mas quem vem de fora para comprar, hoje, é difícil conseguir”, afirma o capitão Rodrigo Andrada, lembrando que, um ano antes da implantação da UPP a polícia apreendeu uma tonelada de maconha no morro.

Ele conta que a maioria das ocorrências atualmente é para resolver brigas de casais ou entre vizinhos. E para levar moradores que passam mal até o posto de saúde nas viaturas.

A PM acabou se tornando a para-raios de todos os problemas e anseios da comunidade. “Viramos a referência do estado nessas comunidades. Não é nosso papel, mas não causa mal nenhum. É um papel de síndico”, avalia Pricilla.

Como a ilustrar a história, um rapaz se aproxima e interrompe a conversa pedindo para falar com o capitão Andrada. O morador reclama do estado do piso do campo de futebol no alto da favela e pede para o policial resolver a questão.

“Os traficantes resolviam tudo e isso criava uma acomodação entre os moradores. Eles esperam que alguém resolva as coisas para eles. Antes era o traficante, agora é o comandante da UPP”, observa Pricilla, sinalizando que há ainda um longo caminho a percorrer na integração entre asfalto e morro.

José Mário Hilário, presidente da associação de moradores da favela Santa Marta

O presidente da associação de moradores, José Mário Hilário, mostra um dos valões de esgoto

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